Textos sobre Matéria de Marguerite Yourcenar

2 resultados
Textos de matéria de Marguerite Yourcenar. Leia este e outros textos de Marguerite Yourcenar em Poetris.

A Perenidade das Ideias

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias t√™m de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras v√£s; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, √† maneira dessas massas inertes que algumas mulheres d√£o √† luz e que, em suma, n√£o s√£o mais do que um sonho da mat√©ria. Uma boa parte dos produtos do esp√≠rito n√£o passava tamb√©m de disformes sombras lunares. Outras no√ß√Ķes, mais claras e n√≠tidas, como que fabricadas por um mestre artes√£o, eram, por√©m, como aqueles objectos que, √† dist√Ęncia, iludem; imensamente admir√°veis eram os seus √Ęngulos e arestas; e todavia n√£o passavam de grades aonde o entendimento a se mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade n√£o tardaria a carcomir.
Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmutação: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do cérebro humano; não se conseguia, contudo, mais do que uma equivalência; da mesma forma que, naquelas experiências grosseiras em que os alquimistas da corte tentam provar aos príncipes seus clientes que algo descobriram, não era o ouro, no fundo da retorta, senão o de um banal ducado que, depois de correr de mão em mão,

Continue lendo…

A Realidade n√£o Est√° nos Livros

Como toda a gente, s√≥ disponho de tr√™s meios para avaliar a exist√™ncia humana: o estudo de n√≥s pr√≥prios, o mais dif√≠cil e o mais perigoso, mas tamb√©m o mais fecundo dos m√©todos; a observa√ß√£o dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os t√™m; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes √ļltimos serem considerados fr√≠volos, e devo-lhes talvez mais informa√ß√Ķes do que as que recebi das situa√ß√Ķes bastante variadas da minha pr√≥pria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes im√≥veis das est√°tuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia,

Continue lendo…