Cita√ß√Ķes sobre Pra√ßa

72 resultados
Frases sobre pra√ßa, poemas sobre pra√ßa e outras cita√ß√Ķes sobre pra√ßa para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Descri√ß√£o Da Cidade De Sergipe D’el-Rei

Tr√™s d√ļzias de casebres remendados,
Seis becos, de mentrastos entupidos,
Quinze soldados, rotos e despidos,
Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,
Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,
Três presos de piolhos carcomidos,
Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta,
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de chita, cinta de raqueta.

O feijão, que só faz ventosidade
Farinha de pipoca, p√£o que greta,
De Sergipe d’El-Rei esta √© a cidade.

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem pal√°cios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa Рbranca e rota
a blusa de seu povo – essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as √°guas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa est√£o voltadas
contra as m√£os desarmadas – povo armado
de vento revoltado violas astros
Рmeu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das pris√Ķes tem velas rios
dentro das m√£os navios prisioneiros
ai olhos marinheiros – mar aberto
– com Lisboa t√£o longe em Lisboa t√£o perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa s√£o seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada m√£o
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde h√° versos que s√£o cravos vermelhos
Lisboa que ninguem ver√° de joelhos.

Continue lendo…

Acendem-se as Luzes

Acendem-se as luzes
nas ruas da cidade.

Ainda h√° claridade
ao alto das cruzes
da igreja da praça
e para l√° dos telhados
j√° meio esfumados
na mesma cor baça
do casario velho
que recobre a encosta
e mal entremostra
as cores de Botelho,
sobranceiro à massa
fluida e movente
das cordas de gente
por onde perpassa
um ar de alegria
que é do tempo quente
e deste andar contente
que no fim do dia
leva para casa,
a paz das varandas,
o √°lcool das locandas,
tanta vida rasa
minha semelhante.
Solid√£o povoada
que a tarde cansada
suspende um instante
ao acender das luzes.

Em cada olhar uma rosa
de propósito formosa
para que a uses.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

Continue lendo…

poema sobre o amor eterno

inventaram um amor eterno. trouxeram-no em bra√ßos para o meio das pessoas e ali ficou, √† espera que lhe falassem. mas ningu√©m entendeu a necessidade de sedu√ß√£o. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no ch√£o. n√£o estava desesperado, nada do que √© eterno tem pressa, estava s√≥ surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espa√ßo, o amor eterno deslizou para fora da pra√ßa. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas inten√ß√Ķes. carregou-o para dentro do seu cora√ß√£o, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar

Desastre

Ele ia numa maca, em √Ęnsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma m√£e erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: “Homem n√£o desfale√ßa!”
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

***
Findara honrosamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da prov√≠ncia, at√īnita, exclamava:
“Que provid√™ncias! Deus! L√° vai para o hospital!”

Por onde o morto passa h√° grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que n√£o entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas:
“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Continue lendo…

Esta express√£o ¬ęLeitura¬Ľ, h√° cem anos, sugeria logo a imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Plat√£o e de S√©neca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia da leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando p√°ginas √† pressa, no rumor de uma pra√ßa.

A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

Continue lendo…

N√£o Consigo Viver em Literatura

Por mais que o deseje, n√£o consigo viver em literatura. Felizes os que o conseguem. Viver em literatura √© suprimir toda a interfer√™ncia do que lhe √© exterior – desde o peso das pedradas ao das flores da ova√ß√£o. Suprimir mesmo ou sobretudo a conversa sobre ela, desde a dos jornais √† dos amigos. Fazer da literatura um meio enclausurado em que a respiremos at√© √† intoxica√ß√£o e nada dele transpire para a exterioridade. Viver a arte como uma m√≠stica, um transporte de inebriamento, uma ilumina√ß√£o da gra√ßa, uma inteira absor√ß√£o como de um v√≠cio inconfess√°vel. Viv√™-la na intimidade de uma absoluta solid√£o em que toda a amea√ßa de p√ļblico esteja ausente como numa ilha que a impossibilidade de comunica√ß√£o tornasse de facto deserta. Os rec√©m-casados isolam-se para defenderem dos outros a m√≠nima parcela da paix√£o. A vida em arte devia ser uma viagem de n√ļpcias sem retorno. S√≥ ent√£o se conheceria tudo o que a arte √© para n√≥s e a inteira verdade com que n√≥s somos para ela. Mas n√£o. H√° que viver uma vida d√ļplice entre o estar a s√≥s com ela e o permanente conv√≠vio, nem que sejam uns breves instantes √† porta com os indiferentes e os maledicentes e os curiosos e mesmo os admiradores de que se necessita na nossa inferioridade moral para nos confirmarem no bom resultado da aposta.

Continue lendo…

Poemas S√£o como Vitrais Pintados

Poemas s√£o como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficar√° agastado? ‚ÄĒ Que lhe preste!…
E agastado fique toda a vida!

