Poemas sobre Dentes

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Poemas de dentes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que n√£o seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com s√£ mente
que sinta que n√£o mente
que sinta o dente s√£o e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
n√£o sente como a gente
n√£o quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Envelhecem os Anos

Envelhecem os anos, mas nunca os meses
com seu crédito de imagens para quem morre
ou vive. √Č o t√≠tulo de quem se ergue pelos dentes
mais que o riso nesse colar de sonhos ao fim das tardes.
Aqui a coisa alheia tem a metade do j√° sentido
e n√£o pode parar no mundo.

√Č que algu√©m n√£o d√° tempo ao cora√ß√£o
e solit√°rio bate na coisa dura de sempre.
H√° horas antigas agora: teu destino indeclin√°vel,
um jogo antigo de olhos com lágrimas prontas desde o início
e adiante a demora dos ausentes, o universo fechado
em sua idade. Tu te juntas e deixas a monótona vida

exagerar a fé, estimular o preço num feriado
de diferenças. Então a natureza nesse dia de chuva fina,
ela e o vidro da janela que se turva,
tenta o início e arrasta os desejos da existência.

Poema da Terra Adubada

Por detr√°s das √°rvores n√£o se escondem faunos, n√£o.
Por detr√°s das √°rvores escondem-se os soldados
com granadas de m√£o.

As √°rvores s√£o belas com os troncos dourados.
S√£o boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
S√£o os corpos dos soldados rastejando no ch√£o.

O brilho s√ļbito n√£o √© do limbo das folhas verdes reluzentes.
√Č das l√Ęminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas n√£o s√£o papoilas, n√£o.
√Č o sangue dos soldados que est√° vertido no ch√£o.

N√£o s√£o vespas, nem besoiros, nem p√°ssaros a assobiar.
S√£o os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgar√£o a terra com a l√Ęmina aguda dos arados,
e a terra dar√° vinho e p√£o e flores
adubada com os corpos dos soldados.

Entre Dentes

Deitado sobre ti
ensinas-me a sair
da treva.

Com a boca dorida
por tanta palavra
ensanguentada
devoro o teu cabelo
ouro que se desfaz
por entre os dentes.

E o teu sorriso
quando te penetro
ilumina s√ļbito
a noite do meu corpo

Dentes

Os dentes, porque s√£o dentes,
iniciais. Na espuma,
porque n√£o s√£o saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?

Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.

Só os dentes.
Duros, √°cidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de f√ļria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.

Toma l√° Cinco!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa…
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava s√£o e agora n√£o,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
E na cara uma ruga que n√£o espera, que n√£o espera…

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu cr√Ęnio os pequeninos p√©s.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que n√£o √©s…

Talvez sejas de enredos f√°cil presa,
Eterno marido, amante de um s√≥ dia…
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas n√£o rias, rapaz, que o ano s√≥ agora principia…

Talvez lances de amor um foguet√£o sincero
Para algum cora√ß√£o a milh√Ķes de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior…

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e n√£o errar a pontaria…

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau h√°lito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis,

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Benção

Quando, por uma lei da vontade suprema,
O Poeta vem a luz d’este mundo insofrido
A desolada mãe, numa crise de blasfêmia,
Pragueja contra Deus, que a escuta comovido:

‚ÄĒ “Antes eu procriasse uma serpe infernal!
Do que ter dado vida a um disforme aleij√£o!
Maldita seja a noite em que o prazer carnal
Fecundou no meu ventre a minha expiação!

J√° que fui a mulher destinada, Senhor,
A tornar infeliz quem a si me ligou,
E n√£o posso atirar ao fogo vingador
O fatal embri√£o que meu sangue gerou.

Vou fazer recair o meu ódio implacável
No monstro que nasceu das tuas maldi√ß√Ķes
E saberei torcer o arbusto miser√°vel
De modo que n√£o vingue um s√≥ dos seus bot√Ķes!”

E sobre Deus cuspindo a sua m√°goa ingente
Ignorando a razão dos desígnios do Eterno,
A tresloucada m√£e condena, inconsciente,
A sua pobre alma às fogueiras do inferno.

Bafeja a luz do sol o fruto malfadado,
Vela pelo inocente um anjo peregrino;
A água que ele bebe é um néctar perfumado,
O pão é um manjar saboroso,

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Marília de Dirceu

(excerto)

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de express√Ķes grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
d√°-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas l√£s, de que me visto.
Graças, Marília bela, graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda n√£o est√° cortado;
os pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste,
nem canto letra que n√£o seja minha.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
E bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.

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Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Balada para um Homem na Multid√£o

Este homem que entre a multid√£o
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necess√°rios
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a √°rvore que d√° dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
n√£o tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos l√°bios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, h√°-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, h√°-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do ver√£o descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

√ď deus do sangue! deus de miseric√≥rdia!
√ď deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Imp√Ķe-nos sobre o ventre as tuas m√£os de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um l√°tego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.

