Textos sobre Precipícios

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Textos de precipícios escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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A Roda da Fortuna

N√£o se move a roda, sem que a parte que virou para o c√©u seja maior repuxo para tocar na terra, e a parte que se viu no ar erguida se veja logo da mesma terra pisada, sem outro impulso para descer, mais que com o mesmo movimento com que subiu; por isso a fortuna fez trono da sua mesma roda, porque, como na figura esf√©rica se n√£o conhece nela primeiro nem √ļltimo lugar, nas felicidades andam sempre em confus√£o as venturas. Na dita com que se sobe, vai sempre entalhado o risco com que se desce. N√£o h√° estrela no c√©u que mais prognostique a ru√≠na de um grande, que o levantar de sua estrela. Mais depressa se move aos afagos da grandeza que nos lisonjeia, do que aos desfavores com que a fortuna nos abate.
Quanto trabalharam os homens para subir, tantas foram as diligências que fizeram para se arruinarem; porque, como a fortuna (falo com os que não são beneméritos) não costuma subir a ninguém por seus degraus, em faltando degraus para a descida, tudo hão-de ser precipícios; e diferem muito entre si o descer e o cair. Se perguntarmos o por que caiu Roma, o maior império do Mundo,

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A Riqueza de Espírito no Estado de Doença

Considerando como a doen√ßa √© comum, como √© tremenda a mudan√ßa espiritual que traz, como √© espantoso quando as luzes da sa√ļde se apagam, as regi√Ķes por descobrir que se revelam, que extens√Ķes desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precip√≠cios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura exp√Ķe, que antigos e rijos carvalhos s√£o desenraizados em n√≥s pela ac√ß√£o da doen√ßa, como nos afundamos no po√ßo da morte e sentimos as √°guas da aniquila√ß√£o fecharem-se acima da cabe√ßa e acordamos julgando estar na presen√ßa de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos √† superf√≠cie na cadeira do dentista e confundimos o seu ¬ębocheche… bocheche¬Ľ com sauda√ß√£o da divindade debru√ßada no ch√£o do c√©u para nos dar as boas-vindas – quando pensamos nisto, como tantas vezes somos for√ßados a pensar, torna-se realmente estranho que a doen√ßa n√£o tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ci√ļme, por entre os principais temas da literatura.

Os V√°rios Tipos de Coragem

A verdadeira coragem √© uma das qualidades que su¬≠p√Ķem a maior grandeza de alma. Observo v√°rias esp√©cies dela: uma coragem contra a fortuna, que √© filosofia; uma coragem contra as mis√©rias, que √© paci√™ncia; uma cora¬≠gem na guerra, que √© bravura; uma coragem nos em¬≠preendimentos, que √© arrojo; uma coragem altiva e teme¬≠r√°ria, que √© aud√°cia; uma coragem contra a injusti√ßa, que √© firmeza; uma coragem contra o v√≠cio, que √© severidade; uma coragem de reflex√£o, de temperamento, etc. N√£o √© comum que um mesmo homem re√ļna tantas qualidades.
Oct√°vio, no pleno da sua fortuna, elevado so¬≠bre precip√≠cios, enfrentava perigos eminentes; mas a morte, presente na guerra, abalava sua alma. Um n√ļme¬≠ro incalcul√°vel de romanos que nunca tinham temido a morte nas batalhas n√£o possu√≠a essa outra coragem que submeteu a terra a Augusto.
N√£o apenas se encontram muitas esp√©cies de cora¬≠gem, mas na mesma coragem muitas desigualdades. Bru¬≠to, que teve a ousadia de atacar a fortuna de C√©sar, n√£o teve a for√ßa de seguir a sua pr√≥pria: havia alcan√ßado o projec¬≠to de destruir a tirania apenas com os recursos da sua co¬≠ragem, e teve a fraqueza de o abandonar com todas as for√ßas do povo romano, por falta desse equil√≠brio de for¬≠√ßa e de sentimento que sobrep√Ķe os obst√°culos e a len¬≠tid√£o dos sucessos.

