Textos sobre Casas de Mia Couto

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Textos de casas de Mia Couto. Leia este e outros textos de Mia Couto em Poetris.

A Armadilha da Realidade

Uma das primeiras armadilhas interiores é aquilo que chamamos de «realidade». Falo, é claro, da ideia de realidade que actua como a grande fiscalizadora do nosso pensamento. O maior desafio é sermos capazes de não ficar aprisionados nesse recinto que uns chamam de «razão», outros de «bom-senso». A realidade é uma construção social e é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. Nós não temos sempre que a levar tão a sério.
Quando Ho Chi Minh saiu da prisão e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos tão cheios de ternura numa prisão tão desumana ele respondeu: «Eu desvalorizei as paredes.» Essa lição se converteu num lema da minha conduta.
Ho Chi Minh ensinou a si prĂłprio a ler para alĂ©m dos muros da prisĂŁo. Ensinar a ler Ă© sempre ensinar a transpor o imediato. É ensinar a escolher entre sentidos visĂ­veis e invisĂ­veis. E ensinar a pensar no sentido original da palavra «pensar» que significava «curar» ou «tratar» um ferimento. Temos de repensar o mundo no sentido terapĂȘutico de o salvar de doenças de que padece. Uma das prescriçÔes mĂ©dicas Ă© mantermos a habilidade da transcendĂȘncia, recusando ficar pelo que Ă© imediatamente perceptĂ­vel. Isso implica a aplicação de um medicamento chamado inquietação crĂ­tica.

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A ViolĂȘncia Oculta

A primeira razĂŁo por que a violĂȘncia maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. NĂłs acreditamos que estamos perante fenĂłmenos de violĂȘncia apenas quando essa tensĂŁo assume proporçÔes visĂ­veis, quando ela surge como espectĂĄculo mediĂĄtico. Mas esquecemos que existem formas de violĂȘncia oculta que sĂŁo gravĂ­ssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso paĂ­s, sĂŁo sexualmente violentadas crianças. E que, na maior parte das vezes, os agressores nĂŁo sĂŁo estranhos. Quem viola essas crianças sĂŁo principalmente parentes. Quem pratica esse crime Ă© gente da prĂłpria casa.

NĂłs temos nĂ­veis altĂ­ssimos de violĂȘncia domĂ©stica, em particular, de violĂȘncia contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupação de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns seminĂĄrios. A Lei contra a violĂȘncia domĂ©stica ainda nĂŁo foi aprovada na Assembleia da RepĂșblica.

Existem vĂĄrias outras formas invisĂ­veis de violĂȘncia. Existe violĂȘncia quando os camponeses sĂŁo expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e nĂŁo possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violĂȘncia contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, nĂŁo nos surge outra saĂ­da senĂŁo o suborno. Existe, enfim, a violĂȘncia terrĂ­vel que Ă© o vivermos com medo.

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