Textos sobre Anos de Miguel Esteves Cardoso

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Textos de anos de Miguel Esteves Cardoso. Leia este e outros textos de Miguel Esteves Cardoso em Poetris.

Até a Pessoa Amada Voltar

Até ela, a pessoa amada, voltar, o tempo não corre como costuma correr. Atrasa-se e detém-se. Suspende-se e atrapalha-nos. Move-se de um lado para o outro. Arrasta os lugares: aqueles onde ela está e aquele (a nossa casa) onde eu espero por ela.

Esperar é um sofrimento mas também se aprende a esperar. Olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer porque esses quantificadores malévolos são contabilistas automatizados que sabem contar todos os tempos, excepto os tempos de quem ama, espera e tem medo.

N√£o s√£o capazes de contar os tempos de todas as pessoas dotadas de um corpo com cora√ß√£o e alma. Que somos todos, quer queiramos, quer n√£o. Quem √© que quer? Ningu√©m. E de que nos serve? De nada. At√© ela, a pessoa amada, voltar, a √ļnica coisa que podemos fazer √© a que mais nos custa: esperar que ela volte. Mas quando √© que ela volta? Os minutos podem n√£o ser anos mas os quartos-de-hora s√£o semanas inteiras.

Mesmo saber que ela, a pessoa amada, voltará é difícil. Até acreditamos que queira voltar. Mas preocupamo-nos: e se ela não puder voltar? Pensar nisso é como morrer vivo sem pensar nisso.

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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O Preço da Pressa

O castigo de ser feliz é o tempo passar depressa. O castigo de ser triste é o tempo não passar. A recompensa de não conseguir ser nem triste nem feliz, permanecendo indiferente, é o tempo passar devagar. Se todos os dias nascemos Рos que temos a sorte de amar, mais a suspeita de sermos, talvez, amados Рtodos os dias morremos cedo de mais.

Se me perguntassem quanto tempo passei com a Maria Jo√£o, nos √ļltimos 15 anos, eu teria muitas dificuldades em n√£o responder 15 dias ou at√© 15 minutos, por n√£o saber mostrar e justificar at√© esse pouco tempo que pass√°mos.

Ainda ontem acordámos às oito da manhã. Mas, às sete da tarde, apesar de termos passado o dia juntos, pareceu-nos que nos tinham roubado o dia inteiro; que tínhamos acabado de nos conhecermos.

Passo do amor à política, por amor ao meu país. A despedida do conhecido e comprovado José Sócrates deveria ter sido tão generosamente saudada como foi recebida a vitória do simpático mas inexperiente Passos Coelho.

O tempo, a ocasi√£o e a sorte parecem ser coisas parecidas – mas s√£o coisas muito diferentes. O ponto de vista,

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O Segredo das Mulheres

Como os homens andam sempre atrasados em relação às mulheres (porque só pensam numa coisa de cada vez e acham que falar acerca das coisas é pior do que fazê-las), quem sabe se não é estudando o comportamento feminino de hoje que poderemos vislumbrar o nosso macaquismo masculino de amanhã?
As mulheres de hoje sabem quem lhes pode fazer mal: são as outras mulheres. Os homens, por muito amados e queridos, nem sequer são considerados competidores. São como são, têm a inteligência e o material que têm Рe que Deus os abençoe por ser assim, como os pêssegos-rosa e os arcos-íris e todos os outros fenómenos naturais que são difíceis de prever e de controlar.

O segredo das mulheres, que nenhum homem pode perceber, a n√£o ser que seja amado por alguma que se sinta suficientemente amada por um para lhe contar mais do que o suficiente para ele continuar a existir tal como √© (que mais n√£o se lhe pede) √©: os homens n√£o entram na equa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o entre elas.
Elas s√£o espertas. √Č por isso que morrem de medo umas das outras. Conhecem o perigo e sabem quem pode emperig√°-las.

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Parabéns, Amada Minha

Hoje é a Maria João, meu amor que me deu a sorte de gostar de ser amada por mim Рe a ilusão, mais frequente do que a felicidade, de amar-me também Рque faz anos, coincidindo com o dia em que nasceu, sempre o primeiro verdadeiro dia de Verão.
Parab√©ns, Maria Jo√£o, Amada minha, rainha das minhas mai√ļsculas e das paci√™ncias do P√öBLICO; princesa de todos os pequenos momentos que se juntam para fazer a minha felicidade permanentemente instant√Ęnea e amea√ßada.

