Citação de

N√£o Consigo Viver em Literatura

Por mais que o deseje, n√£o consigo viver em literatura. Felizes os que o conseguem. Viver em literatura √© suprimir toda a interfer√™ncia do que lhe √© exterior – desde o peso das pedradas ao das flores da ova√ß√£o. Suprimir mesmo ou sobretudo a conversa sobre ela, desde a dos jornais √† dos amigos. Fazer da literatura um meio enclausurado em que a respiremos at√© √† intoxica√ß√£o e nada dele transpire para a exterioridade. Viver a arte como uma m√≠stica, um transporte de inebriamento, uma ilumina√ß√£o da gra√ßa, uma inteira absor√ß√£o como de um v√≠cio inconfess√°vel. Viv√™-la na intimidade de uma absoluta solid√£o em que toda a amea√ßa de p√ļblico esteja ausente como numa ilha que a impossibilidade de comunica√ß√£o tornasse de facto deserta. Os rec√©m-casados isolam-se para defenderem dos outros a m√≠nima parcela da paix√£o. A vida em arte devia ser uma viagem de n√ļpcias sem retorno. S√≥ ent√£o se conheceria tudo o que a arte √© para n√≥s e a inteira verdade com que n√≥s somos para ela. Mas n√£o. H√° que viver uma vida d√ļplice entre o estar a s√≥s com ela e o permanente conv√≠vio, nem que sejam uns breves instantes √† porta com os indiferentes e os maledicentes e os curiosos e mesmo os admiradores de que se necessita na nossa inferioridade moral para nos confirmarem no bom resultado da aposta. Assim se n√£o vive no monaquismo, que √© a sua inexor√°vel verdade, mas se professa numa ordem quase laica em que se tem de viver l√° fora e s√≥ de vez em quando se regressa √† nossa cela. S√≥ h√° arte da solid√£o, e os que lhe pregam um destino de rua deveriam defender que se fizesse amor na pra√ßa p√ļblica. Os efeitos desse viver solit√°rio, ou seja, de exclusiva absor√ß√£o na arte, sentir-se-iam naturalmente em quem viesse a frequentar-lhe a obra. Mas sentiam-se como os milagres de um santo anacoreta.
Seriam efeitos exteriores ao viver em deserto, onde at√© a mem√≥ria breve do mundo distante fosse j√° um pecado…