Mas ‚ÄĒ vamos! ‚ÄĒ vinde v√≥s c√° para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
S√ļbito brilham hist√≥rias e ornatos;
Sente-se um press√°gio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Tradução de Paulo Quintela

Poesia Depois da Chuva

A Maria Guiomar

Depois da chuva o Sol Рa graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
Рluz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um p√°ssaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco Рcal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

T√£o alegre este Sol! H√° Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, n√£o duvidava agora.)
√ď Tarde virgem, Senhora Aparecida! √ď Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Gr√°cil, t√£o gr√°cil!… Pura imagem da Tarde…
Flor levada nas √°guas, mansamente…

(Flu√≠a a luz, num fluir impercept√≠vel quase…)

A Verdadeira Religi√£o

Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe ¬ęMas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo¬Ľ, ele, a tremer, sussurou-me ao ouvido – e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: – ¬ęA verdade? A verdade, L√°zaro, √© porventura uma coisa terr√≠vel, uma coisa intoler√°vel, uma coisa mortal; as pessoas simples n√£o conseguiriam viver com ela.¬Ľ
¬ęE porque √© que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confiss√£o?¬Ľ, perguntei-lhe. E ele respondeu: ¬ęPorque se n√£o atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por grit√°-lo no meio da pra√ßa, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou c√° para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e n√£o para os matar.
O que aqui faz falta √© que eles vivam s√£mente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, n√£o viveriam. Que vivam. E √© isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religi√£o verdadeira? Todas as religi√Ķes s√£o verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religi√£o mais verdadeira √© a sua,

Continue lendo…

Na Ampla Praça há apenas Plátanos

Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem est√°tuas a comovem bronzeadas.
Das margens secas, com ilhas e outras casas,
janelas, se as h√°, s√£o quase setas.
O frio perfurou t√°buas e latas.
Um vento seco corta junto aos olhos.

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça
estou na sombra dos pl√°tanos
e tudo vejo com vontade e amor.
Mas não chega a presença ou a vontade.
Outros n√£o chegam, ou aparecem apressados.
Nomes se referem. Desenha-se um olhar.
Apenas gesto, memória, sombra rara.

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me.
Das margens sempre vem algum calor.
Renascem os olhos. Os pl√°tanos movem-se.
As casas iluminam-se. Um grito
cobre a sombra e assim anima
a ampla solidão de todos nós.

O Método é Necessário para a Procura da Verdade

Os mortais s√£o dominados por uma curiosidade t√£o cega que, muitas vezes, envenenam o esp√≠rito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperan√ßa razo√°vel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: √© como se algu√©m, incendiado pelo desejo t√£o est√ļpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas pra√ßas p√ļblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) n√£o nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, n√£o estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que faz√™-lo sem m√©todo: √© cert√≠ssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as medita√ß√Ķes confusas obscurecem a luz natural e cegam os esp√≠ritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, n√£o pode suportar a luz do pleno dia.

√Č a experi√™ncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram √†s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por m√©todo regras certas e f√°ceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,

Continue lendo…

O Significado do Amor

O significado do amor é este: que pelo menos na presença de uma pessoa possamos mostrar-nos completamente a nu. Sabemos que ela ama, pelo que não interpretará mal. Sabemos que ela ama, portanto o medo desaparece. Pode revelar-se tudo. Podem abrir-se todas as portas, pode convidar-se essa pessoa a entrar. Pode começar-se a participar no ser do outro.
O amor √© participa√ß√£o, por isso, pelo menos com os seres amados, n√£o seja falso. N√£o estou a dizer para ser verdadeiro na pra√ßa p√ļblica, porque isso criaria problemas desnecess√°rios neste preciso momento. Mas comece com o amante, depois com a fam√≠lia, depois com pessoas que estejam mais afastadas de si. A pouco e pouco, aprender√° que ser verdadeiro √© t√£o belo que estar√° disposto a perder tudo por causa disso. Depois na pra√ßa p√ļblica – depois a verdade passa simplesmente a ser a sua maneira de viver. O alfabeto do amor, da verdade, deve ser aprendido com aqueles que nos s√£o mais pr√≥ximos porque esses compreender√£o.

a capitalização do amor

n√£o escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas cl√°ssicas
da vida. n√£o nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
n√£o temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trov√Ķes bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias

Mapa

Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.

O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o
cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a
nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país

Mapa azul da inf√Ęncia:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.

Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,

Continue lendo…

A Noite Branca

Uma fonte clara e musical
canta na noite branca de Roma
e dos jardins pag√£os vem o aroma
que embalsama as camas dos amantes.

A √°gua de si mesma enamorada
cinge a fronte fria das est√°tuas
de dia feridas pelas f√°tuas
vozes dos turistas sucessivos.

A memória oculta das cloacas
narra o seu trajeto de √°gua e f√°bula
pela boca dos trit√Ķes e m√°scaras.

No brancor da praça adormecida
Aparece um travesti aidético
E ouve a fonte, a eterna voz da vida.

Evocação

Levanta-te Romeu do t√ļmulo em que dormes
E vem sorrir de novo à boa, à eterna luz!
De noite, ouço dizer que há sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto: ‚ÄĒ assim, que bem que est√°s!

Na terra h√£o de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruído
Nas horas vis do tedio e das insonias m√°s.

O mundo transformou-se; aquele fundo abismo
Do antigo amor fatal, fechou-se d’uma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto pódes crer; faz muito menos frio
√Ā luz do novo sol; do gaz provocador;
E o século apesar de gasto e doentio,
N√£o pode j√° escutar o c√Ęntico sombrio
Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos céus ainda por ti levanta as brancas mãos;
E enquanto por mim corre a tétrica ampulheta,

Continue lendo…