Pensava que ias morrer e matar-me. Não só não morreste como me deixaste viver. O teu amor é a Primavera constante do meu coração mas a tua vida e o teu viver, como se não houvesse nada que te pudesse atrapalhar Рtão longe da sobrevivência que inexplicavelmente é Рé o ano inteiro, desde que nasci, desde a primeira vez que respirei o ar do mundo. E vivi. Facilmente. À tua espera. À espera da tua dificuldade. E do teu génio. E do teu espírito. E de tudo o que tens, sem saber, sem mostrar, sem fazer ideia do que vales, achando apenas que vales muito mais do que mereces. Merecendo, como tu mereces,

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A Culpa é Sempre Nossa

Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre.
Os grandes mestres s√£o os nossos pais e os nossos filhos – ambos mostram de onde veio a inspira√ß√£o para o pecado original. Ora se √© culpado por ter nascido e interrompido, ora se √© culpado por ter dado a nascer e n√£o se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos.A culpa n√£o √© uma coisa que se tenha, como um pesco√ßo. √Č uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado ¬ę√† partida¬Ľ, que tem aspas porque n√£o existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos s√£o vulner√°veis √† ideia que at√© fizeram por isso e merecem pagar.At√© com as l√Ęmpadas de casa de banho acontece. N√£o h√° dom√≠nio de banalidade que a culpa n√£o contamine. Tenho passado, nos √ļltimos anos, v√°rias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando √© oferecida.Depois aparece o electricista que √© afoito e resolve tudo num segundo.

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O Meu Maior Medo

O amor em todo o coração e em toda a parte se procura. Já anima a possibilidade de ser encontrado e a incerteza de não passar o resto da vida sem poder amar e sem poder ser amado. O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo Рaqui, agora, daqui a bocadinho Рem que mais gostamos de encontrá-lo.
Hoje a Maria Jo√£o e eu fazemos doze anos de casados e a √ļnica esperan√ßa que eu tinha – que se tornasse mais f√°cil acreditar na sorte que me coube na pessoa que ela √© e na cegueira de olhar uma segunda vez para mim – acabou por ser mentira.
H√° um castigo para tudo: at√© para a maior felicidade. √Č o medo n√£o s√≥ que tudo acabe mas que se descubra, de alguma maneira, que nunca tenha come√ßado. Por exemplo, se ela se apaixonasse por outra pessoa.
¬ęN√£o vai durar, n√£o pode durar, √© bom de mais para durar¬Ľ: √© isto que repito no √™xtase da minha alegria roubada ao sol,

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Ao que Viemos

N√£o tudo, mas alguma coisa depende da idade que temos agora e do jeito que temos de nos lembrarmos das idades que tivemos. Come√ßamos por dizer “quando eu era novo” – mas n√≥s nunca fomos simplesmente novos.
Mais do que termos sido novos, fomos antes vários tipos de novo. Até a tabela mais automática que seguimos começa aos cinco anos, idade das primeiras memórias certas, e continua, roboticamente: 10, 15, 20, 25, 30, 35, 40, 45, 50, 55, 60, 65, 70 e adiante, tomando o lustro como o equivalente pessoal da década da História.
Fala-se, com lassitude, de gera√ß√Ķes. Nunca se fica a saber, mal ou bem, a qual pertencemos, mesmo que queiramos pertencer a alguma. Imagine-se a bandalheira correspondente se assim se falasse dos vinhos do Porto como sendo da gera√ß√£o dos anos 40, 50, 70 ou 90.
Não. Importa o ano em que se nasce. A idade, tal como no vinho, é relativa. Algumas pessoas ganham em consumir-se cedo. As melhores exigem que se espere. Resta vermos as nossas idades não como um percurso linear e previsível mas com a surpresa deliciosa dos anos vintage que não se adivinhar.
No ser humano, as idades importantes talvez sejam: 0 a 1,

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Quando nos Apaixonamos

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz ‚Äď se nos toca na m√£o ou diz que foi bom ver-nos, sem n√≥s sabermos sequer se √© verdade ou se quer dizer alguma coisa ‚ÄĒ ela levanta-nos pela alma e p√Ķe-nos a cabe√ßa a voar, tonta de t√£o feliz e feliz de t√£o tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a m√£o, vira a cara e espezinha-nos o cora√ß√£o, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que t√≠nhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria Jo√£o, da exalta√ß√£o e do desespero que traziam essas important√≠ssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. N√£o faz sentido dizer que estou apaixonado por ela h√° quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me.

Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança.

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Os Nossos Verdadeiros Amores

Quando se √© novo √© sempre a somar. Somam-se amigos, emo√ß√Ķes, experi√™ncias, livros, canudos, s√≠tios, responsabilidades, preocupa√ß√Ķes e ambi√ß√Ķes, v√≠cios e prazeres que n√£o viciam.

At√© cada ano de vida que se viveu √© celebrado como se fosse uma proeza. √Č triunfalmente que se chega aos 6, 10, 14, 18 ou 22 anos. E com raz√£o. Ainda consigo lembrar-me que eram obra.

Depois, não sei a que a idade (é aquela em que nos deixamos de importar tanto com as coisas, daí nunca darmos por ela), começamos a compreender a alegria e a liberdade de subtrair coisas e pessoas que só nos pesam, roubando-nos tempo, paciência e a calma necessária para sobrevivermos e que se vão tornando, monstruosa e deliciosamente, cada vez maiores.

O tempo de subtrair √© cruel e frio e imensamente libertador. D√° vida aos √ļltimos anos de vida que temos. Sim, porque a vida acaba. A morte acontece e, irritantemente, dura para sempre. H√° quem diga que √© como o tempo antes de nascermos (at√© um g√©nio como Samuel Beckett caiu neste pensamento impreciso) mas n√£o √©. O tempo depois de morrermos √© sempre pior do que o tempo antes de nascermos.

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Cada Vez Nos Casamos Mais

Ao fim de 14 anos, cada vez que eu olho para a minha mulher, cada dia que acordo ao lado dela, o que mais me comove e impressiona é precisamente a novidade de vê-la, poder amá-la, ter a sorte de ser amado por ela.
Cada coisa que fazemos √© ao mesmo tempo antiqu√≠ssima ‚Äď como uma cerim√≥nia que constru√≠mos juntos s√≥ para n√≥s os dois ‚Äď e nov√≠ssima, pelo desejo e pelo entusiasmo de l√° estar, naquele lugar que ela abriu para mim e ela no lugar que s√≥ √© dela, que sou eu.

O casamento é só uma palavra: é verdade. Mas também pode ser a vontade de casarmos e ficarmos casados, todos os dias, com a mesma pessoa que amamos.
Cada vez nos casamos mais. As diferenças dela vão cabendo cada vez melhor nas minhas. Cada vez somos, a Maria João e eu, mais livres de sermos como somos, cada um de nós, e de sermos como somos, nós os dois.
Ela torna-se mais ela; eu torno-me mais eu, ela e eu com menos medo que o outro fuja por causa disso. Mas com medo √† mesma. E gan√Ęncia de viver e curiosidade em saber como √© que o d√©cimo quinto ano vai ser melhor do que este.

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Para a Minha Mulher

Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar s√≥ uma. Esta semana, quando volt√°vamos da praia, a Maria Jo√£o estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar pela janela do carro. Tive ci√ļmes que algu√©m pudesse apanhar os lindos cabelos dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria Jo√£o disse: ¬ęAgora tenho eu ci√ļmes que algu√©m apanhe o cabelo com beijinhos teus¬Ľ.

Cas√°mos um com o outro nesse momento. J√° t√≠nhamos casado cinco vezes na praia. Casar √© o que acontece quando duas pessoas descobrem que, por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, s√£o as duas √ļnicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas n√£o podem fazer parte daquele prazer. Aquele prazer s√≥ √© poss√≠vel para duas pessoas concretas: ela e eu.

À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela pedir.

