Poemas sobre √Čpoca

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Poemas de época escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Par√Ęmetro

Uma tarde amarela noroeste
modo nosso de amar lembrando a estrada,
que passa sempre a leste
de urna tarde espantada,

de urna tarde amarela soterrada
numa caixa de pêssegos, madura,
uma janela madura de bandeiras abortas
para o mar, e frias;

encarcerada pelo verdoenga de pêssegos
e a√ß√ļcar cristalizado sobre a polpa
dos verdes apanhados na ch√°cara. Setembro.
Ah, setembro, setembro

essa menina e teus jardins sobre a cabeça
castanha e cacheada, numa tarde amarela
de vapores entrando a barra, de sinos
batendo, que reconheço de outra época,

do espanto de outras torres, de outra tarde espantada,
que amarravas no inverno embora outubro:
esse rapaz que atravessa o corporal de pêssegos
de urna tarde amarela,
como se fincasse a cisma de uma lança
no rosto da palavra genial
e seu ramo de rosas, sua neblina.

A Dor Tem um Elemento de Vazio

A Dor – tem um Elemento de Vazio –
N√£o se consegue lembrar
De quando começou Рou se houve
Um tempo em que n√£o existiu –

N√£o tem Futuro – para l√° de si pr√≥pria –
O seu Infinito contém
O seu Passado – iluminado para aperceber
Novas √Čpocas – de Dor.

Tradu√ß√£o de Nuno J√ļdice

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Maio de Minha M√£e

O primeiro de Maio de minha M√£e
N√£o era social, mas de favas e giestas.
Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Av√ī
‚ÄĒ Polimento, esquadria, engrade, olh√°-la ao longe ‚ÄĒ
Dava assento a Flor√°lia, o meu primeiro amor.

J√° n√£o se usa poesia descritiva,
Mas como hei-de falar da Maromba de Maio
Ou, se era macho, do litro de vinho na sua m√£o?
O primeiro de Maio nas Ilhas, morno como uma rosa,
Algodoado de c√ļmulos, lento no mar e rapioqueiro
Como Baco em Cam√Ķes,
Límpido de azeviche
E, afinal de contas, do ponto de vista prolet√°rio,
Mais de m√£os na algibeira do que Lenine em Zurich.
(Porque foi por esta época: eu é que não sabia!)

A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas
E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro
Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu Av√ī
Cujas quedas iguais, gravíficas, profundas

Muito prego em cunhal deixaram,
Muita madeira emalhetaram,
Muita estrela atraíram ao bico da foice do Ribeiro
Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.

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O Novo Homem

O homem ser√° feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rir√° como gente,
beber√° cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogar√° no bicho,
tirar√° retrato
com o maior capricho.
Usar√° bermuda
e gola roulée.
Queimar√° arruda
indo ao canjerê,
e do n√£o-objecto
far√° escultura.
Ser√° neoconcreto
se houver censura.
Ganhar√° dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegar√° a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem ser√° feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
¬ęNove meses, eu?
Nem nove minutos.¬Ľ
Quem j√° concebeu
melhores produtos?
A dor n√£o preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascer√° bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.

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