Textos sobre Verdadeiros de Friedrich Nietzsche

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Textos de verdadeiros de Friedrich Nietzsche. Leia este e outros textos de Friedrich Nietzsche em Poetris.

Absurdo, Liberdade e Projecto

Uma vez admitidos dois factos: que o devir n√£o tem fim e que n√£o √© dirigido por qualquer grande unidade na qual o indiv√≠duo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta s√≥ uma escapat√≥ria poss√≠vel: condenar todo esse mundo do devir como ilus√≥rio e inventar um mundo situado no al√©m, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo n√£o √© sen√£o constru√≠do sobre as suas pr√≥prias necessidades psicol√≥gicas e que ele n√£o √© de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a √ļltima forma do niilismo, que implica a nega√ß√£o do mundo metaf√≠sico e que a si mesma se pro√≠be de crer num mundo verdadeiro. Alcan√ßado este estado, reconhecemos que a realidade do devir √© a √ļnica realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam √† cren√ßa em outros mundos e em falsos deuses – mas n√£o suportamos este mundo que n√£o temos j√° a vontade de negar.
(…) Que se passou portanto? Cheg√°mos ao sentimento do n√£o valor da exist√™ncia quando compreendemos que ela n√£o pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade.

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O Bom Senso como Suporte da Humanidade

Se n√£o tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu esp√≠rito, da sua ¬ęraz√£o¬Ľ, dos amigos do ¬ębom senso¬Ľ, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imagina√ß√£o, a humanidade j√° teria naufragado h√° muito tempo.
A loucura, o seu pior perigo, n√£o deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar… quer dizer a irrup√ß√£o da lei do bom prazer em mat√©ria de sentimento de sensa√ß√Ķes visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do esp√≠rito e de considerar como um prazer a irris√£o humana. N√£o s√£o a verdade, a certeza que est√£o nos ant√≠podas do mundo dos insensatos; √© a cren√ßa obrigat√≥ria e geral, √© a exclus√£o do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens foi at√© agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,… quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do esp√≠rito que preservou a humanidade,… mas os instintos que a combatem s√£o ainda t√£o poderosos que em suma s√≥ se pode falar com pouca confian√ßa no futuro da humanidade.

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A Necessidade de Juízos de Valor

Qualquer que seja a sua situa√ß√£o, um homem tem necessidade de ju√≠zos de valor, merc√™ dos quais justifica – aos seus pr√≥prios olhos, e sobretudo aos dos que o cercam – os seus actos, as suas inten√ß√Ķes e os seus estados; melhor dizendo: a maneira de se glorificar a si pr√≥prio.
Toda a moral natural exprime a satisfa√ß√£o que uma certa esp√©cie de homens experimenta. Mas, tendo n√≥s necessidade de elogios, tamb√©m a temos de uma t√°bua concordante de valores, na qual os nossos actos mais f√°ceis figurem como os que exprimem a nossa verdadeira for√ßa e sejam os de mais elevada estima. √Č naquilo em que somos mais fortes que queremos ser vistos e honrados.

A Felicidade e a Virtude N√£o S√£o Argumentos

Ningu√©m tomar√° facilmente por verdadeira uma doutrina somente porque ela torna felizes ou virtuosos os homens: exceptuando, talvez, os am√°veis ¬ęidealistas¬Ľ que se entusiasmam pelo Bom, o Verdadeiro, o Belo e fazem nadar, no seu charco, toda a esp√©cie de variegadas, pesadonas e bonacheironas idealidades. A felicidade e a virtude n√£o s√£o argumentos. Mas de bom grado se esquece, mesmo os esp√≠ritos ponderados, que tornar infeliz e tornar mau n√£o s√£o t√£o-pouco contra-argumentos. Uma coisa deveria ser certa, embora fosse muit√≠ssimo prejudicial e perigosa; seria at√© poss√≠vel fazer parte da estrutura b√°sica da exist√™ncia o perecermos por causa do nosso conhecimento total, – de forma que a for√ßa de um esp√≠rito se mediria justamente pela quantidade de ¬ęverdade¬Ľ que era capaz de suportar ou, mais claramente, pelo grau em que necessitasse de a diluir, velar, adocicar, embotar, falsificar. Mas est√° fora de d√ļvida o facto de os maus e infelizes serem mais favorecidos e terem maior possibilidade de √™xito na descoberta certas partes da verdade; para n√£o falar dos maus que s√£o felizes, – esp√©cie que os moralistas passam em sil√™ncio.