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O Desejo de Ser Sincero é Superficial

O desejo de ser sincero √© superficial. N√£o √© por acaso que muitos dos romances entre os √ļltimos aparecidos s√£o escritos na primeira pessoa, de modo a que o eu repetido e disseminado ao longo das p√°ginas produza uma sensa√ß√£o de algo muito pr√≥ximo a uma lembran√ßa, a uma confiss√£o, a um di√°rio. N√£o √© tamb√©m por acaso que neles se evita com muito cuidado o enredo ou de certa forma tudo o que possa parecer inven√ß√£o; e que se narre os factos com garra jornal√≠stica, como coisa que realmente tivesse acontecido. A sinceridade, no seu estrito sentido, n√£o suporta a narra√ß√£o objectiva que √© um princ√≠pio de artif√≠cio nem a inven√ß√£o que em todas as ocasi√Ķes pode parecer falsa.
A sinceridade parece-se muito com o mar em certos dias. H√° manh√£s de tanta bonan√ßa que se andamos de barco e nos inclinamos para contemplar a √°gua debaixo de n√≥s, tem-se a impress√£o de que estamos suspensos sobre transparentes e tang√≠veis precip√≠cios. A √°gua, por muito profunda que seja, n√£o se op√Ķe a que se olhe a prumo para baixo e se veja, numa claridade esverdeada, o fundo areoso espargido de seixos e de trigueiras c√©spedes. Nasce ent√£o uma esp√©cie de exalta√ß√£o,

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A Profundidade do Ser

E de vez em quando descer √† gravidade de mim, √† profundidade do meu ser. E verificar ent√£o que tudo se transfigura. Que √© que significa este garatujar quase gratuito, este riso superficial, todo este modo de ser menor? A melancolia profunda, t√£o de dentro que ela se iguala √† alegria sem medida. Espa√ßo rarefeito de n√≥s, √© o lugar da grandeza do homem, do que √© nele fundamental, o lugar do aparecimento de Deus. Mas Deus n√£o me aparece – aparece apenas a inunda√ß√£o que me vem da infinita beatitude, da grandeza e do assombro. N√≥s vivemos habitualmente √† superf√≠cie de n√≥s, ligados ao que √© da vida imediata, enredados nas mil futilidades com que se nos enchem os dias. Mas de vez em quando, o abismo da natureza, um livro ou uma m√ļsica que dos abismos vem, abre-nos aos p√©s um precip√≠cio hiante e tudo se dilui num sentir que est√° antes e abaixo e mais longe que esse tudo. H√° uma harmonia que em n√≥s espera por um som, um acorde, uma palavra, para imediatamente se organizar e envolver-nos. E a√≠ somos verdade para a infinidade dos s√©culos.

Abrir as Portas da Felicidade

A For√ßa √© a chave que abre as portas da felicidade, pois sem ela nenhuma das outras nove portas √© aberta. Se desejamos ser felizes, temos de apelar √† nossa for√ßa interior e mental para mudar o que est√° mal em n√≥s. A For√ßa distingue-nos da norma, pois obriga-nos a lutar pela diferen√ßa de tentarmos ser felizes, d√°-nos a capacidade de optar consecutivamente por um ¬ęsim¬Ľ ou um ¬ęn√£o¬Ľ.

A For√ßa abre-nos fronteiras, cria passagens por mundos desconhecidos e torna-nos corajosos. A For√ßa destr√≥i os medos e combate a indiferen√ßa e a frustra√ß√£o. A For√ßa √© um desvio de dire√ß√£o quando nos aproximamos do abismo, √© um acordar repentino quando apenas temos um precip√≠cio pela frente. A For√ßa √© compreender um aviso, um sinal. √Č derrotar definitivamente os dias tristes.
Sou feliz porque tenho Força para mudar o que não está bem.

Somente quem está cego é que marcha com serenidade para o precipício

Somente quem está cego é que marcha com serenidade para o precipício.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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A Justa Medida

As necessidades do corpo s√£o a justa medida do que cada um de n√≥s deve possuir. Exemplo: o p√© s√≥ exige um sapato √† sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitar√°s em tudo quanto fa√ßas as devidas propor√ß√Ķes. Se ultrapassares estas propor√ß√Ķes, ser√°s, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precip√≠cio te seduzisse. O sapato √© exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para al√©m do que o teu p√© necessita, n√£o tardar√° muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato de p√ļrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos prop√≥sitos.