Octavio
Toca a boca, olha as coisas abstrato
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos…Logo apĂłs olha o mundo e o vĂȘ morrendo
Sob a opressĂŁo tirĂąnica do mal
E como um passarinho, vai correndo…
Escrever um tratado socialĂ amigo de um “braço” na poesia
E de um outro que Ă© sĂł filosofia
E de um terceiro, romancista: vejaQuanto livro a escrever ainda teria
O ditador Octavio de Faria
Sob o signo cristĂŁo da nova Igreja…
Sonetos
2370 resultadosSorte
Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta…
Painel Ă© que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femĂneo vulto ou madrugada escura.Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro nĂŁo se afoite.– Prometes ser discreto? – Ă meu amor! prometo…
Se nĂŁo fosses tĂŁo curta, Ăł bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, Ăł pĂĄlido soneto!
O Lago Do Cisne
Foram meus olhos, duas asas tontas
que ao teu redor, como ao redor da luz
queimaram suas Ăąnsias e ficaram
mortos no chĂŁo, como cigarras mortas…No bailado em que estavas, sobre o palco,
meu desejo – esse fauno de alma triste,
tomaria teu corpo e bailaria
atĂ© que o mundo se fundisse ao sonho…Olhos de luar e vinho que me seguem
na ĂĄria da solidĂŁo em que me envolvo
sem volta, sem partida, sem transcurso…Foram meus olhos que te descobriram
e ficaram vogando esse abandono
de cisne branco sobre o lago imenso…
SĂȘ de Pedra!
NĂŁo reparaste nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegraphicos da estrada,
Cantam as aves, desde que o sol nada,
E, ĂĄ noite, se faz sol a lua cheia…No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vae, n’uma ancia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, ĂĄs vezes, d’alĂ©m-mar anceia:– Revolução! – Inutil. – Cem feridos,
Setenta mortos. – Beijo-te! – Perdidos!
– Emfim, feliz! – ?- ! – Desesperado. -Vem!E as lindas aves, bem se importam ellas!
Continuam cantando, tagarellas:
Assim, Antonio! deves ser tambem.
Com Os Mortos
Os que amei, onde estĂŁo? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufÔes,
Levados, como em sonho, entre visÔes,
Na fuga, no ruir dos universos…E eu mesmo, com os pĂ©s tambĂ©m imersos
Na corrente e Ă mercĂȘ dos turbilhĂ”es,
SĂł vejo espuma lĂvida, em cachĂ”es,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhĂŁo ideal do eterno Bem.
Ergue, Criança, A Fronte Condorina
Ergue, criança, a fronte condorina
Que é tua fronte, oh!, genial criança,
Ă como a estrela-d’alva da esperança,
Do talento sagrado que a ilumina!Ergue-a, pois, e que, à auréola purpurina
Do Sol da CiĂȘncia, o rĂștilo tesouro
Do Estudo – o Grande Mestre – que te ensina,
Chova sobre ela suas gemas d’ouro!E hoje que colhes um laurel bendito,
Aceita a saudação que num contrito
Fervor, eleva, qual penhor sinceroUm peito amigo a outro peito amigo,
A um gĂȘnio que desponta e que eu bendigo,
A um coração de irmão que tanto quero!
Pouso
Pervaguei muito tempo a procura de um pouso
como alguém que batesse em vão de porta em porta
– meu olhar, parecia perguntar ansioso:
quem me dĂĄ sua mĂŁo?… quem minha alma conforta!Caminheiro sem rumo, a alma jĂĄ quase morta,
via ao longe o caminho intĂ©rmino e sinuoso…
– (quanta coisa afinal na vida se suporta
antes de conseguir-se um pouco de repouso!)Minha vida era assim… – uma estrada vazia…
E eu caminhava a olhar buscando o que surgisse
a frente, – e ao meu redor tudo aos poucos fugia…AtĂ© que te encontrei! … E se nĂŁo te encontrasse,
– talvez ha muito tempo eu jĂĄ nĂŁo existisse!
– talvez que ha muito tempo eu jĂĄ nĂŁo caminhasse!
Indiferença
Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre nĂŁo te houvesse amadoMas, se Ă s vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pålida lembrança.
Daqueles tempos que nĂŁo voltam mais!
O poeta asseteado por amor
Ă CĂ©us! Que sinto n’alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: “A que se expĂ”e quem nĂŁo receia
Contemplar Ursulina um sĂł momento!“Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrĂlega loucura:“De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
Ă tua linda ingrata algum suspiro.”
Um Sorriso
Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra jĂĄ enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpĂłreas mĂŁos. Fosse ĂĄgoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
– Foi entĂŁo que senti sorrir o meu desgosto…Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o cĂ©u… e mar e cĂ©us azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingĂȘnua de teus olhos…A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do cĂ©u, subiu do mar, cantou na estrada…
Elegia para Santa Rosa
Aurora chega, e permaneces fria
noite, imobilizado, cego e mudo
Ă s coisas das manhĂŁs que amanhecias:
cavalete, jornal, café no bule.O mundo neutro e nu pede a pintura;
a tela virgem, teu pincel tranquilo,
As cores vĂȘm chorando pela rua,
entram no atelier branco e vazio.Quais os murais que irĂĄs compor no muro,
entre o que foste e o que serĂĄs, erguido,
o indevassĂĄvel muro eterno e duro?Ai, Santa, pesam sobre nĂłs os dias
desta sobrevivĂȘncia que te usurpa
o espaço e o tempo que te pertenciam.
