Cita√ß√Ķes de Urbano Tavares Rodrigues

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Urbano Tavares Rodrigues para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Fim do Amor Tr√°gico e Rom√Ęntico?

Vivemos, de facto, numa √©poca em que a no√ß√£o de amor tr√°gico e rom√Ęntico, que herd√°mos do s√©culo dezanove, se tornou inactual, embora continue ainda a ser vivida por muitos – e at√© com o car√°cter de constru√ß√£o moral e est√©tica – essa rela√ß√£o extremamente apaixonada, exigente e exclusiva. A reclama√ß√£o da liberdade er√≥tica n√£o me parece que de algum modo tenda a degradar a vida, conquanto possa dessublimiz√°-la e do mesmo passo desmistific√°-la, precisamente no prop√≥sito de a tornar mais l√ļcida e mais generosa. Afigura-se-me que na contesta√ß√£o de todas as prepot√™ncias firmadas em preconceitos, em princ√≠pios estabelecidos aprior√≠sticamente, h√° sempre um nexo muito √≠ntimo entre a reinvindica√ß√£o da liberdade er√≥tica, da liberdade no trabalho e da liberdade pol√≠tica. E, naturalmente, quando se d√° uma explos√£o desta esp√©cie, √© como uma pedra que rola e que vai agregando uma s√©rie de materiais e descobrindo a sua pr√≥pria composi√ß√£o at√© √†s zonas mais profundas da sua estrutura.

O Amolecimento pela Sociedade de Consumo

Nos pa√≠ses subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder institu√≠do, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, origin√°rio por via de regra da m√©dia e da pequena burguesia ou mais raramente das classes prolet√°rias, contesta o statu quo, prop√Ķe solu√ß√Ķes revolucion√°rias ou, quando estas n√£o podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar faz√™-lo pela cr√≠tica, violenta ou ir√≥nica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os benefici√°rios do sistema de produ√ß√£o ergueram contra as aspira√ß√Ķes da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude id√™ntica de inconformismo; por√©m, os resultados da sua actividade de cria√ß√£o e reflex√£o tornam-se mat√©ria vend√°vel e, nalguns casos, mat√©ria integr√°vel.
O consumo do objecto art√≠stico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opini√£o, que os meios de comunica√ß√£o de massa, em escala largu√≠ssima , exercem, torna-se, sen√£o totalmente in√≥cuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conte√ļdo cr√≠tico. Despotencializa-se. Amolece. √Č o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve,

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A Repulsa do Poder pelo Homem de Letras

A repulsa dos poderes constitu√≠dos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a express√£o racionalista do fil√≥sofo e do soci√≥logo como a apreens√£o intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como amea√ßa aos sistemas de imposi√ß√£o de ideias ou de coerciva persuas√£o), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excep√ß√Ķes (que nalguns casos j√° beiram o limite da assimila√ß√£o) em outsider, representa uma destrui√ß√£o de valores culturais, que se traduz n√£o poucas vezes em atraso de gera√ß√Ķes.

Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produ√ß√Ķes vertebradas, que s√£o aut√™nticos gritos da intelig√™ncia rebelde e onde n√£o raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de per√≠odos em que se obscurece a comunica√ß√£o normal entre os homens e em que a ac√ß√£o do livro, reduzida embora em extens√£o, ganha uma acutilante qualidade cr√≠tica e concentra a dignidade de minorias advertidas culturalmente e firmes no seu esp√≠rito de resist√™ncia. Mas o saldo n√£o deixa de ser negativo quando se considera n√£o j√° tudo aquilo que o escritor suporta e sofre, mas – e sobretudo – o muito que a camada dos leitores perde pela falta de conv√≠vio efectivo com aqueles que s√£o n√£o,

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