Textos sobre Pris√£o

24 resultados
Textos de prisão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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Encarar a Morte

√Č talvez sinal de pris√£o ao mundo dos fen√≥menos o terror e a dor ante a chegada da morte ou a serena mas entristecida resigna√ß√£o com que a fizeram os gregos uma doce irm√£ do sono; para o esp√≠rito liberto ela deve ser, como o som e a cor, falsa, exterior e passageira; n√£o morre, para si pr√≥prio nem para n√≥s, o que viveu para a ideia e pela ideia, n√£o √© mais existente, para o que se soube desprender da ilus√£o, o que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma, quanto mais a olharmos como uma forma entre as formas.

A Armadilha da Realidade

Uma das primeiras armadilhas interiores √© aquilo que chamamos de ¬ęrealidade¬Ľ. Falo, √© claro, da ideia de realidade que actua como a grande fiscalizadora do nosso pensamento. O maior desafio √© sermos capazes de n√£o ficar aprisionados nesse recinto que uns chamam de ¬ęraz√£o¬Ľ, outros de ¬ębom-senso¬Ľ. A realidade √© uma constru√ß√£o social e √©, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. N√≥s n√£o temos sempre que a levar t√£o a s√©rio.
Quando Ho Chi Minh saiu da pris√£o e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos t√£o cheios de ternura numa pris√£o t√£o desumana ele respondeu: ¬ęEu desvalorizei as paredes.¬Ľ Essa li√ß√£o se converteu num lema da minha conduta.
Ho Chi Minh ensinou a si pr√≥prio a ler para al√©m dos muros da pris√£o. Ensinar a ler √© sempre ensinar a transpor o imediato. √Č ensinar a escolher entre sentidos vis√≠veis e invis√≠veis. E ensinar a pensar no sentido original da palavra ¬ępensar¬Ľ que significava ¬ęcurar¬Ľ ou ¬ętratar¬Ľ um ferimento. Temos de repensar o mundo no sentido terap√™utico de o salvar de doen√ßas de que padece. Uma das prescri√ß√Ķes m√©dicas √© mantermos a habilidade da transcend√™ncia, recusando ficar pelo que √© imediatamente percept√≠vel. Isso implica a aplica√ß√£o de um medicamento chamado inquieta√ß√£o cr√≠tica.

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Os Expectantes

Entre as defini√ß√Ķes da ilha planet√°ria em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. Uma ter√ßa parte da vida √© anulada numa semimorte, outra gasta em fazer mal a n√≥s mesmos e aos outros e a √ļltima esboroa-se e consome-se na expectativa. Esperamos sempre alguma coisa ou algu√©m – que vem ou n√£o, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. Come√ßa-se, em crian√ßa, a esperar a juventude com impaci√™ncia quase alucinada; depois, quando adolescente, espera-se a independ√™ncia, a fortuna ou porventura apenas um emprego e uma esposa. Os filhos esperam a morte dos pais, os enfermos a cura, os soldados a passagem √† disponibilidade, os professores as f√©rias, os universit√°rios a formatura, as raparigas um marido, os velhos o fim. Quem entrar numa pris√£o verificar√° que todos os reclusos contam os dias que os separam da liberdade; numa escola, numa f√°brica ou num escrit√≥rio, s√≥ encontrar√° criaturas que esperam, contando as horas, o momento da sa√≠da e da fuga. E em toda a parte – nos parques p√ļblicos, nos caf√©s, nas salas – h√° o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem. Exames, concursos, noivados, lotarias, semin√°rios,

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A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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O Medo de nos Aceitarmos como Somos

Como as pris√Ķes e as galeras est√£o cheias de pessoas, segundo elas, inocent√≠ssimas, assim os empregos p√ļblicos e as honrarias de toda a esp√©cie s√£o ocupados apenas por pessoas convidadas e for√ßadas a aceitar a seu malgrado. √Č quase imposs√≠vel encontrar algu√©m que confesse ou ter merecido as penas que sofre, ou procurado ou desejado as honrarias de que goza.

