Textos sobre Raz√£o de Friedrich Nietzsche

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Textos de raz√£o de Friedrich Nietzsche. Leia este e outros textos de Friedrich Nietzsche em Poetris.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

Absurdo, Liberdade e Projecto

Uma vez admitidos dois factos: que o devir n√£o tem fim e que n√£o √© dirigido por qualquer grande unidade na qual o indiv√≠duo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta s√≥ uma escapat√≥ria poss√≠vel: condenar todo esse mundo do devir como ilus√≥rio e inventar um mundo situado no al√©m, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo n√£o √© sen√£o constru√≠do sobre as suas pr√≥prias necessidades psicol√≥gicas e que ele n√£o √© de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a √ļltima forma do niilismo, que implica a nega√ß√£o do mundo metaf√≠sico e que a si mesma se pro√≠be de crer num mundo verdadeiro. Alcan√ßado este estado, reconhecemos que a realidade do devir √© a √ļnica realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam √† cren√ßa em outros mundos e em falsos deuses – mas n√£o suportamos este mundo que n√£o temos j√° a vontade de negar.
(…) Que se passou portanto? Cheg√°mos ao sentimento do n√£o valor da exist√™ncia quando compreendemos que ela n√£o pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade.

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O Bom Senso como Suporte da Humanidade

Se n√£o tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu esp√≠rito, da sua ¬ęraz√£o¬Ľ, dos amigos do ¬ębom senso¬Ľ, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imagina√ß√£o, a humanidade j√° teria naufragado h√° muito tempo.
A loucura, o seu pior perigo, n√£o deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar… quer dizer a irrup√ß√£o da lei do bom prazer em mat√©ria de sentimento de sensa√ß√Ķes visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do esp√≠rito e de considerar como um prazer a irris√£o humana. N√£o s√£o a verdade, a certeza que est√£o nos ant√≠podas do mundo dos insensatos; √© a cren√ßa obrigat√≥ria e geral, √© a exclus√£o do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens foi at√© agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,… quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do esp√≠rito que preservou a humanidade,… mas os instintos que a combatem s√£o ainda t√£o poderosos que em suma s√≥ se pode falar com pouca confian√ßa no futuro da humanidade.

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Prejudicar com o que se tem de Melhor

As nossas forças levam-nos por vezes tão longe que não podemos continuar a suportar as nossas fraquezas e disso perecemos: bem nos sucede prever esse resultado, mas não lhe podemos introduzir nenhuma modificação. Usamos então a dureza contra o que seria necessário poupar em nós memos, e a nossa grandeza faz a nossa barbárie.
Esta experi√™ncia, que acabamos por pagar com a vida, simboliza a ac√ß√£o dos grandes homens nos outros e no seu tempo: √© com aquilo que t√™m de melhor, com aquilo que s√£o os √ļnicos a poder fazer, que arruinam grande n√ļmero de seres fracos, incertos, sem vontade pr√≥pria, ainda em mudan√ßa, √© com aquilo que t√™m de melhor em si pr√≥prios que se tornam nocivos. Pode at√© acontecer que s√≥ prejudiquem porque aquilo que h√° de melhor nele s√≥ pode ser absorvido, esvaziado de um trago, de qualquer maneira, por seres que ali afogam a sua raz√£o e a sua individualidade, como se fosse num licor excessivamente forte: est√£o de tal modo embriagados que n√£o poder√£o deixar de partir os membros em todos os caminhos em que a sua embriaguez os fulminar√°.

O Que se Pode Prometer

Pode-se prometer ac√ß√Ķes, mas n√£o sentimentos, pois estes s√£o involunt√°rios. Quem promete a algu√©m am√°-lo sempre, ou odi√°-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que n√£o est√° em seu poder; mas o que pode perfeitamente prometer s√£o aquelas ac√ß√Ķes que, na verdade, s√£o geralmente as consequ√™ncias do amor, do √≥dio, da fidelidade, mas que tamb√©m podem emanar de outras raz√Ķes, pois a uma ac√ß√£o conduzem diversos caminhos e motivos. A promessa de amar sempre algu√©m significa, portanto: enquanto eu te amar, manifestar-te-ei as ac√ß√Ķes do amor; se eu j√° n√£o te amar, pois, n√£o obstante, receber√°s para sempre de mim as mesmas ac√ß√Ķes, ainda que por outros motivos. De modo que a apar√™ncia de que o amor estaria inalterado e continuaria sendo o mesmo permanece na cabe√ßa das outras pessoas. Promete-se, por conseguinte, a persist√™ncia da apar√™ncia do amor, quando, sem ilus√£o, se promete a algu√©m amor perp√©tuo.

