Poemas sobre Capricho

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Poemas de capricho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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A Humildade

a humildade
o desenfreio em tipo pequeno
antídoto aos dédalos
assoma
assombra
ensombra

oh que embargo
que aspas
que estacion√°rio capricho

Remédio para o Pessimismo

Queixas-te porque n√£o encontras nada a teu gosto?
S√£o ent√£o sempre os teus velhos caprichos
Ou√ßo-te praguejar, gritar e escarrar…
Estou esgotado, o meu coração despedaça-se.
Ouve, meu caro, decide-te livremente.
A engolir um sapinho bem gordinho,
De uma só vez e sem olhar.
√Č rem√©dio soberano para a dispepsia.

O Le√£o e o Porco

O rei dos animais, o rugidor le√£o,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empreg√°-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignor√Ęncia, o desmazelo, a inc√ļria,
Soltavam contra ele inj√ļria sobre inj√ļria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
¬ęOra o que o ber√ßo d√°, somente a cova o tira!¬Ľ
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
N√£o h√° poder algum que mude a natureza:
Um porco h√°-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Porque o Povo Diz Verdades

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande pris√£o sem grades
Onde h√° j√° milhares de anos
A raz√£o vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

J√° o escravo se convence
A lutar por sua prol
J√° sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
J√° n√£o se deixa roubar,
Por medo ao tal satan√°s,
J√° n√£o adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem d√£o estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruir√£o em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. √Čs t√£o secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquitecto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paix√£o, que suspir√°lia
hesita em consumar-se, como fl√ļor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clar√£o aberto em susto.
Examinas cada alma. √Č fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Ent√£o, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, l√°bio a l√°bio, v√£o seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos,

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Do meu vagar

J√° n√£o h√° mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de m√£o na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina

Do meu vagar não traço rotas
n√£o tenho trilho que me prenda
n√£o tiro dados nem notas
n√£o encho uma linha de agenda
do meu vagar n√£o chego a Meca
não faço nada num só dia
n√£o corto a fita da meta
n√£o vejo Roma nem Pavia

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe n√£o faz sentido

Do meu vagar h√° um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde h√° lugar para o capricho
que d√° pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe n√£o faz sentido

Hino à Alegria

Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, l√°bios em flor, cabelos soltos,
A um tempo √© cortes√£, deusa ing√©nua ou bacante…

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho √© fugaz, ‚ÄĒ cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.

Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um p√°lido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.

Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!

No entanto, eu te sa√ļdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir,

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Noite Apressada

Era uma noite apressada
depois de um dia t√£o lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh’alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

Noite Fechada

L.

Lembras-te tu do s√°bado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso g√°s amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado tempo com recortes;
E os cemitérios ricos, e o cipreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto,
Mas seguíamos cheios de demoras;
N√£o me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a c√ļpula da igreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa boca viçosa de cereja
Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com √°rvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei contigo
Num p√°tio velho que era dum canteiro,

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O Novo Homem

O homem ser√° feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rir√° como gente,
beber√° cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogar√° no bicho,
tirar√° retrato
com o maior capricho.
Usar√° bermuda
e gola roulée.
Queimar√° arruda
indo ao canjerê,
e do n√£o-objecto
far√° escultura.
Ser√° neoconcreto
se houver censura.
Ganhar√° dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegar√° a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem ser√° feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
¬ęNove meses, eu?
Nem nove minutos.¬Ľ
Quem j√° concebeu
melhores produtos?
A dor n√£o preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascer√° bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.

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Anjo √Čs

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o h√°-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha raz√£o insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
N√£o vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o s√īfrego pudor
Vela os mist√©rios d’amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. РQue anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeov√° ou Belzebu?

Não respondes Рe em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… – L√°grima? – Escaldou-me…
Queima,

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Alegria

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilus√Ķes,
de pequenas trai√ß√Ķes
que achei no meu caminho…,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura…
De cada crueldade
que p√īs de luto a minha mocidade…
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte…
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Vol√ļpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

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Taciturno

H√° Ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais –
Joia profunda a minha Alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe rial de herois d’Outras bravuras
Em mim se despojou dos seus braz√Ķes e presas.

Heraldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilha√ß√Ķes a liz, desfor√ßos de brocado;
Bazilicas de tédio, arnezes de crispado,
Insignias de Ilus√£o, trof√©us de jaspe e Outubro…

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou – embalde a tentar√£o descer…
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer –
Manh√£s de armas ainda em arraiais de olvido…

Percorro-me em sal√Ķes sem janelas nem portas,
Longas salas de tr√īno a espessas densidades,
Onde os p√Ęnos de Arr√°s s√£o esgar√ßadas saudades,
E os divans, em red√≥r, ansias lassas, absortas…

Ha r√īxos fins de Imperio em meu renunciar –
Caprichos de setim do meu desdem Astral…
Ha ex√©quias de herois na minha d√īr feudal –
E os meus remorsos s√£o terra√ßos sobre o Mar…

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