Personalidade e Individualidade

Todas as sociedades se t√™m esfor√ßado por nos iludir e persuadir-nos a concentrar a nossa aten√ß√£o na personalidade como se ela fosse a nossa individualidade. A personalidade √© aquilo que nos √© dado pelos outros. A individualidade √© aquilo com que nascemos e √© a natureza do nosso eu: n√£o pode ser-nos dada por ningu√©m, nem pode ser-nos tirada por ningu√©m. A personalidade pode ser dada e tirada. Consequentemente, quando nos identificamos com a nossa personalidade, come√ßamos a ter medo de perd√™-la, e sempre que surge uma fronteira al√©m da qual temos de nos fundir, a nossa personalidade recolhe-se. √Č incapaz de ir al√©m dos limites do que conhece. Trata-se de uma camada muito fina, que nos √© imposta. No amor profundo, evapora-se. Numa grande amizade, √© imposs√≠vel discerni-la.

A morte da personalidade nunca é absoluta em nenhum tipo de comunhão.
E n√≥s identificamo-nos com a personalidade: os nossos pais, professores, vizinhos e amigos disseram-nos que somos assim, todos moldaram a nossa personalidade e lhe deram uma forma, fazendo de n√≥s algo que n√£o somos e que nunca poderemos ser. Por isso, somos infelizes, vivendo enclausurados nesta personalidade. √Č a nossa pris√£o. No entanto, tamb√©m temos medo de sair dela,

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A Ira n√£o Escolhe Idade nem Estatuto Social

A ira n√£o escolhe idade nem estatuto social. Algumas pessoas, gra√ßas √† sua indig√™ncia, n√£o conhecem a lux√ļria; outros, porque t√™m uma vida movimentada e errante, escapam √† pregui√ßa; aqueles que t√™m modos rudes e uma vida r√ļstica desconhecem as pris√Ķes, as fraudes e todos os males da cidade: mas ningu√©m est√° livre da ira, t√£o poderosa entre os Gregos como entre os b√°rbaros, t√£o funesta entre aqueles que temem as leis como entre aqueles que se regem pela lei da for√ßa. Assim, se outras afec√ß√Ķes atacam os indiv√≠duos, a ira √© a √ļnica afec√ß√£o que, por vezes, se apodera de um povo inteiro. Nunca um povo inteiro ardeu de amor por uma mulher, nem uma cidade inteira depositou toda a sua esperan√ßa no dinheiro e no lucro; a ambi√ß√£o apossa-se de indiv√≠duos, a imodera√ß√£o n√£o √© um mal p√ļblico.
Por vezes, uma multid√£o inteira √© conduzida √† ira: homens e mulheres, velhos e novos, os principais cidad√£os e o vulgo s√£o un√Ęnimes, e toda a multid√£o agitada por algumas palavras sobrep√Ķe-se ao pr√≥prio agitador: corre a pegar em armas e tochas e declara guerra ao seu vizinho e f√°-la contra os seus concidad√£os; casas inteiras s√£o queimadas com toda a fam√≠lia e aquele cuja eloqu√™ncia lhe granjeara muitos benef√≠cios √© eliminado pela ira que as suas palavras geraram;

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O Perigo da Extinção do Individualismo

Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomera√ß√Ķes de seres humanos, que v√£o e v√™m pelas suas ruas ou se concentram em festivais e manifesta√ß√Ķes pol√≠ticas, incorpora-se em mim, obsedante, este pensamento: pode hoje um homem de vinte anos formar um projecto de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria realizar-se mediante as suas iniciativas independentes, mediante os seus esfor√ßos particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem na sua fantasia, n√£o notar√° que √©, sen√£o imposs√≠vel, quase improv√°vel, porque n√£o h√° √† sua disposi√ß√£o espa√ßo em que possa aloj√°-la e em que possa mover-se segundo o seu pr√≥prio ditame? Logo advertir√° que o seu projecto trope√ßa com o pr√≥ximo, como a vida do pr√≥ximo aperta a sua. O des√Ęnimo leva-lo-√° com a facilidade de adapta√ß√£o pr√≥pria da sua idade a renunciar n√£o s√≥ a todo o acto, como at√© a todo o desejo pessoal e buscar√° a solu√ß√£o oposta: imaginar√° para si uma vida standard, composta de desideratos comuns a todos e ver√° que para consegui-la tem de a solicitar ou exigir em coletividade com os demais. Da√≠ a ac√ß√£o em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação efectiva em que se vão achando quase todos os europeus.