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Amigos para Sempre

Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.
Nesta semana, tenho almo√ßado com amigos meus grandes, que, pela primeira vez nas nossas vidas, n√£o vejo h√° muitos anos. Cada um come√ßa a falar comigo como se n√£o tiv√©ssemos passado um √ļnico dia sem nos vermos.
Nada falha. Tudo dispara como se nos estivera ‚Äď e est√° ‚Äď na massa do sangue: a excita√ß√£o de contar coisas e partilhar ninharias; as risotas por piadas de h√° muito repetidas; as promessas de esperan√ßas que est√£o h√° que d√©cadas por realizar.
H√° grandes amigos que tenho a sorte de ter que insistem na import√Ęncia da Presen√ßa com letra grande. At√© agora nunca concordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o cora√ß√£o √© mais sens√≠vel √† lembran√ßa do que √† repeti√ß√£o. Enganei-me. O melhor que os amigos e as amigas t√™m a fazer √© verem-se cada vez que podem. √Č verdade que, mesmo tendo passado dez anos, sente-se o prazer inencontr√°vel de reencontrar quem se pensava nunca mais encontrar.

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Os Portugueses e o Amor Livre

Tipicamente, os Portugueses deixaram arrastar não a revolução socialista, não a revolução interior, não a revolução cultural, mas a revolução sexual. Foi como se tivessem pena de se desfazer dela. Em 89, sem ligar nenhuma à libertação feminina e à SIDA, Portugal, sexualmente falando, continua em 69.
Tanto porfiaram os Portugueses e as Portuguesas nas pr√°ticas e no√ß√Ķes do ¬ęamor livre¬Ľ que se tornaram nos peritos internacionais das ¬ęrela√ß√Ķes modernas¬Ľ. Cada um ¬ęsabe de si¬Ľ e assobia ¬ęl am Free¬Ľ. Ningu√©m ¬ęinvade o espa√ßo¬Ľ de ningu√©m. Hoje √© sempre ¬ęo primeiro dia do resto da tua vida¬Ľ. As pessoas vivem ¬ępara o momento¬Ľ. Isto √©, ¬ęcurtem¬Ľ umas com as outras. O lema √© ¬ęN√£o te prendas¬Ľ, e a filosofia, na sua express√£o mais completa, √© ¬ęEnquanto der, deu ‚ÄĒ quando j√° n√£o der, j√° n√£o d√°¬Ľ.

Tudo isto √© alegre e tem a sua gra√ßa. A conjun√ß√£o, no portugu√™s, de um feitio ciumento e possessivo (palavras portuguesas) com uma apar√™ncia, ¬ęcool¬Ľ e ¬ęnon-chalant¬Ľ (palavras estrangeiras) at√© tem piada. E atraente. Numa situa√ß√£o de ci√ļme ou de brusca afirma√ß√£o de independ√™ncia do outro, o portugu√™s (sobretudo o homem, por ser mais est√ļpido) encolhe os ombros e diz que ¬ęOK,

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No Amor Começa-se Sempre a Zero

Fazer um registo de propriedade √© chato e dif√≠cil mas fazer uma declara√ß√£o de amor ainda √© pior. Ningu√©m sabe como. N√£o h√° minuta. N√£o h√° sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declara√ß√Ķes de amor t√™m de ser feitas pelo pr√≥prio. A experi√™ncia n√£o serve de nada ‚ÄĒ por muitas declara√ß√Ķes que j√° se tenham feito, cada uma √© completamente diferente das anteriores. No amor, ali√°s, a experi√™ncia s√≥ demonstra uma coisa: que n√£o tem nada que estar a demonstrar cois√≠ssima nenhuma. √Č verdade ‚ÄĒ come√ßa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa √† suprema inoc√™ncia, in√©pcia e barb√°rie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das cal√ßas nas pernas e quando damos por n√≥s estamos de cal√ß√Ķes. A experi√™ncia n√£o serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um inc√™ndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: ¬ęOuve l√°, tu que tens experi√™ncia de queimaduras do primeiro grau…¬Ľ

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos,

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Amar até Sempre

A Maria Jo√£o e eu vivemos juntos, todos os dias, a n√£o ser os poucos (mais do que quarenta) em que os hospitais nos desinstalaram, desde o primeiro dia de Janeiro do ano 2000.
Mas, mesmo que conte só a data do casamento Рno dia 30 deste mês, uma sexta-feira, alcançaremos 11 anos de casamento Рacho que prescindimos alegremente de qualquer crise. O meu amor por ela é cada vez maior. O amor dela por mim, de tanto ser amada, começa a ser uma possibilidade. Foram só menos de quatro mil dias Рuma pequena parte das nossas vidas Рmas foram quatro mil dias de amor, felicidade ou medo de não ser amado, mais a sorte de ter sido. Uma eternidade.
Assim aconselho os amantes e os apaixonados: a primeira coisa a reter, sejam quais forem as primeiras e segundas reac√ß√Ķes das pessoas amadas, √© que se est√° a espalhar e visitar uma sorte amorosa sobre elas. N√£o √© uma quest√£o de amor. √Č uma quest√£o de tempo. Esperar e n√£o reparar √© fundamental. Para quem ama, amanh√£, por muito improv√°vel que seja, √© melhor do que ontem. Mas hoje pode ser, quando se tem sorte,

