Um Infinito Domingo à Tarde

Regra geral, um ser humano agora vive tanto que acaba por arrastar muito mais penas do que as que lhe dizem respeito, e isso acaba por notar-se-lhe no rosto. Uma das consequ√™ncias da crescente longevidade do habitante das sociedades desenvolvidas, em que, por outro lado, n√£o se costuma pensar demasiado, √© que, contrariamente ao que sucedia h√° algumas d√©cadas, os velhos de hoje t√™m tempo para assistir √† devasta√ß√£o da vida dos filhos, veem-nos praticamente envelhecer, fracassar, cansar-se da luta. Antes, na hora da morte dos pais, os filhos eram ainda fortes, tinham projetos, mulheres bonitas, um futuro aparentemente luminoso. Agora √© f√°cil que um av√ī contemple antes de morrer o div√≥rcio do neto (v√™-o aos domingos sentar-se √† mesa na casa da fam√≠lia, sem um c√™ntimo, com a camisa amarrotada), enquanto no mundo anterior a este, por raz√Ķes de tempo, o neto n√£o era mais do que uma crian√ßa que √†s vezes ia buscar √£ escola, a quem dava a m√£o no regresso a casa e ajudava a conseguir nos alfarrabistas os cromos que lhe faltavam na sua cole√ß√£o de futebolistas. Hoje, o velho que morre n√£o abandona um mundo em marcha cheio de projetos e promessas, como sucedia dantes,

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