Olhos Suaves, que em Suaves Dias
Olhos suaves, que em suaves dias
Vi nos meus tantas vezes empregados;
Vista, que sobra esta alma despedias
Deleitosos farpÔes, no céu forjados:Santuårios de amor, luzes sombrias,
Olhos, olhos da cor de meus cuidados,
Que podeis inflamar as pedras frias,
Animar cadĂĄveres mirrados:Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,
Cuja verde arrogĂąncia as nuvens toca,
Cuja hrrĂsona voz perturba os ares:Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;
Troquei-vos pelos ais, pelos pesares:
Oh cĂąmbio triste! oh deplorĂĄvel troca!
Quanto Mais me Paga, Mais me Deve
Passo por meus trabalhos tĂŁo isento
De sentimento grande nem pequeno,
Que sĂł por a vontade com que peno
Me fica Amor devendo mais tormento.Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
Temperando a triaga c’o veneno,
Que do penar a ordem desordeno,
Porque não mo consente o sofrimento.Porém se esta fineza o Amor sente
E pagar-me meu mal com mal pretende,
Torna-me com prazer como ao sol neve.Mas se me vĂȘ co’os males tĂŁo contente,
Faz-se avaro da pena, porque entende
Que quanto mais me paga, mais me deve.
Ăgua-Forte
Do firmamento azul e curvilĂneo
Cai, fecundando as trĂȘmulas raĂzes
Dos laranjais, dos pĂąmpanos, das lizes,
A luz do sol procriador, sanguĂneo.Pelo caminho agreste e retilĂneo,
Da tarde aos brandos, triunfais matizes,
A criançada, a chusma dos felizes,
Esse de auroras perfumado escrĂnio,Volta da escola, rindo muito, aos saltos,
Trepando, em bulha, aos ĂĄrvoredos altos
Enquanto o sol desce os outeiros longos…Vai dentre alados madrigais risonhos,
Do abecedĂĄrio juvenil dos sonhos,
A soletrar os principais ditongos.
CrĂȘ!
VĂȘ como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crĂȘ nobremente.
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.Que seja a Crença uma celeste brisa
Inflando as velas dos batéis do Oriente
Do teu Sonho supremo, onipotente,
Que nos astros do céu se cristaliza.Tua alma e coração fiquem mais graves,
Iluminados por carinhos suaves,
Na doçura imortal sorrindo e crendo…Oh! CrĂȘ! Toda a alma humana necessita
De uma Esfera de cĂąnticos, bendita,
Para andar crendo e para andar gemendo!
CrepĂșsculo
A Julia Lyra
O Angelus soa. Vagarosamente
A noite desce, plĂĄcida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
Chorando a tarde, a noiva peregrina.Hå pelo Espaço um ciciar dolente
De prece em torno da Igrejinha em ruĂna…
PĂĄssaros voam compassadamente;
Treme no galho a rosa purpurina…E eu sinto que a tristeza vem suspensa
Sobre as asas da noite erma e sombria…
E que, n’essa hora de saudade imensa,Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.
VĂłs Que, D’olhos Suaves E Serenos
VĂłs que, d’olhos suaves e serenos,
com justa causa a vida cativais,
e que os outros cuidados condenais
por indevidos, baixos e pequenos;se ainda do Amor domésticos venenos
nunca provastes, quero que saibais
que Ă© tanto mais o amor despois que amais,
quanto são mais as causas de ser menos.E não cuide ninguém que algum defeito,
quando na cousa amada s’apresenta,
possa deminuir o amor perfeito;antes o dobra mais; e se atormenta,
pouco e pouco o desculpa o brando peito;
que Amor com seus contrairos s’acrescenta.
Eu Vi Dos PĂłlos O Gigante Alado
Eu vi dos pĂłlos o gigante alado,
Sobre um montĂŁo de pĂĄlidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcÔes ariscos,
Devorando em silĂȘncio a mĂŁo do fado!Quatro fatias de tufĂŁo gelado
Figuravam da mesa entre os petiscos;
E, envolto em manto de fatais rabiscos,
Campeava um sofisma ensangĂŒentado!â “Quem Ă©s, que assim me cercas de episĂłdios?”
Lhe perguntei, com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovĂ”es serĂłdios.â “Eu sou” â me disse, â “aquele anacronismo,
Que a vil coorte de sulfĂșreos Ăłdios
Nas trevas sepultei de um solecismo…”
Buscando A Cristo
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por nĂŁo castigar-me, estais cravados.A vĂłs, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lĂĄgrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vĂłs, sangue vertido, para ungir-me,
A vĂłs, cabeça baixa, p’ra chamar-meA vĂłs, lado patente, quero unir-me,
A vĂłs, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Do Meu Tempo
Quando eu era menino e tinha cheia
A alma de sonhos bons e, fugidio,
Como a abelha que voa da colmeia,
Andava a errar do canavial bravio;Quando em noites de junho o luar macio
Punha um lençol de rendas sobre a areia,
Tiritava de medo ouvindo o pio
Da coruja mais lĂșgubre da aldeia.Feliz! Bendita essa primeira idade!
Andava como quem anda sonhando
De olhos abertos, com a felicidade.Dormia tarde e enquanto eu nĂŁo dormia,
MamĂŁe rezava o padre-nosso e quando
Me mandava rezar, eu nĂŁo sabia.