Os verdadeiros artistas e criadores constituem sempre contra-governos, governos nas sombras a partir das quais vão impugnando as certezas, as retóricas, as ficções ou verdades oficiais e recordando, no que pintam, compõem, interpretam ou fabulam que, contrariamente ao que sustém o poder, o mundo vai muito mal, e que a vida real estará sempre abaixo dos sonhos e dos desejos humanos.
Passagens sobre Governo
261 resultadosUm povo corrompido nĂŁo pode tolerar um governo que nĂŁo seja corrupto.
Os governos fracos fazem fortes os ambiciosos e insurgentes.
Quanto a mim, o melhor governo Ă© o que deixa as pessoas mais tempo em paz.
Os governos impõem a justiça, mas poderiam impô-la se não a tivessem primeiro violado para fundar o seu reino ?
A revolução, se quiser resistir, deve permanecer revolução. Se se transforma em governo, já está falida… Os lugares que deixaram de ter uma revolução permanente recuperaram a tirania.
Os chefes polĂticos e os governos devem o seu lugar em parte Ă violĂŞncia e em parte Ă escolha pelas massas. NĂŁo podem ser considerados como representantes da parte intelectual e moralmente mais elevada das nações. O escol intelectual nĂŁo exerce, hoje em dia, qualquer influĂŞncia directa na histĂłria dos povos; a sua dispersĂŁo impede que contribuam para a solução dos problemas actuais.
A Inevitabilidade das Revoluções
As revoluções nĂŁo sĂŁo factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. SĂŁo factos fatais. TĂŞm de vir. De cada vez que vĂŞm Ă© sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução sĂŁo medonhos, decerto que tudo o que Ă© vital nas sociedades, a famĂlia, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misĂ©rias que se sofrem com as opressões, com os maus regĂmens, com as tiranias, sĂŁo maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, Ă© uma coisa horrĂvel; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, Ă© pior ainda. As desgraças das revoluções sĂŁo dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos sĂŁo dolorosas infâmias.
Há indivĂduos que nascem com vocação para o governo, mas a sorte lhes reserva o posto de vigia.
Estamos a Cair na Mediocridade Governativa
Estamos a cair na mediocridade porque estamos muito subservientes aos padrões de eficácia e da racionalidade europeia. Os tempos festivos da revolução passaram. Teriam naturalmente que passar, mas aplica-se a terapĂŞutica da racionalização tecnocrática e isso mata o sonho. Devia haver outras vias. Vias apropriadas Ă quilo que somos. NĂŁo somos um PaĂs de grandes voos capitalistas. Se o quisermos ser caĂmos, inexoravelmente, nas garras do monopolismo. Portanto, devĂamos cultivar as pequenas e mĂ©dias empresas. Esta devia ser a lĂłgica da economia portuguesa. Devia dar-se grande valor Ă s pequenas e mĂ©dias empresas e realmente deixarmo-nos de ambições que nos alcem aos grandes padrões europeus.
(…) Os (partidos polĂticos tĂŞm) os mesmos defeitos e algumas qualidades em comum. Evidentemente que os partidos sĂŁo um defeito necessário, porque dividem, mas Ă© uma divisĂŁo necessária para agrupar, para reunir a ideia da democracia parlamentar que temos. Agora, o erro das pessoas Ă© adorná-los com mĂ©ritos extraordinários, porque isso faz-nos cair numa partidolatria, imprĂłpria de espĂritos livres! NĂŁo penso que a nossa classe polĂtica seja pior do que a classe polĂtica de outros paĂses. Ponhamos as coisas neste pĂ©: as minhas exigĂŞncias estĂ©ticas e Ă©ticas nĂŁo tornam muito fáceis as minhas relações com a classe polĂtica.
O bom ministro se envergonha de pertencer ao mau governo, mas continua nele.
Curiosamente, os votantes não se sentem responsáveis pelos fracassos do governo em que votaram.
Um Governo eficiente vira rapidamente um Governo ditatorial.
A força dos governos é inversamente proporcional ao peso dos impostos.
O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.
Dizem que o Governo, depois de proibir ao cidadão comum usar armas, vai proibir ao Exército possuir armas de uso exclusivo dos traficantes.
– Sir Ney, ao deixar o governo, nĂŁo deixou pedra sobre pedra, ou sĂł deixou podre sobre podre?
Eu gostava de falar mal do governo quando os jornais nĂŁo o faziam.
Todos os governos partem do pressuposto de que o escritor Ă© um presumĂvel herege.
A Doença da Disciplina
Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja — e eu não creio que a disciplina seja boa — por força que há-de ser prejudicial.
TĂŁo regrada, regular e organizada Ă© a vida social portuguesa que mais parece que somos um exĂ©rcito de que uma nação de gente com existĂŞncias individuais. Nunca o portuguĂŞs tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre Ă espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição Ă Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca Ă© completa, porque nĂŁo tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crĂtica.
Parecemo-nos muito com os alemĂŁes. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca Ă© possĂvel determinar responsabilidades; elas sĂŁo sempre da sexta pessoa num caso onde sĂł agiram cinco.