Sonetos sobre Restos

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Sonetos de restos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto, às Cinco Horas da Tarde

Agora que me instigo e me arremesso
ao branco ofício de prender meu sono
e depois atir√°-lo em seu vestido
feito de céu e restos de incerteza,

recolho inutilmente de seus l√°bios
a precisão do sangue do silêncio
e inauguro uma tarde em suas m√£os
gr√°vidas de gestos e de rumos.

Pelo temor e o débil sobressalto
de encontrar sua ausência numa esquina
quando extingui canção e permanência,

guardei todo o impossível de seus olhos,
embora ouvisse, longe, além dos mapas,
bruscos mastins de cedro em seus cabelos.

Vestígios Divinos

(Na Serra de Marumbi)

Houve deuses aqui, se n√£o me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ci√ļme insano.

Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda h√° uns restos da forja de Vulcano.

Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.

Os convivas pag√£os ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol n√£o vem mais nada…

Olho a roupa no ch√£o: que tempestade!
H√° restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar l√° fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

Beleza Morta

De leve, louro e enlanguescido helianto
Tens a fl√≥rea dol√™ncia contristada…
H√° no teu riso amargo um certo encanto
De antiga formosura destronada.

No corpo, de um let√°rgico quebranto,
Corpo de essência fina, delicada,
Sente-se ainda o harmonioso canto
Da carne virginal, clara e rosada.

Sente-se o canto errante, as harmonias
Quase apagadas, vagas, fugidias
E uns restos de clar√£o de Estrela acesa…

Como que ainda os derradeiros haustos
De opulências, de pompas e de faustos,
As relíquias saudosas da beleza.

Por Que Falar De Amor ?

“Por Que Falar De Amor ?”
III
Se era preciso ser assim ferido
para ter-te em meus braços e em meu leito,
e sofrer tudo o que j√° foi sofrido
e aceitar tudo o que j√° est√° desfeito…

Se era preciso, para ser querido,
ver também, rudemente contrafeito
o cora√ß√£o de ci√ļmes corrompido
em silêncio, a chorar, dentro do peito!

Se era preciso destruir-me tanto
nesses desejos em que se consomem
os restos de um orgulho que foi canto,

por que falar de amor? Foste lograda:
tu não tens aos teus pés o amor de um homem,
tens um fauno de rastros… e mais nada!

A Um Mascarado

Rasga esta máscara ótima de seda
E atira-a √† arca ancestral dos palimpsestos…
√Č noite, e, √† noite, a esc√Ęndalos e incestos
√Č natural que o instinto humano aceda!

Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
H√°s de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!

A sucess√£o de hebd√īmadas medonhas
Reduzir√° os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Ter√° somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!

Por Que Falar De Amor ?

“Por Que Falar De Amor ?”
I
Sonhei fazer-te minha só: Рrainha!
Quiseste ser apenas cortes√£.
E o desejo a crescer, – planta daninha-
foi tornando este amor sem amanh√£.

Para mim, n√£o bastava seres minha;
quis no céu, por a estrela da manhã,
e acabei por moldar-me ao que convinha
a essa tua paix√£o de terra ch√£.

Se não deste valor ao coração,
mas aos sentidos, em que se consomem
restos de um erotismo em combust√£o,

por que falar de amor? Foste lograda;
tu não tens aos teus pés o amor de um homem,
tens um fauno de rastros… e mais nada!

A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto p√īs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
S√£o pensamentos idos e vividos.