√Č poss√≠vel que a dureza e a ast√ļcia forne√ßam, para o desenvolvimento do esp√≠rito e do fil√≥sofo firmes e independentes,

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H√°bitos Breves

Gosto dos h√°bitos que n√£o duram; s√£o de um valor inapreci√°vel se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que √© feita de breves h√°bitos, mesmo nas necessidades de sa√ļde f√≠sica, e, de uma maneira geral, t√£o longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente – porque o pr√≥prio h√°bito breve acredita na eternidade, nesta f√© da paix√£o; imagino que sou invej√°vel por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manh√£ √† noite, e ele espalha em mim uma satisfa√ß√£o, cujas del√≠cias me penetram at√© √† medula dos ossos, n√£o posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, a√≠ est√°: o h√°bito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me ent√£o, n√£o sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos dev√™ssemos gratid√£o e estendemo-nos a m√£o para nos despedirmos. E j√° um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha f√© – a indestrut√≠vel louca… e s√°bia! – em que este novo objecto ser√° o bom,

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Prejudicar a Estupidez

A reprova√ß√£o do ego√≠smo, que se pregou com tamanha convic√ß√£o casmurra, prejudicou certamente, no conjunto, esse sentimento (em benef√≠cio, hei-de repeti-lo milhares e milhares de vezes, dos instintos greg√°rios do homem), e prejudicou-o, nomeadamente no facto de o ter despojado da sua boa consci√™ncia e de lhe ter ordenado a procurar em si pr√≥prio a verdadeira fonte de todos os males. ¬ęO teu ego√≠smo √© a maldi√ß√£o da tua vida¬Ľ, eis o que se pregou durante mil√©nios: esta cren√ßa, como eu ia dizendo, fez mal ao ego√≠smo; tirou-lhe muito esp√≠rito, serenidade, engenhosidade e beleza; bestializou-o, tornou-o feio, envenenado.
Os fil√≥sofos antigos indicavam, ao contr√°rio, uma fonte completamente diferente para o mar; os pensadores n√£o cessaram de pregar desde S√≥crates: ¬ę√Č a vossa irreflex√£o, s√£o a vossa estupidez, o vosso h√°bito de vegetar obedecendo √† regra e de vos subordinar ao ju√≠zo do pr√≥ximo, que vos impedem t√£o amiudadamente de serdes felizes; somos n√≥s, pensadores, que o somos mais, porque pensamos¬Ľ. N√£o nos perguntemos aqui se este serm√£o contra a estupidez tem mais fundamentos do que o serm√£o contra o ego√≠smo; o que √© certo √© que despojou a estupidez da sua boa consci√™ncia: estes fil√≥sofos foram prejudiciais √† estupidez!

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O Prazer no Costume

Uma importante varie¬≠dade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, prov√©m do h√°bito. O usual faz-se mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se nisso um prazer e sabe-se, por experi√™ncia, que o habitual deu bom resultado, da√≠ √© √ļtil; um costume, com o qual se pode viver, est√° provado que √© salutar, pro¬≠veitoso, ao contr√°rio de todas as tentativas novas, ainda n√£o comprovadas. O costume √©, por conse¬≠guinte, a uni√£o do agrad√°vel e do √ļtil; al√©m disso, n√£o exige reflex√£o. Assim que o homem pode exer¬≠cer coac√ß√£o, exerce-a para impor e introduzir os seus costumes, pois para ele, eles s√£o a comprovada sabedoria pr√°tica. De igual modo, uma comunidade de indiv√≠duos obriga cada um deles ao mesmo cos¬≠tume.
Aqui est√° a conclus√£o errada: porque uma pessoa se sente bem com um costume ou, pelo me¬≠nos, porque por interm√©dio do mesmo assegura a sua exist√™ncia, ent√£o esse costume √© necess√°rio, pois passa por ser a √ļnica possibilidade de uma pessoa se conseguir sentir bem; o agrado da vida parece emanar exclusivamente dele. Esta concep√ß√£o do habitual como uma condi√ß√£o da exist√™ncia √© aplica¬≠da at√© aos mais pequenos pormenores do costume: dado que o conhecimento da verdadeira causalidade √© muito escasso entre os povos e as civiliza√ß√Ķes que se encontram a um n√≠vel baixo,

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Pretensos Graus de Verdade

Uma das frequentes conclus√Ķes falsas √© esta: como algu√©m √© verdadeiro e sincero para connosco, pois diz a verdade. Assim, a crian√ßa acredita nos ju√≠zos dos pais, o crist√£o nas afirma√ß√Ķes do fundador da Igreja. Do mesmo modo, n√£o se quer admitir que tudo aquilo, que os homens, com sacrif√≠cio da felicidade e da vida, defenderam em s√©culos anteriores, nada mais era do que erros: talvez se diga que tenham sido graus da verdade. Mas, no fundo, acha-se que se algu√©m acreditou honestamente em alguma coisa e combateu e morreu pela sua cren√ßa, seria, contudo, por de mais injusto se, efectivamente, apenas um erro o tivesse inspirado. Um caso assim parece contradizer a eterna justi√ßa; por isso, o cora√ß√£o das pessoas sens√≠veis decreta constantemente contra a sua cabe√ßa a seguinte norma: entre ac√ß√Ķes morais e ju√≠zos intelectuais tem de haver um nexo necess√°rio. Infelizmente, n√£o √© assim, pois n√£o h√° justi√ßa eterna.