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Sêde de Amor

I

Vi-te uma vez e (novo
Extranho caso foi!)
Por entre tanto povo…
Tanta mulher… Supp√Ķe

Que m√£e estremecida
Via o seu filho andar
Sobre muralha erguida,
Onde o fizesse ir dar

Aquelle remoinho,
Aquella inquietação
D’um pobre innocentinho
Ainda sem raz√£o!

E ora estendendo os bra√ßos…
Ora apertando as m√£os…
Vendo-lhe o gesto, os passos,
Quantos esforços vãos,

O triste na cimalha
Faz por voltar atraz…
Sem vêr como lhe valha!
A vêr o que elle faz!

Pallida, exhausta, muda,
Os olhos uns ti√ß√Ķes,
Com que, a tremer, lhe estuda
As mesmas pulsa√ß√Ķes…

(Porque não é mais fundo
O mar no equador,
Nem é todo este mundo
Maior do que esse amor!

Mais vasto, largo e extenso
Todo esse céo tambem
Do que o amor immenso
D’um cora√ß√£o de m√£e!)

Assim, n’essa agonia…
N’essa intima avidez…
√Č que entre os mais te eu ia
Seguindo d’essa vez!

Porque te adoro!… a ponto,

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A Armadura

Desenganos, trai√ß√Ķes, combates, sofrimentos,
Numa vida j√° longa acumulados, v√£o
‚ÄĒ Como sobre um paul cont√≠nuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

E a cinza com o tempo atinge uma espessura
Que nem os mais cruéis desesperos abalam;
√Č como tenebrosa, imp√°vida armadura
Ou couraça de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeável da Inveja à peçonhenta bava,
Nela a Cal√ļnia embota os seus dentes ervados;
Não há braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnês se não faça em bocados.

E no entanto, através dessas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as juntas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o cora√ß√£o verteu dalguma chaga obscura…

Cantiga da velha m√£e e dos seus dois filhos

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha m√£e para aqui j√° no sol poente

Um dia h√° muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para tr√°s, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irm√£o?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de f√ļria no peito feito tormenta
quando n√£o h√° nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo ch√£o
eram ainda irm√£os, partilhavam ainda o p√£o
E o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
N√£o foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que n√£o contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar,

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Sinfonia Hibernal

Adoro o inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho,
friorenta e louca…
Nascem-me na alma os beijos
que se v√£o aninhar na tua boca!…
Gosto da neve
a diluir-se ao sol
em risos de cristal!
Vem-me turbar a √Ęnsia do teu rogo…
E a neve fulgente
dos meus dentes trémulos,
vai fundir-se na taça ardente,
rubra e original,
na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor
na doce sombra dos teus cabelos,
e eu envolvo-me toda nos teus braços
para dormir e sonhar!…
– l√° fora que n√£o deixe de chover,
e o vento que n√£o deixe de clamar!
Deix√°-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
se me abrasa o teu olhar
viv√≠ssimo?!…
Atei, meu amor, o fogo em que me exalto…
– Enrola-me mais…
ainda mais… no teu afago;
que esta alegria do nosso amor
suavíssimo,
ser√° mais forte e gritar√° mais alto!

Nós Somos Vida das Gentes

Sempre é morto quem do arado
h√°-de viver.

Nós somos vida das gentes,
e morte de nossas vidas;
a tiranos pacientes
que a unhas e a dentes
nos têm as almas roídas.
Pera que é parouvelar?
Que queira ser pecador
o lavrador,
n√£o tem tempo nem lugar
nem somente d’alimpar
as gotas do seu suor.

N’ergueija bradam co’ele,
porque assoviou a um c√£o;
e logo excomunh√£o na pele,
o fidalgo, maçar nele,
at√° o mais triste rasc√£o.
Se n√£o levam torta a m√£o,
n√£o lhe acham nenhum dereito.
Muito atribulados s√£o!
Cada um pela o vil√£o
per seu jeito.

Trago a prepósito isto,
perque veio a bem de fala.
Manifesto est√° e visto
que o bento Jesu Cristo
deve ser homem de gala.
E é rezão que nos valha
neste ser√£o glorioso,
que √© gram ref√ļgio sem falha.
Isto me faz forçoso,
e n√£o estou temeroso
nemigalha.

(excerto)

O Amor Bate na Porta

Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, n√£o chores,
hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos j√° maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, n√£o te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes n√£o mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
prop√Ķe uma geometria.

Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na √°rvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

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A Guerra

Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Hor√°cio e de Juvenal,

Agora os ver√°s queimar,
j√° que em v√£o os fecho e os sumo;
e leve o vol√ļvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.

Se tu de ferir n√£o cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa d√°-las ao vento,
se podem achar cabeças?

Tendo as s√°tiras por boas,
do Parnaso nos dois cumes
em hora negra revoas;
tu d√°s golpes nos costumes,
e cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra
cem naus de alterosa popa,
deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
haja paz ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha
brigar ao Casaca v√£o,
e que, enquanto a turba ralha,
v√° recebendo o balc√£o
os despojos da batalha.

Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,

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Litania

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as m√£os, de certo modo, irrespons√°veis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de √°gua;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solid√£o,
atravessadas de alegria e de terror,

s√£o a grande raz√£o, a √ļnica raz√£o.