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As Vantagens do Exercício Físico

Sempre acreditei que o exerc√≠cio f√≠sico √© a chave n√£o apenas da sa√ļde f√≠sica mas tamb√©m da paz de esp√≠rito. Muitas vezes, nos velhos tempos, eu descarregava a minha raiva e frustra√ß√£o no saco de boxe, em vez de o fazer num camarada ou at√© num pol√≠cia. O exerc√≠cio dissipa a tens√£o e a tens√£o √© a inimiga da serenidade. Descobri que trabalhava melhor e pensava com mais clareza quando estava em boa condi√ß√£o f√≠sica, e, por isso, o treino tornou-se uma das disciplinas r√≠gidas da minha vida. Na pris√£o, era absolutamente indispens√°vel ter um escape para as minhas frustra√ß√Ķes.

A Adversidade é Essencial

Porqu√™ espantar-nos que possa ser vantajoso, por vezes mesmo desej√°vel, expor-nos ao fogo, √†s feridas, √† morte, √† pris√£o? Para o homem esbanjador a austeridade √© um castigo, para o pregui√ßoso o trabalho equivale a um supl√≠cio; ao efeminado toda a labuta causa d√≥, para o indolente qualquer esfor√ßo √© uma tortura: pela mesma ordem de ideias toda a actividade de que nos sentimos incapazes se nos afigura dura e intoler√°vel, esquecendo-nos de que para muitos √© uma aut√™ntica tortura passar sem vinho ou acordar de madrugada! Qualquer destas situa√ß√Ķes n√£o √© dif√≠cil por natureza, os homens √© que s√£o moles e efeminados!
Para formar ju√≠zos de valor sobre as grandes quest√Ķes h√° que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos √†s coisas um defeito que √© apenas nosso, tal como objectos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de √°gua. O que interessa n√£o √© o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o esp√≠rito humano mostra-se cego para a verdade!
Indica-me um jovem ainda incorrupto e de espírito alerta, e ele não hesitará em julgar mais afortunado o homem capaz de suportar todo o peso da adversidade sem dobrar os ombros,

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A Pior Coisa é a Liberdade

A pior coisa √© a liberdade. A liberdade de qualquer tipo √© o pior para a criatividade. Quando estive dois meses na pris√£o em Espanha, esses dois meses foram os que me deram mais gozo e os mais felizes da minha vida. Antes de ter ido para a pris√£o, estava sempre nervoso, ansioso. Estava sempre em d√ļvida se deveria fazer uma pintura, ou talvez um poema, ou se deveria ir ao cinema ou ao teatro, ou ir ter com uma rapariga, ou ir brincar com os rapazes. Mas puseram-me na pris√£o, e a minha vida tornou-se divina.

Aonde Pode Levar a Sinceridade

Algu√©m tinha o mau h√°bito de se exprimir, de quando em quando, com toda a franqueza acerca dos motivos pelos quais agia, e que eram t√£o bons ou t√£o maus como os motivos de todas as pessoas. Primeiro, causou esc√Ęndalo, depois suspeita, pouco a pouco foi terminantemente proscrito e banido da sociedade, at√© que, por fim, a justi√ßa se recordou de um ser t√£o abjecto em ocasi√Ķes, em que ela n√£o costumava ter olhos ou os fechava. A falta de mutismo quanto ao segredo geral e a irrespons√°vel propens√£o para ver o que ningu√©m quer ver – a si pr√≥prio – levaram-no √† pris√£o e a uma morte prematura.

