Textos sobre Casas de Miguel Esteves Cardoso

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Textos de casas de Miguel Esteves Cardoso. Leia este e outros textos de Miguel Esteves Cardoso em Poetris.

Até a Pessoa Amada Voltar

Até ela, a pessoa amada, voltar, o tempo não corre como costuma correr. Atrasa-se e detém-se. Suspende-se e atrapalha-nos. Move-se de um lado para o outro. Arrasta os lugares: aqueles onde ela está e aquele (a nossa casa) onde eu espero por ela.

Esperar é um sofrimento mas também se aprende a esperar. Olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer porque esses quantificadores malévolos são contabilistas automatizados que sabem contar todos os tempos, excepto os tempos de quem ama, espera e tem medo.

N√£o s√£o capazes de contar os tempos de todas as pessoas dotadas de um corpo com cora√ß√£o e alma. Que somos todos, quer queiramos, quer n√£o. Quem √© que quer? Ningu√©m. E de que nos serve? De nada. At√© ela, a pessoa amada, voltar, a √ļnica coisa que podemos fazer √© a que mais nos custa: esperar que ela volte. Mas quando √© que ela volta? Os minutos podem n√£o ser anos mas os quartos-de-hora s√£o semanas inteiras.

Mesmo saber que ela, a pessoa amada, voltará é difícil. Até acreditamos que queira voltar. Mas preocupamo-nos: e se ela não puder voltar? Pensar nisso é como morrer vivo sem pensar nisso.

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Fim-de-Semana em Casa

√Č s√°bado. √Č Inverno. √Č dia de acastelar. Sa√≠mos com sacos, ¬ętupper-wares¬Ľ, rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, às lojas, aos restaurantes. O objectivo é enchermo-nos de víveres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelãs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
S√≥ o bastante para nos acastelarmos em casa, repimp√Ķes, com tudo ao nosso alcance, at√© √† long√≠nqua segunda-feira. Dia em que sa√≠remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
Não temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta Рmas corremo-lo à mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chão da cozinha.
Ser√° a mentalidade medieval do campismo ou o ideal ¬ęhippy¬Ľ da auto-sufici√™ncia? N√£o. Constitui a√ßambarcamento? √Č anti-social? Tamb√©m n√£o. √Č apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensão, graças a compras sabichonas,

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Quem n√£o Dava a Vida por um Amor?

O essencial √© amar os outros. Pelo amor a uma s√≥ pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem caf√©s. √Č horr√≠vel, mas uma pessoa vai andando.
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. √Č f√°cil.
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar.
Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a √ļnica coisa que ia sobreviver a n√≥s era o amor. O amor. Vive-se sem paix√£o, sem correspond√™ncia, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. √Č verdade, sim senhores.
Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.
O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mai tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.
O amor é que fica quando o coração está cansado.

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Temos de Ser Mais Humanos

Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos prim√°rios. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. N√£o √© auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biol√≥gica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condi√ß√£o. √Č lendo Plat√£o. E construindo pontes suspensas. √Č tendo ins√≥nias. √Č desenvolvendo paran√≥ias, conceitos filos√≥ficos, poemas, desequil√≠brios neuroqu√≠micos insan√°veis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas pol√≠ticos, receitas de bacalhau, pormenores.

√Č engra√ßado como cada √©poca se foi considerando ¬ęde charneira¬Ľ ao longo da hist√≥ria. A pretens√£o de se ser definitivo, a arrog√Ęncia de ser ¬ęo √ļltimo¬Ľ, a vaidade de se ser futuro √©, h√° mil√©nios, a mesm√≠ssima cantiga.
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.

A √ļnica atitude verdadeiramente civilizada √© a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experi√™ncia, o amor desinteressado,

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A Culpa é Sempre Nossa

Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre.
Os grandes mestres s√£o os nossos pais e os nossos filhos – ambos mostram de onde veio a inspira√ß√£o para o pecado original. Ora se √© culpado por ter nascido e interrompido, ora se √© culpado por ter dado a nascer e n√£o se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos.A culpa n√£o √© uma coisa que se tenha, como um pesco√ßo. √Č uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado ¬ę√† partida¬Ľ, que tem aspas porque n√£o existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos s√£o vulner√°veis √† ideia que at√© fizeram por isso e merecem pagar.At√© com as l√Ęmpadas de casa de banho acontece. N√£o h√° dom√≠nio de banalidade que a culpa n√£o contamine. Tenho passado, nos √ļltimos anos, v√°rias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando √© oferecida.Depois aparece o electricista que √© afoito e resolve tudo num segundo.

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O Machismo Portugu√™s e as Trai√ß√Ķes Amorosas

Na g√≠ria portuguesa, os palitos s√£o a vers√£o econ√≥mica, e mais moderna, dos cornos. Os cornos, √† semelhan√ßa do que aconteceu com os autom√≥veis e os computadores, tornaram-se demasiado volumosos e pesados para as exig√™ncias do homem de hoje. Da√≠ a crescente popularidade dos mais port√°teis e menos onerosos palitos. Contudo, visto que se vive presentemente um per√≠odo de transi√ß√£o, em que os novos palitos ainda se v√™em lado a lado com os tradicionais cornos, continuam a existir algumas sobreposi√ß√Ķes. Uma delas, herdada do antigamente, deve-se ao facto dos palitos n√£o se saldarem numa diminui√ß√£o proporcional de sofrimento. Ou seja, n√£o d√£o uma mera dor de palito ‚ÄĒ d√£o √† mesma, incontrovertivelmente, dor de corno. N√£o √© mais carinhoso, por isso, p√īr os ¬ępalitos¬Ľ a algu√©m ‚ÄĒ continua a ser exactamente o mesmo que p√īr os outros.