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O Meu Amor

[Cita√ß√Ķes da entrevista do jornal P√ļblico a Miguel Esteves Cardoso (MEC) e Maria Jo√£o Pinheiro (MJ), no dia 21 de Abril de 2013]

MEC РEla é sempre maravilhosa. Vivia muito desconfiado nos, sei lá, nos primeiros meses e anos. Desconfiava de que ela tivesse uma Maria João verdadeira que não fosse assim mágica. Que fosse prática e muito diferente. Que houvesse Рhá sempre Рuma pessoa escondida dentro dela. Mas não. Não há.
(…)
MJ РO Miguel é uma pessoa. Uma pessoa maravilhosa. Um tesouro.
(…)
MJ – Foi conhecer a pessoa mais generosa, perfeita, bondosa. A alma mais pura.
MEC РDevíamos dar mais entrevistas. Eu nunca ouço isto. Estou inchado. Se achavas isso antes, por que é que não disseste?
(…)
MEC – Sim. E fiquei como nunca fiquei antes. Fiquei assim toinggg. Parecia extremamente feliz. E eu: ¬ęAh!!¬Ľ E luminosa. Risonha. Como se fosse um pr√©mio. Sabe?, um pr√©mio. ¬ęAqui est√° a tua sorte.¬Ľ Senti uma aus√™ncia de d√ļvida. Eh p√°. S√≥ queria que fosse minha.
(…)
MEC – √Č a mulher mais bonita que alguma vez vi. Era linda de morrer e podia ser uma v√≠bora.

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Como Provar a Vida

Com a idade, como castigo dos excessos da juventude mas tamb√©m como consola√ß√£o, come√ßa-se a provar as coisas que dantes se consumiam sem pensar. At√© quase morrer de uma hepatite alc√≥olica eu bebia ¬ęwhiskey¬Ľ como se fosse √°gua: o ¬ęuisce beatha¬Ľ ga√©lico; a √°gua da vida. Agora, com o f√≠gado restaurado por anos de abstin√™ncia, apenas provo.
Suspeito que seja assim com todos os prazeres – at√© o de acordar bem disposto ou passar um dia sem dores ou respirar como se quer ou n√£o precisar de mais ningu√©m para funcionar. Parecem prazeres pequenos quando ainda temos prazeres maiores com os quais podemos compar√°-los. Mas tornam-se prazeres enormes quando s√£o os √ļnicos de que somos capazes.
Sei que a √ļltima felicidade de todos n√≥s ser√° repararmos no √ļltimo momento em que conseguimos provar a vida que vivemos e ach√°-la – n√£o tanto apesar como por causa de tudo – boa.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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No Amor Somos Todos Meninos

No amor, somos todos meninos. Meninas, pequenos, pequeninos. Sentimo-nos coisas poucas perante a glória descarada de quem amamos. Quem ama não passa de um recém-nascido, que recém-nasce todos os dias.
Hoje não é diferente. Hoje é o dia, no ano de 2000, em que tive a sorte de me casar com a Maria João, cega, linda e enganada nesse momento como até agora, graças a um Deus que privilegia os que não merecem.
Os casamentos est√£o para os n√ļmeros e para a sorte como as rifas e as lotarias. Havendo amor, passa-se a semana a pensar que se vai ganhar e depois h√° um dia em que se perde – quando h√° discuss√Ķes – seguido de mais uma semana com uma nova esperan√ßa. O amor est√° l√° sempre, quer se ganhe ou se perca. O amor corresponde ao jogo em si. H√° jogos sucessivos com resultados diferentes, mas o jogo √© sempre o mesmo. Aos jogadores apenas se pede o imposs√≠vel, facilmente concedido: acreditar que podem ganhar. Estamos casados h√° 11 anos. Passaram num instante. Pareceram mais do que 11 dias, mas menos, muito menos do que 11 meses.
Dizem que os n√ļmeros n√£o querem dizer nada.

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