Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
sĂŁo os vossos punhais)

Quando me disseram «nĂŁo se vem Ă  vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessĂ­veis ao meu Ăłdio. Em mim fizestes despertar a irreparĂĄvel urgĂȘncia de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta ågua vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princĂ­pio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o nĂŁo semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mĂŁos de um corpo que ainda me nĂŁo nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a ĂĄgua e nela me deixar tombar.

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