Sonetos sobre Repente

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Sonetos de repente escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Espera

Ela tarda… E eu me sinto inquieto, quando
julgo vê-la surgir, num vulto, adiante,
Рos lábios frios, trêmula e ofegante,
os seus olhos nos meus, linda, fitando…

O c√©u desfaz-se em luar… Um vento brando
nas folhagens cicia, acariciante,
enquanto com o olhar terno de amante
fico √† sombra da noite perscrutando…

E ela n√£o vem…Aumenta-me a ansiedade:
– o segundo que passa e me tortura,
√© o segundo sem fim da eternidade…

Mas eis que ela aparece de repente!…
– E eu feliz, chego a crer que igual ventura
bem valia esperar-se eternamente!…

Hoje

Fiz anos hoje… Quero ver agora
Se este sofrer que me atormenta tanto
Me n√£o deixa lembrar a paz, o encanto,
A doce luz de meu viver de outr’ora.

Tão moça e mártir! Não conheço aurora,
Foge-me a vida no correr do pranto,
Bem como a nota de choroso canto
Que a noite leva pelo espaço em fora.

Minh’alma voa aos sonhos do passado,
Em busca sempre d’esse ninho amado
Onde pousava cheia de alegria.

Mas, de repente, num pavor de morte,
Sente cortar-lhe o v√īo a m√£o da sorte…
Minha ventura só durou um dia.

Soneto De Luz E Treva

Ela tem uma graça de pantera
no andar bem comportado de menina
no molejo em que vem sempre se espera
que de repente ela lhe salte em cima

Mas s√ļbito renega a bela e a fera
prendeo cabelo, vai para a cozinha
e de um ovo estrelado na panela
ela com clara e gema faz o dia

Ela é de Capricórnio, eu sou de Libra
eu sou o Oxalá velho, ela é Inhansã
a mim me enerva o ardor com que ela vibra

E que a motiva desde de manh√£.
— Como √© que pode, digo-me com espanto
a luz e a treva se quererem tanto…

Triste Bahia! Oh Qu√£o Dessemelhante

Triste Bahia! oh qu√£o dessemelhante
Est√°s e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado.
Rica te vi eu j√°, tu a mim abundante.

A ti tocou-te a m√°quina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto a√ß√ļcar excelente
Pelas drogas in√ļteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh, se quisera Deus que, de repente,
Um dia amanheceras t√£o sisuda
Que fora de algod√£o o teu capote!

Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

Dedicatória

A quem n√£o basta a vida, a quem procura
as luzes escondidas de outra noite
deixo dedicatória e pronta fuga
da treva que nos ronda até à morte.

Mas j√° n√£o sei mentir. Ruim figura.
Durou o nosso enredo uma só noite.
Teu corpo eu aprendi nessas escuras
sombras a que n√£o chega nem a morte.

A quem n√£o basta a vida, a quem engana
essa réstea de luz dentro da noite
deixo dedicatória e abro os olhos:
que tudo nos é dado de repente.

E num feixe de sombras imprecisas
arde o que resta a quem n√£o basta a vida.

Crep√ļsculo

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de doc√ļra triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. √Č quando,
da rec√īndita paz das horas esquecidas,
v√£o, ao luar da saudade, os sonhos acordando…

E, na torre do peito, em pl√°cidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o r√©quiem de amor das ilus√Ķes perdidas.

No Circo

(A Jo√£o de Deus)

Muito longe d’aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas t√£o longe… que at√© dizer podia
Que enquanto l√° andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E l√ļcida a exist√™ncia amanhecia…
E eu… leve como a luz… at√© que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n’essa hora,
E achei-me de improviso feito fera…
‚ÄĒ √Č assim que rujo entre le√Ķes agora!

Os Quinze Anos De Uma Alma Transparente

Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um cora√ß√£o que dorme, inda inocente…

Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura…
A linda m√£o na m√°gica cintura…
E uma voz que inebria docemente…

Um sorrir t√£o ang√©lico, t√£o santo…
E nos olhos azuis cheios de vida
L√Ęnguido v√©u de involunt√°rio pranto…

√Č esse o talism√£, √© essa a Armida,
O cond√£o de meus √ļltimos encantos,
A vis√£o de minh’alma distra√≠da!

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegra√ß√Ķes maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
T√≠sica, t√™nue, m√≠nima, raqu√≠tica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica

Elegia para a Adolescência

E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que h√°-de ser de
nós que então seremos definidos.

No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos
seremos atirados de repente,
puros e in√ļteis como sempre fomos.

Veremos que as vogais e as consoantes
n√£o s√£o mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.

E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.

