Cita√ß√Ķes sobre P√°ramo

10 resultados
Frases sobre p√°ramo, poemas sobre p√°ramo e outras cita√ß√Ķes sobre p√°ramo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Mocidade

Ah! esta mocidade! — Quem √© mo√ßo
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilus√Ķes, da cren√ßa mais florida
Na muscular art√©ria de Colosso…

Das incertezas nunca mede o po√ßo…
Asas abertas — na amplid√£o da vida,
P√°ramo a dentro — de cabe√ßa erguida,
V√™ do futuro o mais alegre esbo√ßo…

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido comp√™ndio…

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!

Guerra Junqueiro

Quando ele do Universo o largo suped√Ęneo
Galgou como os clar√Ķes — quebrando o que n√£o serve,
Fazendo que explodissem os astros de seu cr√Ęnio,
As gemas da raz√£o e os m√ļsculos da verve;

Quando ele esfuziou nos p√°ramos as trompas,
As trompas marciais — as liras do estupendo,
Pejadas de prodígios, assombros e de pompas,
Crescendo em propor√ß√Ķes, crescendo e recrescendo;

Quando ele retesou os nervos e as artérias
Do verso orbicular — rasgando das mis√©rias
O ventre do Ideal na forte hematemese.

Clamando — √© minha a luz, que o s√©culo propague-a,
Quando ele avassalou os píncaros da águia
E o sol do Equador vibrou-lhe aquelas teses!

Alma Antiga

P√Ķe a tua alma francamente aberta
Ao sol que pelos páramos faísca,
Que o sol para a tua alma velha e prisca
Deve de ser como um clarim de alerta.

Desperta, pois, por entre o sol, desperta
Como de um ninho a pomba quente e arisca
À luz da aurora que dos altos risca
De listr√Ķes d’ouro a vastid√£o deserta.

Vai por abril em flores gorgeando
Como p√°ssaro exul as can√ß√Ķes leves
Que os ventos v√£o nas √°rvores deixando.

E tira da tua alma, ó doce amiga,
Almas serenas, puras como a neve,
Almas mais novas que a tua alma antiga!

Hino da Manh√£

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim p√Ķes-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irm√£ do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro n√£o palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem est√° j√° morto…

E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paix√Ķes e das formas ilusorias,

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Minh’alma Est√° Agora Penetrando

Minh’alma est√° agora penetrando
Lá na etérea plaga, cristalina!
Que m√ļsica meu Deus febril, divina
Nos p√°ramos azuis vai retumbando!

Al√©m, d’√°ureo dossel se est√° rasgando
Custosa, de primor, esmeraldina
Di√°fana, sutil, longa cortina
Enquanto céus se vão duplando!

Em grande pedestal marmorizado
De Paiva se divisa o busto enorme
Soberbo como o sol, de luz croado

De um lado o porvir — Antheu disforme
Dos l√°bios faz soltar pujante brado
Hosanas! n√£o morreu! apenas dorme.

No Egito

Sob os ardentes sóis do fulvo Egito
De areia estuosa, de candente argila,
Dos sonhos da alma o turbilh√£o desfila,
Abre as asas no p√°ramo infinito.

O Egito é sempre o amigo, o velho rito
Onde um mistério singular se asila
E onde, talvez mais calma, mais tranq√ľila
A alma descansa do sofrer prescrito.

Sobre as ru√≠nas d’ouro do passado,
No céu cavo, remoto, ermo e sagrado,
Torva morte espectral pairou ufana…

E no aspecto de tudo em torno, em tudo,
√Ārido, p√©treo, silencioso, mudo,
Parece morta a própria dor humana!

Plenil√ļnio

Vês este céu tão límpido e constelado
E este luar que em f√ļlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbot√Ķes de prata…
V√™s este c√©u de m√°rmore azulado…

Vês este campo intérmino, encharcado
Da luz que a lua aos p√°ramos desata…
Vês este véu que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado…

Vês estes rios, tão fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
V√™s estes rios cheios de ardentias…

V√™s esta mole e transparente gaze…
Pois é, como isso me parecem quase
Iguais, assim, às nossas alegrias!

Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

Spleen De Deuses

Oh! D√°-me o teu sinistro Inferno
Dos desesperos tétricos, violentos,
Onde rugem e bramem como os ventos
An√°temas da Dor, no fogo eterno…

D√°-me o teu fascinante, o teu falerno
Dos falernos das l√°grimas sangrentos
Vinhos profundos, venenosos, lentos
Matando o gozo nesse horror do Averno.

Assim o Deus dos P√°ramos clamava
Ao Dem√īnio soturno, e o rebelado,
Capricórnio Satã, ao Deus bradava.

Se és Deus-e já de mim tens triunfado,
Para lavar o Mal do Inferno e a bava
D√°-me o t√©dio senil do c√©u fechado…

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo.
E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestra√ß√£o que no seu cr√Ęnio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a evers√£o do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo.

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!