Textos sobre Raz√£o de Immanuel Kant

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Textos de raz√£o de Immanuel Kant. Leia este e outros textos de Immanuel Kant em Poetris.

O Campo da Experiência Nunca nos Satisfaz

Sendo todos os princ√≠pios do nosso entendimento apenas aplic√°veis a objectos da experi√™ncia poss√≠vel, toma-se evidente que todo racioc√≠nio racional, que se aplica √†s coisas situadas fora das condi√ß√Ķes da experi√™ncia, ao inv√©s de alcan√ßar a verdade, apenas deve necessariamente chegar a uma apar√™ncia e a uma ilus√£o.
Mas o que caracteriza tal ilus√£o √© que ela √© inevit√°vel (‚Ķ) a tal ponto que, mesmo quando j√° nos apercebemos da sua falsidade, nos n√£o podemos libertar dela. (…) De facto, o campo da experi√™ncia nunca nos satisfaz. (…) A nossa raz√£o, para se satisfazer, deve, pois, necessariamente, tentar ultrapassar os limites da experi√™ncia e, por consequ√™ncia, persuadir-se infalivelmente de que por esse caminho alcan√ßar√° a extens√£o e a integralidade dos seus conhecimentos, coisa que ela n√£o pode encontrar no campo dos fen√≥menos. Mas esta persuas√£o √© uma ilus√£o completa: estando totalmente para al√©m dos limites da nossa experi√™ncia sens√≠vel todos os conceitos e princ√≠pios do entendimento, e n√£o podendo ent√£o ser aplicados a qualquer objecto, a raz√£o ilude-se a si mesma quando atribui um valor objectivo a m√°ximas completamente subjectivas, que, na realidade, apenas admite para sua pr√≥pria satisfa√ß√£o.
(…) Todos os nossos racioc√≠nios que pretendem sair do campo da experi√™ncia s√£o ilus√≥rios e infundamentados.

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O Limite da Lógica

O crit√©rio simplesmente l√≥gico da verdade, isto √©, o acordo de um conhecimento com as leis gerais e formais do entendimento e da raz√£o, √©, decerto, a condition sine qua non e, portanto, a condi√ß√£o negativa de qualquer verdade; mas a l√≥gica n√£o pode ir mais al√©m; nenhuma pedra de toque lhe permite descobrir o erro que atinge n√£o a forma, mas o conte√ļdo.

A Razão é Contrária à Felicidade

Quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer de ódio à razão. E isto porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens que elas tiram, não digo já da invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências (que a elas lhes parecem no fim e ao cabo serem também um luxo do entendimento), descobrem contudo que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade, e que por isso finalmente invejam mais do que desprezam os homens de condição inferior que estão mais próximos do puro instinto natural e não permitem à razão grande influência sobre o que fazem ou deixam de fazer. E até aqui temos de confessar que o juízo daqueles que diminuem e mesmo reduzem a menos de zero os louvores pomposos das vantagens que a razão nos teria trazido no tocante à felicidade e ao contentamento da vida, não é de forma alguma mal-humorado ou ingrato para com a vontade do governo do mundo,

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Raz√£o e Entendimento

Se dizemos do entendimento que ele é o poder de reconduzir os fenómenos à unidade através das regras, deve-se dizer da razão que ela é a faculdade de reconduzir à unidade as regras do entendimento através dos princípios. Portanto ela jamais se relaciona imediatamente nem com a experiência, nem com um objecto qualquer, mas com o entendimento, a fim de fornecer a priori e por conceitos aos variados conhecimentos dessa faculdade uma unidade que se pode chamar racional e que é inteiramente diferente da que o entendimento pode fornecer.
(…) √Č o destino comum da raz√£o humana na especula√ß√£o terminar o seu edif√≠cio assim que poss√≠vel e s√≥ depois examinar se tamb√©m os fundamentos foram bem colocados.

A Necessidade da Metafísica

A raz√£o humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas quest√Ķes que n√£o pode evitar. Com efeito, tais quest√Ķes imp√Ķem-se √† raz√£o devido √† sua mesma natureza, mas ela n√£o pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
N√£o devemos contar que o esp√≠rito humano renuncie um dia por completo √†s indaga√ß√Ķes metaf√≠sicas: seria o mesmo que aguardar que, em vez de respirar sempre um ar viciado, suspend√™ssemos um belo dia a respira√ß√£o. Por conseguinte, haver√° sempre no mundo, ou, melhor, em todo homem, sobretudo se ele reflecte, uma metaf√≠sica, que, na aus√™ncia de uma norma comum, cada qual talhar√° a seu grado; ora o que at√© aqui se tem denominado metaf√≠sica n√£o pode satisfazer nenhum esp√≠rito reflectido, mas renunciar a ela por completo √© tamb√©m imposs√≠vel; √© necess√°rio, pois, empreender enfim uma cr√≠tica da raz√£o pura em si, ou, se alguma existe, perscrut√°-la e examin√°-la em conjunto; na verdade, n√£o h√° outro meio de satisfazer esta exig√™ncia imperiosa, que √© coisa muito diferente de um simples desejo de saber.

