Devemos ser justos antes de sermos generosos, tal como precisamos de ter camisas antes de rendas.
Passagens sobre Rendas
66 resultadosIntervalo
Quando nasci, entre rendas e afagos egoístas,
os rouxinóis, pela noite, namoravam a Primavera…Os sinos ficaram tolhidos e tristes
Como se os meus gritos lhes pesassem na alma.Minha Mãe, nessa noite,
sonhou com o aceno molhado dum lenço branco
num dia de partida…Ó Terra!
Porque não estoiraste nesse momento?
Os Amantes
Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;O teu meu é mel azedo,
Não creio em teu gasalhado,
Mostras-me em vão rosto ledo;
Já estou muito escaldado,
Já d’águas frias hei medo.Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.Fartei-te assaz a vontade;
Em vãos suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?És como os cães esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos ávidos dentes
Os ossos ensanguentados.Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
Põe a mira em outra parte
Que daqui não tiras nada.Busca algum fofo morgado
Que, solto já dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;
Outonal
Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio…Olha, anoitece!
— Brumas longínquas do País Vago…Veludos a ondear…Mistério mago…
Encantamento…A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor…
A uma Moça Vendendo Camoezas
Para a feira vai Luisa
co seu balaio à cabeça,
todo enramado de louro
e cheio de camoezas.Leva saia de cilício,
também jubão branco leva,
que serve o jubão de branco
onde amor atira as flechas.Sobre os dedos pendurados
levava os punhos da renda;
tão valentona caminha
que treme o bairro de vê-la.Lá no meio do Rossio
levanta a voz mui serena
como se aprendera solfa:
– Eu já tenho camoezas!
Era uma Pedra Feminina
Era uma pedra feminina
muito perto de uma pedra bem masculina
onde
a todo o comprimento do mastro
batiam os dentes das aves.
E o que restava das mãos mais antigas
pedia ainda dinamite
talheres avulso
mastodontes inviolados
alguns jovens em renda para bordar as estradas
hastes primaveris correndo o risco de se tornarem de bronze
acenando
a uma paisagem
hexagonal
maior que a soma de todas as janelas.