Frustração

Persegui-a com as mãos, como uma criança a um brinquedo.
Era um sonho; era mais: – a alegria que chega,
o prazer que nos toma e nos deixa inebriados,
atirando √† corrente, num gesto, os sentidos…

Ah! Povoou minhas noites de sono sem p√°lpebras;
dan√ßava entre estrelas na dist√Ęncia, – via-a!
Meu destino! pensei, – eis o amor! – √Č esse sangue
que me queima por dentro e me agita: eis o amor!

E alcancei-a! Eis o mar ao redor atordoante!
Nos meus braços em concha era como uma pérola
escondida, o mist√©rio do oceano a guardar…

E de repente, √© estranho! esse vazio, esta √Ęnsia!
Como a posse do amor est√° longe do amor
e o rumor que h√° na concha… est√° longe do mar!

Viola

Ai, n√£o morras de amor, de amor n√£o morre
o amor que mata amor morosamente.
N√£o creias no que te arma de descrente
e sendo anti-socorro te socorre.

Naquela simples gala, justamente,
√© in√≠cio da pobreza ‚ÄĒ isto que morre
sendo amor que te mata e te socorre
no amor que mata amor, morosamente.

H√° uma pressa escondida e inata nessa
morosa perda, amor, que de repente
te instiga a dar medida ao que n√£o cessa.

Se te apraz dar socorro ao que socorre,
aceita o que te mata eternamente
e n√£o morras de amor, que amor n√£o morre.

Sobresalto

Quantas horas passava contemplando
Seu pequenino Vulto. Era um Anjinho
Dentro de nossa casa, aben√ßoando…
Era uma Fl√īr, um Astro, um Amorzinho.

Um dia, em que ele, ao pé de mim, sósinho
Brincava, estes meus olhos inundando
De graça, de inocencia e de carinho,
De tudo o que é celeste, alegre e brando,

Vi tremer sua Imagem, de repente,
No ar, como se f√īra Apari√ß√£o.
E para mim eu disse tristemente:

“Pertences a outro mundo, a um c√©u mais alto;
Partir√°s dentro em breve.” E desde ent√£o
Eu fiquei num constante sobresalto!

Noite Escura

Noite escura do amor, em que me deito
com teu corpo de luz, eu assombrado
deste fantasma de repente alado
amplificando a jaula do meu peito.

Deixando-o infinito, maculado
de sangue e espuma (é mar este fantasma?
ou p√°ssaro de mar que em onda espalma
seu corpo que é de luz e céu desfeito).

E a noite escura que era o amor se ajunta
em feixes de silêncio e de desmaio
para a festa defunta

de ver ressurrei√ß√Ķes: tempo em que caio
para em sombras cantar mais docemente
este sol que me p√Ķe preso e demente.

Milagre De Amor

Que mimporta, meu amor, a poesia que tanto
te preocupa porque a fiz antes de ti ?
Hoje… para n√£o ver os teus olhos em pranto
por Deus que eu rasgaria os versos que escrevi…

Hoje, j√° n√£o s√£o meus… Como que por encanto
estes poemas que fiz, que sonhei, que vivi,
s√£o estranhos que seguem cantando o meu canto
a falarem de um velho mundo, que esqueci…

De repente a mudança é tão grande, é tamanha,
que o passado se esvai numa sombra perdida,
e a minha pr√≥pria voz soa falsa e estranha…

√ďh Milagre de Amor… ( Que por louco me tomem!)
Mas sinto uma alma nova em mim… tenho oura vida!!
E um novo cora√ß√£o no peito… e sou outro homem!

Raz√Ķes

“Raz√Ķes…”
I
Pensarás que é mentira e é no entanto verdade
– mas me afasto de ti, propositadamente,
pelo estranho prazer de sentir que a saudade
ainda torna maior o cora√ß√£o da gente…

Parto! Bem sei que parto sem necessidade!
Quero ver os teus olhos turvos, de repente,
embora n√£o compreenda essa felicidade
que assim te faz sofrer comigo inutilmente!

Quero ouvir-te na hora da despedida
que eu volte bem depressa para a tua vida,
– quero no √ļltimo beijo um solu√ßo interior…

Que enquanto ficas só, e enquanto vou sozinho,
sabemos que a saudade vai tecendo o ninho
que h√° de aquecer na volta o nosso eterno amor!

XXXI

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente…

Porque teu nome é para mim o nome
De uma p√°tria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

Anima Mea

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a f√ļnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: ¬ęQue buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?¬Ľ

‚ÄĒ N√£o temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).

Eu n√£o busco o teu corpo… Era um trof√©u
Glorioso de mais… Busco a tua alma ‚ÄĒ
Respondi-lhe: ¬ęA minha alma j√° morreu!¬Ľ

Acordando

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu v√£o sofrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o c√©u a minh’alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia…
Canta o enlevo das cousas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta…

Mas, de repente, um vento humido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me acorda. ‚ÄĒ A noite √© negra e muda: a dor

C√° vela, como d’antes, ao meu lado…
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!