Moralidade e Felicidade

A felicidade √© o estado em que se encontra no mundo um ser racional para quem, em toda a sua exist√™ncia, tudo decorre conforme o seu desejo e a sua vontade; pressup√Ķe, por consequ√™ncia, o acordo da natureza com todo o conjunto dos fins deste ser, e simultaneamente com o fundamento essencial de determina√ß√£o da sua vontade. Ora a lei moral, como lei da liberdade, obriga por meio de fundamentos de determina√ß√£o, que devem ser inteiramente independentes da natureza e do acordo dela com a nossa faculdade de desejar (como motor). Por√©m, o ser agente racional que actua no mundo n√£o √© simultaneamente causa do mundo e da pr√≥pria natureza. Assim, pois, na lei moral n√£o h√° o menor fundamento para uma conex√£o necess√°ria entre a moralidade e a felicidade, com ela proporcionada, num ser que, fazendo parte do mundo, dele depende; este ser, precisamente por isso, n√£o pode ser voluntariamente a causa desta natureza nem, no que √† felicidade respeita, fazer com que, pelas suas pr√≥prias for√ßas, coincida perfeitamente com os seus pr√≥prios princ√≠pios pr√°ticos.
E, todavia, no problema prático que a razão pura nos prescreve, isto é, na prossecução do soberano bem, tal acordo é postulado como necessário: devemos procurar realizar o soberano bem,

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A Razão ao Serviço do Instinto

O homem √© um ser que tem necessidades na medida em que pertence ao mundo sens√≠vel, e, a esse respeito, a sua raz√£o tem certamente um encargo que n√£o pode declinar em rela√ß√£o √† sensibilidade, o de se ocupar dos interesses da √ļltima, o de constituir m√°ximas pr√°ticas, em vista da felicidade desta vida e tamb√©m, quando √© poss√≠vel, da felicidade de uma vida futura. Mas n√£o √©, no entanto, t√£o completamente animal para ser indiferente a tudo o que a raz√£o lhe diz por ela mesma e para empreg√°-la simplesmente como um instrumento pr√≥prio para satisfazer as suas necessidades como ser sens√≠vel. Pois o facto de ter a raz√£o n√£o lhe d√° absolutamente um valor superior √† simples animalidade, se ela s√≥ devesse servir-lhe para o que o instinto realiza nos animais.

A Boa Vontade

De todas as coisas que podemos conceber neste mundo ou mesmo, de uma maneira geral, fora dele, n√£o h√° nenhuma que possa ser considerada como boa sem restri√ß√£o, salvo uma boa vontade. O entendimento, o esp√≠rito, o ju√≠zo e os outros talentos do esp√≠rito, seja qual for o nome que lhes dermos, a coragem, a decis√£o, a perseveran√ßa nos prop√≥sitos, como qualidades do temperamento, s√£o, indubit√°velmente, sob muitos aspectos, coisas boas e desej√°veis; contudo, tamb√©m podem chegar a ser extrordin√°riamente m√°s e daninhas se a vontade que h√°-de usar destes bens naturais, e cuja constitui√ß√£o se chama por isso car√°cter, n√£o √© uma boa vontade. O mesmo se pode dizer dos dons da fortuna. O poder, a riqueza, a considera√ß√£o, a pr√≥pria sa√ļde e tudo o que constitui o bem-estar e contentamento com a pr√≥pria sorte, numa palavra, tudo o que se denomina felicidade, geram uma confian√ßa que muitas vezes se torna arrog√Ęncia, se n√£o existir uma boa vontade que modere a influ√™ncia que a felicidade pode exercer sobre a sensibilidade e que corrija o princ√≠pio da nossa actividade, tornando-o √ļtil ao bem geral; acrescentemos que num espectador imparcial e dotado de raz√£o, testemunha da felicidade ininterrupta de uma pessoa que n√£o ostente o menor tra√ßo de uma vontade pura e boa,

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