Só agora eu percebia que antes vivera dentro de um cubo.
Passagens de Clarice Lispector
1250 resultadosVou Voltar para Mim Mesma
Minha vida é um grande desastre. É um desencontro cruel, é uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu — só me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. É lá que eu encontro uma menina morta sem pecúlio. Mas uma noite vou à Secção de Cadastro e ponho fogo em tudo e nas identidades das pessoas sem pecúlio. E só então fico tão autónoma que só pararei de escrever depois de morrer. Mas é inútil, o lago azul da eternidade não pega fogo. Eu é que me incineraria até meus ossos. Virarei número e pó. Que assim seja. Amén. Mas protesto. Protesto à toa como um cão na eternidade da Seção de Cadastro.
Sinto necessidade de arriscar minha vida. Só assim vale a pena viver.
Uns cosem pra fora, eu coso pra dentro.
Às vezes sentava-se na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.
Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.
Se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita.
Eu sempre espero uma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera – algo está sempre vindo de mim ou fora de mim.
Eu escrevo para fazer existir e para existir-me. Desde criança procuro o sopro da palavra que dá vida aos sussurros.
Há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça.
Tenho me convivido muito ultimamente e descobri com surpresa que sou suportável, às vezes até agradável de ser. Bem. Nem sempre.
Mas enquanto eu tiver a mim, não estarei só.
A saudade é a prova que o passado valeu a pena.
Andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos.
Ela se afasta fazendo uma trancinha nos cabelos escorridos. Nunca nunca nunca sim sim, canta baixinho. Aprendeu a trançar um dia desses. In: Coração Selvagem.
Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio.
Não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo.
Perder-se também é caminho.
A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.