O Homem Age Sempre Bem

N√£o acusamos a Natureza de imoral, se ela nos manda uma tro¬≠voada e nos molha: porque chamamos imoral √† pes¬≠soa que prejudica? Porque, aqui, admitimos uma vontade livre exercendo-se arbitrariamente; ali, uma necessidade. Mas essa distin√ß√£o √© um erro. E mais: nem em todas as circunst√Ęncias chamamos ¬ęimoral¬Ľ mesmo ao acto de lesar com inten√ß√£o; por exemplo, mata-se deliberadamente um mosquito, sem hesita¬≠√ß√£o, apenas porque o seu zumbido nos desagrada, castiga-se com inten√ß√£o o criminoso e inflige-se-Ihe sofrimento, para nos protegermos a n√≥s e √† socieda¬≠de. No primeiro caso, √© o indiv√≠duo que, para se manter ou at√© para n√£o se expor a um desagrado, faz sofrer intencionalmente; no segundo, √© o Estado. Toda a moral aceita que se fa√ßa mal de prop√≥sito, em leg√≠tima defesa: ou seja, quando se trata da conser¬≠va√ß√£o de si pr√≥prio! Mas estes dois pontos de vista bas¬≠tam para explicar todas as m√°s ac√ß√Ķes cometidas por seres humanos contra seres humanos: ou se quer prazer para si ou se quer evitar desprazer; em qual¬≠quer dos sentidos, trata-se sempre da conserva√ß√£o de si pr√≥prio. S√≥crates e Plat√£o tamb√©m t√™m raz√£o: seja o que for que o homem fa√ßa, ele faz sempre o bem, is¬≠to √©, aquilo que lhe parece bom (√ļtil),

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Toda a Comunidade nos Torna Vulgares

Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para al√©m. – Ter e n√£o ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pr√≥ e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; – √© que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; tamb√©m os √≥culos escuros; pois h√° casos em que ningu√©m nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas ¬ęraz√Ķes¬Ľ. E escolher, para companhia, aquele v√≠cio matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspic√°cia, a simpatia, a solid√£o. Pois a solid√£o √© entre n√≥s uma virtude, como tend√™ncia e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem – ¬ęem sociedade¬Ľ – tudo √©, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura – ¬ęvulgares¬Ľ.

As Três Fases da Moralidade

Temos o primeiro sinal de que o animal se tornou homem, quando a sua actua√ß√£o j√° n√£o se relaciona com o bem-estar moment√Ęneo, mas com o duradouro, pro¬≠va de que o homem adquire o sentido do “√ļtil”, do “adequado”: √© ent√£o que, pela primeira vez, irrompe o livre senhorio da raz√£o. Um est√°dio ainda mais ele¬≠vado √© alcan√ßado, quando ele age consoante o prin¬≠c√≠pio da honra; gra√ßas ao mesmo, ele adapta-se, sub¬≠mete-se a sentimentos comuns, e isso ergue-o muito acima da fase, em que s√≥ a utilidade entendida em termos pessoais o guiava: ele respeita e quer ser res¬≠peitado, isto √©, entende o proveito como dependente do que ele opina acerca dos outros, do que os outros opinam acerca dele. Finalmente, na fase mais eleva¬≠da da moralidade em uso at√© agora, ele age segundo o seu crit√©rio quanto √†s coisas e √†s pessoas, ele pr√≥prio determina para si e para outros o que √© honroso, o que √© √ļtil; tornou-se o legislador das opini√Ķes, em conformidade com o conceito cada vez mais desen¬≠volvido do √ļtil e do honroso. O conhecimento habi¬≠lita-o a preferir o mais √ļtil, ou seja, a colocar o pro¬≠veito geral e duradouro √† frente do pessoal, a respeitosa estima de valia geral e duradoura √† frente da moment√Ęnea;

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A Grandeza de Car√°cter

Obedecer aos pr√≥prios sentimentos? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso ou a um impulso de momento… Isso n√£o caracteriza um homem: todos s√£o capazes de faz√™-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corso certamente superam um homem honesto. O grau de superioridade √© vencer em si esse el√£ e realizar o acto her√≥ico, n√£o por um impulso, mas friamente, razoavelmente, sem a expans√£o de prazer que o acompanha. Outro tanto acontece com a piedade: ela h√°-de ser habitualmente filtrada pela raz√£o; caso contr√°rio, √© t√£o perigosa como qualquer outra emo√ß√£o. A docilidade cega perante uma emo√ß√£o – tanto importa que seja generosa ou piedosa como odienta – √© causa dos piores males. A grandeza de car√°cter n√£o consiste em n√£o experimentar emo√ß√Ķes; pelo contr√°rio, estas s√£o de ter no mais alto grau; a quest√£o √© control√°-las e, ainda assim, havendo prazer em model√°-las, em fun√ß√£o de algo mais.

Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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A Sabedoria do Corpo

Tu dizes ¬ęeu¬Ľ e orgulhas-te desta palavra. Mas h√° qualquer coisa de maior, em que te recusas a aceditar, √© o teu corpo e a sua grande raz√£o; ele n√£o diz Eu, mas procede como Eu.
Aquilo que a inteligência pressente, aquilo que o espírito reconhece nunca em si tem o seu fim. Mas a inteligência e o espírito quereriam convencer-te que são o fim de todas as coisas; tal é a sua soberba.
Inteligência e espírito não passam de instrumentos e de brinquedos; o Em si está situado para além deles. O Em si informa-se também pelos olhos dos sentidos, ouve também pelos ouvidos do espírito.
O Em si está sempre à escuta, alerta; compara, submete; conquista, destrói. Reina, e é também soberano do Eu.
Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo.
Há mais razão no teu corpo do que na própria essência da tua sabedoria.

A Felicidade e a Virtude N√£o S√£o Argumentos

Ningu√©m tomar√° facilmente por verdadeira uma doutrina somente porque ela torna felizes ou virtuosos os homens: exceptuando, talvez, os am√°veis ¬ęidealistas¬Ľ que se entusiasmam pelo Bom, o Verdadeiro, o Belo e fazem nadar, no seu charco, toda a esp√©cie de variegadas, pesadonas e bonacheironas idealidades. A felicidade e a virtude n√£o s√£o argumentos. Mas de bom grado se esquece, mesmo os esp√≠ritos ponderados, que tornar infeliz e tornar mau n√£o s√£o t√£o-pouco contra-argumentos. Uma coisa deveria ser certa, embora fosse muit√≠ssimo prejudicial e perigosa; seria at√© poss√≠vel fazer parte da estrutura b√°sica da exist√™ncia o perecermos por causa do nosso conhecimento total, – de forma que a for√ßa de um esp√≠rito se mediria justamente pela quantidade de ¬ęverdade¬Ľ que era capaz de suportar ou, mais claramente, pelo grau em que necessitasse de a diluir, velar, adocicar, embotar, falsificar. Mas est√° fora de d√ļvida o facto de os maus e infelizes serem mais favorecidos e terem maior possibilidade de √™xito na descoberta certas partes da verdade; para n√£o falar dos maus que s√£o felizes, – esp√©cie que os moralistas passam em sil√™ncio.

√Č poss√≠vel que a dureza e a ast√ļcia forne√ßam, para o desenvolvimento do esp√≠rito e do fil√≥sofo firmes e independentes,

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Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas ¬ęboas¬Ľ foram noutro tempo m√°s; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprud√™ncia de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, ben√©volos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os ¬ęvalores por excel√™ncia¬Ľ; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submiss√£o ao direito: oh! que revolu√ß√£o de consci√™ncia em todas as ra√ßas aristocr√°ticas quando tiveram de renunciar √† vingan√ßa para se submeterem ao direito! O ¬ędireito¬Ľ foi por muito tempo um vetitum, uma inova√ß√£o, um crime; foi institu√≠do com viol√™ncia e opr√≥bio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos supl√≠cios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumer√°veis m√°rtires; por estranho que isto hoje nos pare√ßa, j√° o demonstrei na Aurora, aforismo 18: ¬ęNada custou mais caro do que esta migalha de raz√£o e de liberdade, que hoje nos envaidece¬Ľ. Esta mesma vaidade nos impede de considerar os per√≠odos imensos da ¬ęmoraliza√ß√£o dos costumes¬Ľ que precederam a hist√≥ria capital e foram a verdadeira hist√≥ria,

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Cada um Usa a História da Forma que a Sente

A hist√≥ria pertence ao ser vivo por tr√™s raz√Ķes: porque ele √© activo e ambicioso; porque tem o gosto pela conserva√ß√£o e pela venera√ß√£o; porque sofre e tem necessidade de liberta√ß√£o. A essa rela√ß√£o tripla corresponde a forma tripla da hist√≥ria, na medida em que √© permitido distingui-las: hist√≥ria monumental, hist√≥ria tradicionalista, hist√≥ria cr√≠tica.
(…) Quando o homem que quer criar grandes coisas precisa do passado, usa a hist√≥ria monumental. Ao contr√°rio, aquele que quer perpetuar o que √© habitual e h√° muito venerado ocupa-se do passado mais como antiqu√°rio do que como historiador. Apenas aquele que a necessidade presente sufoca e quer a qualquer pre√ßo afastar o seu peso sente a necessidade de uma hist√≥ria cr√≠tica, isto √©, que julga e condena.