Textos de Baruch Espinoza

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Textos de Baruch Espinoza. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

A Memória

Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.
Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si.
O que ser√°, pois, a mem√≥ria? Nada mais do que a sensa√ß√£o das impress√Ķes do c√©rebro junto com o pensamento de uma determinada dura√ß√£o da sensa√ß√£o;

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O Preço da Honra

As coisas que mais ocorrem na vida e s√£o tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender das suas obras, nestas tr√™s: as riquezas, as honras e a concupisc√™ncia. Por elas a mente se v√™ t√£o distra√≠da que de modo algum poder√° pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange √† concupisc√™ncia, o esp√≠rito fica por ela de tal maneira possu√≠do como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, ap√≥s a sua frui√ß√£o, segue-se a maior das tristezas, a qual, se n√£o suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Tamb√©m procurando as honras e a riqueza, n√£o pouco a mente se distrai, mormente quando s√£o buscadas apenas por si mesmas, porque ent√£o ser√£o tidas como o sumo bem. Pela honra, por√©m, muito mais ainda fica distra√≠da a mente, pois sempre se sup√Ķe ser um bem por si e como que o fim √ļltimo, ao qual tudo se dirige.
Al√©m do mais, nestas √ļltimas coisas n√£o aparece, como na concupisc√™ncia, o arrependimento. Pelo contr√°rio, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentar√° a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aument√°-las. Se, por√©m,

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A Natureza das Palavras

As palavras são parte da imaginação, isto é, tal como fingimos muitos conceitos na medida em que, vagamente, por alguma disposição do corpo, são compostos na memória, não se deve duvidar de que também as palavras, como a imaginação, podem ser a causa de muitos e grandes erros, se com elas não tivermos muita precaução. Acrescente-se que são formadas de acordo com o arbítrio e a compreensão do vulgo, de modo que não são senão sinais das coisas como se acham na imaginação, mas não como estão no intelecto.
O que claramente se v√™ pelo facto de que a todas as coisas que est√£o s√≥ no intelecto e n√£o na imagina√ß√£o puseram muitas vezes nomes negativos, como sejam, incorp√≥reo, infinito, etc., e tamb√©m muitas coisas que s√£o realmente afirmativas exprimem negativamente, e vice-versa, como s√£o incriado, independente, infinito, imortal, etc., porque, sem d√ļvida, muito mais facilmente imaginamos o contr√°rio disso, motivo pelo qual ocorreram antes aos primeiros homens e usaram nomes positivos. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das palavras leva a afirm√°-lo ou neg√°-lo, mas n√£o a natureza das coisas; por isso, ignorando-a, facilmente tomar√≠amos algo falso por verdadeiro.

A Finalidade do Estado é a Liberdade

Num Estado democrático, o que menos se tem a temer é o absurdo, pois é quase impossível que a maioria dos homens unidos em um todo, se esse todo for considerável, concorde com um absurdo.
(…) N√£o, repito, a finalidade do Estado n√£o √© fazer os homens passarem da condi√ß√£o de seres razo√°veis √† de animais brutos ou de aut√≥matos, mas, pelo contr√°rio, √© institu√≠do para que a sua alma e o seu corpo se desobriguem com seguran√ßa de todas as suas fun√ß√Ķes, para que eles pr√≥prios usem uma Raz√£o livre, para que n√£o lutem mais por √≥dio, c√≥lera ou artif√≠cio, para que se suportem sem animosidade uns aos outros. A finalidade do Estado √© portanto, na realidade, a liberdade.

Curar o Intelecto

Deve excogitar-se o modo de curar o intelecto e purific√°-lo tanto quanto poss√≠vel desde o come√ßo, a fim de que entenda tudo felizmente sem erro e da melhor maneira. Donde se poder√° j√° deduzir que quero encaminhar todas as ci√™ncias para um s√≥ fim e escopo, a saber, chegar √† suma perfei√ß√£o humana de que falamos; e assim tudo o que nas ci√™ncias n√£o nos leva ao nosso fim precisa de ser rejeitado como in√ļtil; isto √©, para usar uma s√≥ palavra, todas as nossas ac√ß√Ķes, assim como os pensamentos, h√£o-de ser dirigidos para esse fim. Mas visto que √© necess√°rio viver enquanto cuidamos de o conseguir e nos esfor√ßamos por colocar o intelecto no caminho recto, somos obrigados antes de tudo a supor como boas algumas regras de vida, a saber:

I. Falar ao alcance do vulgo e fazer tudo o que não traz nenhum impedimento para atingirmos o nosso escopo. Com efeito, disso podemos tirar não pequeno proveito, contanto que nos adaptemos, na medida do possível, à sua capacidade; acresce que desse modo oferecerão ouvidos prontos para a verdade.

II. Dos prazeres somente gozar quanto basta para a consecu√ß√£o da sa√ļde.

III.

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Bem Supremo e Raz√£o

Quando a experi√™ncia me ensinou que os acontecimentos ordin√°rios da vida s√£o f√ļteis e v√£os e me apercebi de que tudo que era para mim causa ou objecto de receio n√£o tem em si mesmo nada de bom ou de mau, a n√£o ser na medida da como√ß√£o que excita na alma, resolvi, finalmente, indagar se existia um bem verdadeiro e suscept√≠vel de se comunicar, qualquer coisa enfim cuja descoberta e posse me trouxessem para sempre um j√ļbilo continuo e soberano.
(…) O que nos ocupa mais frequentemente na vida e que os homens, como pode concluir-se dos seus actos, consideram ser o bem supremo pode reduzir-se a três coisas: riqueza, fama, prazer dos sentidos.
Ora cada um deles distrai o espírito de tal modo que mal pode pensar noutro bem. (…)
РPelo prazer sensual se detém a alma como se repousasse num bem verdadeiro, o que a impede em absoluto de pensar noutra coisa; após o prazer vem a extrema tristeza, que, se não suspende o pensamento, perturba e embota. A busca da fama e da riqueza não absorve menos o espírito, sobretudo quando a riqueza é desejada por si mesma, conferindo-lhe, então, a categoria de bem supremo.

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