Para o Sexo a Expirar
Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.
Passagens de Carlos Drummond de Andrade
1088 resultadosCertos políticos aprendem como andar velozmente de cócoras.
Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la.
Quando estamos muito felizes, sentimos falta de sentir falta de alguma coisa.
Todos os perfumes do mundo estão implícitos na limpeza do corpo.
Deus é tão universal que ao mesmo tempo existe para os crentes e inexiste para os outros.
Pelas notícias de ontem, publicadas hoje, devemos temer o jornal de amanhã.
A certa altura da vida não vale a pena acreditar que alguma coisa valha a pena.
Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo.
As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do carácter.
Falar mal de alguém é comprovar-lhe a existência; elogiar, nem sempre.
A ociosidade, mãe de todos os vícios, também gera alguns prazeres.
Escapar da prisão menor para a maior, é o que fazem ou sonham fazer os detentos.
A vida necessita de pausas.
A visita é alegria ou aborrecimento, conforme o visitante ou a hora.
O fato de o cão ser fiel ao homem não quer dizer que ele aprove as ações do dono.
A ilha preserva a liberdade pelo isolamento, o que não é solução.
Poema da Necessidade
É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
Um amigo íntimo — de si mesmo.
O mal ri-se dos maus incompetentes.