A Segunda Juventude

Nos anos da juventude venera-se ou despreza-se ainda sem aquela arte da nuance que √© o melhor partido da vida e paga-se, com justi√ßa, muito caro o ter assaltado deste modo as coisas e as pessoas com sim e n√£o. Tudo se predisp√Ķe de modo que o pior de todos os gostos, o gosto do absoluto, seja cruelmente achicalhado e abusado, at√© que o homem aprenda a p√īr um pouco de arte nos seus sentimentos e prefira ousar fazer uma tentativa com o artificial: tal como o fazem os verdadeiros artistas da vida. A tend√™ncia para a c√≥lera e o instinto da venera√ß√£o, pr√≥prios da juventude, parecem n√£o descansar enquanto n√£o tiverem falseado homens e coisas para os poder dominar: – a juventude, j√° de si, √© algo que engana e falseia.

Mais tarde, quando a alma jovem, martirizada por mil desilus√Ķes, se volta por fim, desconfiada, contra si mesma, ardente e selvagem ainda, mesmo nas suas suspeitas e remorsos: como se encoleriza consigo mesmo, como se dilacera com impaci√™ncia, como se vinga da sua longa cegueira, como se ela tivesse sido volunt√°ria! Neste per√≠odo de transi√ß√£o autocastiga-se pela desconfian√ßa para com os seus pr√≥prios sentimentos; martiriza-se o entusiasmo pela d√ļvida;

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A Vantagem do Esquecimento

O esquecimento n√£o √© s√≥ uma vis inertioe, como cr√™em os esp√≠ritos superfinos; antes √© um poder activo, uma faculdade moderadora, √† qual devemos o facto de que tudo quanto nos acontece na vida, tudo quanto absorvemos, se apresenta √† nossa consci√™ncia durante o estado da ¬ędigest√£o¬Ľ (que poderia chamar-se absor√ß√£o f√≠sica), do mesmo modo que o mult√≠plice processo da assimilia√ß√£o corporal t√£o pouco fatiga a consciencia. Fechar de quando em quando as portas e janelas da consci√™ncia, permanecer insens√≠vel √†s ruidosas lutas do mundo subterr√Ęneo dos nossos org√£os; fazer sil√™ncio e t√°bua rasa da nossa consci√™ncia, a fim de que a√≠ haja lugar para as fun√ß√Ķes mais nobres para governar, para rever, para pressentir (porque o nosso organismo √© uma verdadeira oligarquia): eis aqui, repito, o of√≠cio desta faculdade activa, desta vigilante guarda encarregada de manter a ordem f√≠sica, a tranquilidade, a etiqueta. Donde se coligue que nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperan√ßa, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento.

A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas ¬ęboas¬Ľ foram noutro tempo m√°s; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprud√™ncia de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, ben√©volos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os ¬ęvalores por excel√™ncia¬Ľ; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submiss√£o ao direito: oh! que revolu√ß√£o de consci√™ncia em todas as ra√ßas aristocr√°ticas quando tiveram de renunciar √† vingan√ßa para se submeterem ao direito! O ¬ędireito¬Ľ foi por muito tempo um vetitum, uma inova√ß√£o, um crime; foi institu√≠do com viol√™ncia e opr√≥bio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos supl√≠cios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumer√°veis m√°rtires; por estranho que isto hoje nos pare√ßa, j√° o demonstrei na Aurora, aforismo 18: ¬ęNada custou mais caro do que esta migalha de raz√£o e de liberdade, que hoje nos envaidece¬Ľ. Esta mesma vaidade nos impede de considerar os per√≠odos imensos da ¬ęmoraliza√ß√£o dos costumes¬Ľ que precederam a hist√≥ria capital e foram a verdadeira hist√≥ria,

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A Sinceridade Habitual n√£o Passa de uma M√°scara

Toda a ac√ß√£o √© necessariamente mal conhecida. Para que n√£o expressemos contradi√ß√Ķes de momento a momento, precisamos de uma m√°scara – como acontece se quisermos ser sedutores. Mas √© prefer√≠vel conviver com os que mentem conscientemente, porque esses tamb√©m sabem ser verdadeiros conscientemente. Porque, a sinceridade habitual n√£o passa de uma m√°scara, da qual n√£o temos consci√™ncia.