Tudo isto vem a prop√≥sito da forma at√≠pica, entre os povos latinos, que assume o machismo portugu√™s. N√£o se trata do machismo triunfalmente dominador, g√©nero ¬ęAqui quem manda sou eu!¬Ľ, do brutamontes que n√£o d√° satisfa√ß√Ķes √† mulher. N√£o ‚ÄĒ o machismo portugu√™s, imortalizado pelo fado ¬ęN√£o venhas tarde¬Ľ, √© um machismo apolog√©tico, todo ¬ędesculpa l√° √≥ Mafalda¬Ľ, que alcan√ßa os seus objectivos de uma maneira mais eficaz.

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Para a Minha Mulher

Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar s√≥ uma. Esta semana, quando volt√°vamos da praia, a Maria Jo√£o estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar pela janela do carro. Tive ci√ļmes que algu√©m pudesse apanhar os lindos cabelos dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria Jo√£o disse: ¬ęAgora tenho eu ci√ļmes que algu√©m apanhe o cabelo com beijinhos teus¬Ľ.

Cas√°mos um com o outro nesse momento. J√° t√≠nhamos casado cinco vezes na praia. Casar √© o que acontece quando duas pessoas descobrem que, por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, s√£o as duas √ļnicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas n√£o podem fazer parte daquele prazer. Aquele prazer s√≥ √© poss√≠vel para duas pessoas concretas: ela e eu.

À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela pedir.

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Como se Faz uma Declaração de Amor?

Mas ent√£o como se faz uma declara√ß√£o de amor? Em papel selado, na presen√ßa de um advogado. Por que n√£o? As piores declara√ß√Ķes s√£o as p√≠fias e clandestinas, do g√©nero ¬ęAcho-te uma pessoa muito interessante¬Ľ. As melhores s√£o aquelas que comprometem quem as faz, que se baseiam em provas capazes de serem apresentadas em tribunal, que fazem corar as testemunhas. As declara√ß√Ķes do tipo ¬ęExperimentar-a-ver-se-d√°¬Ľ nunca d√£o. √Č melhor mandar imprimir 2000 folhetos e distribu√≠-los por avioneta √† popula√ß√£o, devidamente identificados, do que um bilhetinho an√≥nimo de ¬ęum admirador¬Ľ. As declara√ß√Ķes de amor t√™m de cortar a respira√ß√£o de quem as recebe, t√™m de rebentar na cara de quem as l√™. O amor e o terrorismo s√£o quest√Ķes de objectivo, e n√£o de grau.

Como estamos todos a zero, ningu√©m pode dar conselhos a ningu√©m. H√° s√©culos que as maiores cabe√ßas do mundo procuram a frase perfeita de apresenta√ß√£o. H√° as deixas rascas, do g√©nero ¬ęDeixe-me adivinhar o seu signo¬Ľ ou ¬ęN√£o costuma c√° estar √†s ter√ßas-feiras, pois n√£o?¬Ľ. H√° as deixas pirosas, do g√©nero ¬ęImporta-se que eu lhe diga que voc√™ √© muito bonita?¬Ľ ou ¬ęPosso s√≥ dizer-lhe uma coisa? O seu namorado tem muita sorte!¬Ľ. Depois,

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Amar Alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho Рmas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

Amar √© um casamento de solid√Ķes que, gozando o prazer da juntid√£o, mesmo assim n√£o prescinde dos prazeres de duas solid√Ķes juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

Amar e ser amado √© a melhor sorte que se pode ter. N√£o s√£o milagres que aconte√ßam por acaso. √Č preciso trabalhar com leviandade – por muito cheio de amor que o cora√ß√£o esteja – para que esses milagres, fac√≠limos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

Amar alguém é um baluarte contra o mundo,

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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Os Dias Ricos

√Č bom ter um dia complicado se formos n√≥s a complic√°-lo, √† medida que vamos andando. S√£o os dias ricos. Nunca sabemos o que vamos fazer a seguir mas fazemos sempre qualquer coisa a seguir, para n√£o interromper a cadeia.

Em vez de jantarmos em casa ou jantarmos fora, entramos num restaurante onde costumamos jantar e comemos apenas um petisco, um aperitivo. Os anfitri√Ķes tamb√©m apreciam a mudan√ßa. √Č como ir cumpriment√°-los.

Metemos conversa com um casal que s√≥ nos parece japon√™s porque queremos que seja, para lhes perguntar como preparam a massa Shirataki, que tem zero calorias. Perguntamos de onde s√£o? Da Holanda, respondem. Os preconceitos, no sentido de pr√©-ju√≠zos ou pensamentos j√° feitos (na verdade, substitutos e obst√°culos do conhecimento), s√£o cada vez mais in√ļteis.

Os hábitos são diferentes. Para celebrá-los, nem é preciso esquecê-los ou trocá-los por alternativas, felizes ou desagradáveis. O melhor é interrompê-los e acrescentar-lhes desvios espontaneamente decididos que enaltecem, através da diversão, a felicidade subjacente.

Os dias ricos levam outro dia inteiro a contar. Só fazer a lista do que se fez cansa tão bem como nadar um quilómetro, devagarinho, num oceano vivo que nos consente.

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N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

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