A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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Rela√ß√Ķes de Poder entre Homens e Mulheres

Por cada mulher e rapariga atacadas com viol√™ncia, reduzimos a nossa humanidade. Por cada mulher for√ßada a ter sexo desprotegido por exig√™ncia do homem, destru√≠mos dignidade e orgulho. Cada mulher que tem de vender a sua vida por sexo, condenamos a pris√£o perp√©tua. Por cada mulher infectada pelo VIH, destru√≠mos uma gera√ß√£o. (…) Temos de ser honestos e sinceros sobre as rela√ß√Ķes de poder entre homens e mulheres na nossa sociedade, e temos de ajudar a construir um ambiente de maior capacita√ß√£o e apoio, que coloque o papel da mulher na ribalta desta luta. Cada um de n√≥s – irm√£ e irm√£o, m√£e e pai, professor e aluno, sacerdote e paroquiano, gerente e trabalhador, presidentes e primeiros-ministros – t√™m de juntar a sua voz a esta exig√™ncia de actua√ß√£o.

O Alimento da Imaginação

Possuir muita imagina√ß√£o significa que a fun√ß√£o de percep√ß√£o do c√©rebro √© suficientemente forte para, invariavelmente, n√£o necessitar de um est√≠mulo dos sentidos para entrar em actividade. Consequentemente, a imagina√ß√£o √© tanto mais activa quanto menos percep√ß√Ķes do exterior nos forem transmitidas pelos sentidos. Uma prolongada solid√£o, a pris√£o ou um leito de doen√ßa, o sil√™ncio, o crep√ļsculo, a escurid√£o, s√£o-lhe prop√≠cios: sob a sua influ√™ncia, entra em actividade sem ser invocada. Por outro lado, quando √© fornecida √† nossa pecep√ß√£o uma grande quantidade de mat√©ria real do exterior, como sucede nas viagens, no bul√≠cio da vida, ao meio-dia, a imagina√ß√£o faz f√©rias e recusa-se a entrar em actividade, mesmo quando invocada: parece que n√£o √© a sua esta√ß√£o.
Não obstante, para que a imaginação seja frutuosa, é preciso que tenha recebido muito material do mundo exterior, pois só isso pode encher a sua despensa. Mas a alimentação da fantasia é como a alimentação do corpo: é precisamente na altura em que recebe uma grande dose de alimentos que precisa de digerir que o corpo se encontra menos eficiente e mais gosta de descansar Рno entanto, é a esse alimento que deve toda a força que mais tarde manifesta,

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O Indivíduo e a Colectividade

Em vez de afirmarmos os direitos do Homem através dos indivíduos, começámos a falar dos direitos da Colectividade. Vimos introduzir-se insensivelmente uma moral do Colectivo que negligencia o Homem. Esta moral explicará claramente por que razão o indivíduo se deve sacrificar à Comunidade. Já não explicará, sem artifícios de linguagem, por que razão uma Comunidade se deve sacrificar por um só homem. Por que razão é equitativo que mil morram para libertar um só da prisão da injustiça. Ainda nos lembramos disso, mas esquecemo-lo pouco a pouco. E, no entanto, é neste princípio, pelo qual nos distinguimos tão claramente da formiga, que reside acima de tudo a nossa grandeza.

A Dádiva da Evidência de Si

Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que viv√™-la no imediato, na execu√ß√£o absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser s√≥ abertura para amanh√£. A vida real n√£o eram as leis dos outros e a sua san√ß√£o e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solit√°ria. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio s√≥ podia revelar-se e executar-se na uni√£o total com n√≥s mesmos, com as for√ßas derradeiras que nos trazem de p√© e s√£o n√≥s e exigem realizar-se at√© ao esgotamento. Este ¬ęeu¬Ľ solit√°rio que achamos nos instantes de solid√£o final, se ningu√©m o pode conhecer, como pode algu√©m julg√°-lo? E de que serve esse ¬ęeu¬Ľ e a sua descoberta, se o condenamos √† pris√£o? Sab√™-lo √© afirm√°-lo! Reconhec√™-lo √© dar-lhe raz√£o. Que ignore isso o que ignora que √©. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a d√°diva da evid√™ncia de si, como condenar-se a si ao sil√™ncio prisional? Ningu√©m pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos.

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