Sonetos sobre Ossos

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Sonetos de ossos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Qual √Č A Tarde Por Achar

Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos raz√£o
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo ver√£o,

Ou, sendo inverno, baste ‘star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora n√£o.

Qual é a mão cariciosa
Que h√° de ser enfermeira minha –
Sem doen√ßas minha vida ousa –

Oh, essa m√£o √© morta e osso …
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso.

Vênus II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
– Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
– √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

O C√£o

O c√£o da caravana acoita sarnas
pelos pêlos tragados de suor
que encarnam carnaduras j√° de cor
na salteada costa descarnada

O c√£o da caravana esconde as armas
o fogo e a cinza dessa cauda cor-
rente ao dorso de estrelas apagadas
se acendem cimitarras para a dor

Ao relho e aos ossos pó entre mil noites
dita a desdita escrita: Maktub!
E o cão se assenta dócil para o açoite

Mas lhe aguarda a tarefa de quem ladra
e exorcisa a baraka dos impuros
enquanto a vida caravana passa

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

Vox Victiæ

Morto! Consciência quieta haja o assassino
Que me acabou, dando-me ao corpo v√£o
Esta vol√ļpia de ficar no ch√£o
Fruindo na tabidez sabor divino!

Espiando o meu cad√°ver resupino,
No mar da humana proliferação,
outras cabeças aparecerão
Para compartilhar do meu destino!

Na festa genetlíaca do Nada,
Abraço-me com a terra atormentada
Em contub√©rnio convulsionador …

E ai! Como √© boa esta vol√ļpia obscura
Que une os ossos cansados da criatura
Ao corpo ubiq√ľit√°rio do Criador!

A √Ārea

Tudo o que houve, permanece, proeza do corpo
como um sulco bárbaro da memória dos dias,
ritos, remorsos, sementes futuras, a mudez.
Tudo aconteceu nas l√°grimas e nas veias,

na precisão das luzes, no lugar móvel da ordem,
no gelo e no lume que entre as coisas navegam,
na palavra deflagrada, na paz das p√°ginas.
Para onde vai o que não se move, o que é

dogma de cal, madeira, pedra ou ferro?
Como chamar à alma, à linguagem, às cores
que de amor pela morte morrem caladas,

na √°rea eterna da casa, a que permanece
na velhice dos anos e dos ossos consumada,
como uma gota do tempo para além dos séculos?

Solit√°rio

Como um fantasma que se refugia
Na solid√£o da natureza morta,
Por tr√°s dos ermos t√ļmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
N√£o era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
– Velho caix√£o a carregar destro√ßos –

Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Espelho (I)

O que sobrou de mim s√£o essas sombras
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
Que me alimenta os ossos da memória.

Nessa voragem vaga, um mar de calma
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Na duração que escorre nessa arena.

Do fim regresso fera n√£o domada
Ao mesmo pouso de ave renascida
Para o sol da surpresa nas janelas
Escancarando um solo transmutado.

De baixo para cima é que renovo
As vestes da sintaxe que componho
Clara invers√£o da jaula das palavras
Para fechar sem chave a minha sina.

Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, d t√°bua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

√ď minha pobre m√£e!… N√£o te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ru√≠na a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

N√£o venhas mais ao lar. N√£o vagabundes mais,
Alma da minha m√£e… N√£o andes mais √† neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

O Dote que se Oferece no Horror

o dote que se oferece no horror
dessa cidade é mais uma manobra difícil
das marés viradas em nossos pulsos
tal o esforço da visão da névoa

sonhos e vibra√ß√Ķes t√©cnicas est√£o a√≠
para tudo que seja atual
em frontes douradas pois ficou vazio
o que é pesado como o antigo absurdo

seu desejo excepcional ainda dentro
do medo com a mudança recente de vultos
interessados na superfície do arrependimento

mas chegou ao fim a f√ļria da indec√™ncia
e as unhas vistas entre os ossos podem matar
elas conhecem o que pode ser morto de novo

O Começo Antes Do Começo

A chuva cheia chama por um nome
nesse som abafado em √°gua funda.
No líquido chamado há um rio que some
afogando a palavra, flor fecunda,

j√° morta no som cavo que consome
o provável vestígio que se afunda.
Na sanha esse fastio enfeixa a fome
um som de ossos de vértebras rotundas,

harpa transida em tons e semitons:
Uma dodecaf√īnica cantata
deassomada asson√Ęncia se comp√Ķe

no dissonante sonho em catarata.
Chuva de vozes, chuva de Breton:
Nasce o c√£o andaluz e um sol desata-se.

Vol√ļpia Imortal

Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!

N√£o! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!

Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descamados,
Em convulsivas contor√ß√Ķes sensuais,

Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa vol√ļpia das ossadas novas
H√£o de ainda se apertar cada vez mais!

Vénus

I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda…
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a raz√£o se perde!

P√ļtrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esbo√ßo, na marinha turva…
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os p√©s atr√°s, como voando…

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co’a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
_ Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
_ √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…

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√öltimo Porto

Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e fest√Ķes, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A √°gua alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro…

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a m√£e comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir dos ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.

Espelho (II)

Para fechar sem chave a minha sina
Clara invers√£o da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera n√£o domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto.
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim s√£o essas sombras

Morte

Num imenso sal√£o, alto e rotundo,
De caveiras iguais, ossos sem dono,
Perpétua habitação de eterno sono
Que tem por tecto o Céu, por base o mundo:

Bem no meio, em silêncio o mais profundo,
Se levanta da Morte o fatal trono:
Ceptros sem rei, arados sem colono,
São os degraus do sólio furibundo.

Lanças, arneses pelo chão, quebrados,
Murchas grinaldas, b√°culos partidos,
Liras de vates, pastoris cajados,

Algemas, ferros e bras√Ķes luzidos,
No terrível salão são misturados,
No pal√°cio da Morte confundidos.

O Poeta Do Hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generaliza√ß√£o do Desconforto…

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

A Rua Dos Cataventos – X

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada √© livre para os conhecidos…
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

V√£o come√ßar as convuls√Ķes e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos…
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

“Meu Deus! Mas tu n√£o tu n√£o mudas o programa!”
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
“Que t√©dio!” o coro dos Amigos clama.

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
Digo… e retor√ßo as pobres m√£os cansadas:
“Eu sei chorar… eu sei sofrer… S√≥ isto!”

Morte não é a Esquálida Caveira

Morte não é a esquálida caveira
Dura, disforme, seca e carcomida:
Ela um destroço é, uma caída
Da abreviada, racional carreira.

De ossos e carne envernizada, inteira,
Por vida tem a nossa própria vida.
Come, bebe, passeia, est√° vestida
E, até morrer, é nossa companheira.

E sombra que sentimos e n√£o vemos,
Segue-nos sempre aonde quer que vamos,
S√≥ nos deixa nos √ļltimos extremos.

A Morte é sempre a vida que logramos,
Pois morte s√£o os dias que vivemos
E, vida, só o instante que expiramos.

A Dança Da Psiquê

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!

√Č ent√£o que a vaga dos instintos presos
– M√£e de esterilidades e cansa√ßos –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emo√ß√Ķes extraordin√°rias sinto…

Arranco do meu cr√Ęnio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!