Poemas sobre Natal

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Poemas de natal escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as m√£os dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho n√£o se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas m√£os! E a solid√£o estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas m√£os nos meus dedos t√£o frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Natal

1

A voz clamava no Deserto.

E outra Voz mais suave,
Lírio a abrir, esvoaçar incerto,
Tímido e alvente, de ave
Que larga o ninho, melodia
Nascente, docemente,
Uma outra Voz se erguia…

A voz clamava no Deserto…

Anunciando
A outra Voz que vinha:
Balbuciar de fonte pequenina,
Dando
√Ä luz da Terra o seu primeiro beijo…
Inef√°vel an√ļncio, dealbando
Entre as estrelas moribundas.

2

Das entranhas profundas
Do Mundo, eco do Verbo, a profecia,
– √Ä dist√Ęncia de S√©culos, – dizia,
Pressentia
Fragor de sismos, o dum mundo ruindo,
Redimindo
Os c√°rceres do mundo…

A voz dura e ardente
Clamava no Deserto…

Natal de Primavera,
A nova Luz nascera.
Voz do céu, Luz radiante,
Mais humana e mais doce
E irm√£ dos Poetas
Que a voz trovejante
Dos profetas
Solit√°rios.

3

A divina alvorada
Trazia
Lírios no regaço
E rosas.
Natal. Primeiro passo
Da secular Jornada,
Era um canto de Amor
A anunciar Calv√°rios,

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Natal

Que nos trazes a n√£o ser
l√°grimas cada vez mais,
natal eterno a nascer
de outros natais…
Ligeira esperança que toca
os nossos olhos molhados
e o sangue da nossa boca,
amorda√ßados…

Ah bruxuleante luz
acenando ao longe em v√£o
e que a dor nos reproduz
em ilus√£o…
Ternura dum breve instante
que o próprio instante desterra,
morta no facto constante
de tanta guerra…

Natal Chique

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma v√£ desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem d√£o coroas no meio disto,
Um mo√ßo doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Rosas de Inverno

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
T√£o gl√°cido e t√£o claro
Por estas manh√£s tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos √°speros caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inv√°lidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos p√°lidos.

C√Ęmara Escura

A meu pai

3

A biografia. Revejo-a em tecidos
fibrosos, retraindo-se. √Č j√° vis√≠vel
a anquilose o vento austero
disperso pelos gestos, mais lentos

e difíceis. A migração das aves
inicia-se. Junto à costa
atl√Ęntica, falava-me do tempo, a vira√ß√£o
nefasta, o nevoeiro

poroso, sobre os ossos. Era o período
de estado: rajadas cubitais, golpes
de vento, as migra√ß√Ķes da dor, articulares…
As metáforas clínicas. Procura,

apesar disso, algum sossego. Invoca ainda
o elemento natal, o livro prematuro
do inverno. E a dureza da neve,
os domínios do gelo, imprevisíveis.

Com as chuvas de abril, a migração
atinge órgãos vitais. A violência
perdida pelos móveis, nas janelas
transl√ļcidas, no rumo vagaroso

da voz. Vigia os gestos, os indícios de
p√Ęnico, a previs√≠vel eclos√£o
da crise. Deforma√ß√Ķes, desvio dos
dedos no lado cubital, arthritis

– o peso das no√ß√Ķes.
Endurecem os sons, as linhas vistas
até ao declínio, o vento imóvel
semeado nos campos. Todo o regresso

persiste na matéria: os vários
motores de frio,

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Natal à Beira-Rio

√Č o bra√ßo do abeto a bater na vidra√ßa?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! √Č o Natal que passa,
A trazer-me da √°gua a inf√Ęncia ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
T√£o novos os meus Pais, t√£o novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, √† noite iluminado…
√Č noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui n√£o sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
√† beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

Litania do Natal

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que d√°veis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: ¬ęMeu Jesus…¬Ľ
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: ¬ęAve, Maria!¬Ľ

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as m√£os erguia.
Comigo repetia: ¬ęMeu Jesus…¬Ľ
Que ent√£o me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: ¬ęAve, Maria!¬Ľ

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: ¬ęMeu Jesus…¬Ľ
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: ¬ęAve, Maria!¬Ľ

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: ¬ęMeu Jesus…¬Ľ

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

Chove. √Č Dia de Natal

Chove. √Č dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
H√° a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal n√£o.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Ode aos Natais Esquecidos

Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta
que dava acesso aos mistérios da noite,
daquela noite em particular, por ser a mais terna
de todas as noites que a minha memória
era capaz de guardar, com letras e sons,
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis.
Tinha comigo os c√£es e os retratos dos mortos,
a lembrança de outras noites e de outros dias,
os brinquedos cansados da solid√£o dos quartos,
os cadernos invadidos p√™los saberes in√ļteis.
E todos me diziam que era ainda muito cedo,
porque a meia-noite morava j√° dentro do sono,
no território dos anjos e dos outros seres alados,
hora inatingível a clamar pela nossa paciência,
meninos hirtos de olhos fixos na claridade
enganadora de uma √°rvore sem nome.

Depois, o meu pai morreu e as minhas ilus√Ķes tamb√©m.
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante
como a tristeza de um fantasma confrontado
com a beleza da vida para sempre perdida.
Deixaram de me dar presentes e de dizer
que era o Menino Jesus que os trazia
para premiar a minha grandeza de alma,

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Em Cruz n√£o Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da p√°gina do Natal
nasciam os montes prateados

da inf√Ęncia. Int√©rmina, a m√£e
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente.

Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia.

Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa.

Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que ent√£o havia
para a capital dos brinquedos.

E as crianças com a tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam os seus pedidos
no muro que dava para o impossível,

chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicion√°rio
da dor futura: saudade.

Natal Africano

N√£o h√° pinheiros nem h√° neve,
Nada do que é convendonal,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas √© Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora √ļnica e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

N√£o h√° pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As ora√ß√Ķes, por√©m, s√£o velhas
E a noite é Noite de Natal.

Loa

√Č nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remiss√£o
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

√öltimo Poema

√Č Natal, nunca estive t√£o s√≥.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o ver√£o
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
n√£o devia.

Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela m√ļsica acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de √°gua turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulc√£o. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.

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Natal

Perguntei pelo Natal,
indicaram-me os rochedos.
Subi a altas montanhas,
só trouxe sustos e medos.

Um mendigo, previdente,
avisou-me: o Natal
fica na quilha de um barco
que ainda nem é pinhal.

E minha avó, mondadeira
do trigal que eu nunca tive,
dizia desta maneira:
‚ÄĒ √Č dentro desta ribeira,
tecendo os bunhos da esteira,
que o Natal, em brasas, vive.

O vento nada sabia
e a noite, irada, afirmava
que o Natal é o meio-dia
de uma noite inacabada.

Li poemas, li romances,
mondei sonetos na horta:
Do Natal, só as nuances
da fome a rondar a porta.

Até que um dia, ó milagre,
levado pelo coração,
toquei teus seios redondos
– brancas rolas, r√≥seos pombos –
e tive o Natal na m√£o!

A Casa

√Č um chal√© com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
N√£o tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de l√Ęmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
‚ÄĒ esta que parece sombria ‚ÄĒ
e uma noiva l√° dentro que sou eu.
√Č uma casa de esquina, indestrut√≠vel.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
N√£o fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de ex√≠lio e t√ļnel.

Natal na Província

Natal… Na prov√≠ncia neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que n√£o sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Elegia de Natal

Era também de noite    Era também Dezembro
Vieram-me dizer que o meu irm√£o nascera
J√° n√£o sei afinal se o recordo ou se penso
que estou a recordá-lo à força de o dizerem

Mas o teu berço foi o primeiro presépio
em que pouco depois o meu olhar pousava
Não era mais real do que existirem prédios
nem menos irreal do que haver madrugadas

Dezembro retornava e nunca soube ao certo
se o intruso era eu se o intruso eras tu
Quase aceitava até que alguém te supusesse
mais do que meu irmão um gémeo de Jesus

Para ti se encenava o palco da surpresa
Entravas no papel de que eu ia descrendo
Mas sabia-me bem salvar a tua crença
E era sempre de noite    Era sempre em Dezembro

Entretanto em que mês em que dia é que estamos
Que verdete corrói prédios e madrugadas
De que muro retiro o musgo desses anos
que entre os dedos depois se me desfaz em √°gua

Para onde levaste a criança que foste
Em vez da tua voz que ciprestes s√£o estes
Como dizer Natal se te n√£o vejo hoje
Como dizer Natal agora que morreste

Natal, e n√£o Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no pr√©dio que amanh√£ for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milh√Ķes de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e n√£o Dezembro,
talvez universal a consoada.