Bolsa despejada, cara amargurada.
Passagens sobre Bolsa
61 resultadosBolsa rota, dinheiro Ă solta.
Bolsa despejada, casa amargurada.
Um marido que exponha em demasia a mulher e a bolsa, expõe-se a que lhe retirem tanto uma como a outra.
Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — ‘Eu vi pĂlulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!’. Estava satisfeito, com o olho rĂştilo. Veja vocĂŞ que paspalhĂŁo!
O bom vinho arruina a bolsa e o mau estĂ´mago.
Os Comunistas
… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa famĂlia… TĂŞm a pele curtida e o coração valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os monárquicos, os aberrantes, os criminosos de vários graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o cĂŁo que ladra e que morde, vivam os astrĂłlogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarĂŁo, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que nĂŁo lavam os pĂ©s ideolĂłgicos há quinhentos anos… Vivam os piolhos das populações miseráveis, viva a força comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva AndrĂ© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo está bem… Todos sĂŁo herĂłicos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os polĂticos devem entrar em SĂŁo Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguinário Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… Há disfarces para todos… Disfarces de idealistas cristĂŁos, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, nĂŁo deixem entrar os comunistas…
Saber Estar em Sociedade
O homem que nĂŁo tem mais do que o prĂłprio valor necessita de ser excelente em grande nĂşmero de virtudes, tal como a pedra que nĂŁo Ă© preciosa necessita de ser revestida de metal; mas comummente acontece com a reputação o mesmo que com o lucro, se Ă© verdadeiro o provĂ©rbio que diz: que com leves ganhos se fazem pesadas bolsas, porque estes sĂŁo frequentes, enquanto os grandes sĂł chegam de vez em quando; assim, tambĂ©m Ă© verdade que pequenas coisas ganham grande recomendação, porque sĂŁo de uso e de observação corrente, enquanto a ocasiĂŁo de manifestar grandes virtudes sĂł Ă© dada nos dias-santos. Para adquirir boas maneiras basta apenas nĂŁo as desdenhar, porque, habituando-nos a observá-las nos outros, deixamos confiadamente operar em nĂłs a imitação; pois se cuidarmos de as exprimir, perdem logo a sua graça, a qual Ă© serem naturais e desafectadas. O comportamento de cada homem deve ser como um verso, no qual todas as sĂlabas sĂŁo medidas. Como pode um homem ocupar-se de grandes assuntos, se quebra demasiado o seu espĂrito com mesquinhas observações? NĂŁo usar completamente de cerimĂłnias Ă© ensinar aos outros que nĂŁo as usem tambĂ©m, e assim diminuir o respeito prĂłprio; especialmente, nĂŁo devem ser omitidas perante estrangeiros e pessoas desconhecidas.
Humilhações
Esta aborrece quem Ă© pobre. Eu, quase JĂł,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E enquanto vĂŁo passando as cortesĂŁs e os brilhos,
Eu analiso as peças no cartaz.Na representação dum drama de Feuillet,
Eu aguardava, junto Ă porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e vĂŁ que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupé.Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguĂŞs, me nĂŁo entendas,
Fiquei batendo os dentes de terror.Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéia
De vê-la aproximar, sentado na platéia,
De tê-la num binóculo mordaz!Eu ocultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
— Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se cá fora as ovações.Que desvanecimento!
Dona Abastança
«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.FamĂlia necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»Já se deixa ver
Que nĂŁo pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem nĂŁo tem
Fazendo mais e mais pobres.Já se deixa ver
Que nĂŁo pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.Oh engano sempre novo
De tĂŁo estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.
Mais vale saĂşde boa que pesada bolsa.
Os ladrões exigem a bolsa ou a vida. As mulheres exigem ambos.
Casa feita, bolsa desfeita.
Bolsa vazia afugenta amigos.
A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Relações
A dificuldade de estabelecer e firmar relações. Há uma tĂ©cnica para isso, conheço-a. Nunca pude meter-me nela. Ser «simpático». É realmente fácil: prestabilidade, autodomĂnio. Mas. Ser sociável exige um esforço enorme — fĂsico. Quem se habituou, já se nĂŁo cansa. Tudo se passa Ă superfĂcie do esforço. Ter «personalidade»: nĂŁo descer um milĂmetro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a importância de nĂłs sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E entĂŁo reponto. O fim. Ser prestável, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. ColĂłquios, conferĂŞncias, organizações de. Ah, ser-se um «inĂştil» (um «parasita»…). Razões profundas — um complexo duplo que vem da juventude: incompreensĂŁo do irmĂŁo corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo tĂŁo pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas «gastar» faz parte da «personalidade». SaĂşde — mais difĂcil. Este ar apeurĂ© que vem logo ao de cima. A Ăşnica defesa, obviamente, Ă© o resguardo, o isolamento, a medida.
É fácil ser «simpático», difĂcil Ă© perseverar, assumir o artifĂcio da facilidade. Conservar os amigos. «NĂŁo Ă©s capaz de dar nada»,
O marido que mostra demasiadamente a mulher e a bolsa, expõe-se a que lhe tirem tanto uma como a outra.
Economia barata, roubo de bolsa.
O homem costuma entregar a vida pela bolsa, mas entrega a bolsa pela vaidade.
Os Supermercados
Os supermercados sĂŁo os palácios dos pobres. NĂŁo sĂŁo sĂł os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gerações foram reduzindo os gastos da imaginação, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superfĂcies. As grandes superfĂcies com a sua área iluminada e sempre em festa; a concentração dos prazeres correntes, como a alimentação e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambições do quotidiano. NĂŁo há euforia mas há um sentimento de parentesco face Ă s limitações de cada um. A chuva e o calor sĂŁo poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; há uma emoção prĂłpria que paira nas naves das grandes superfĂcies. SĂŁo as catedrais da conveniĂŞncia, dĂŁo a ilusĂŁo de que o sol quando nasce Ă© para todos e que a cultura e a segurança estĂŁo ao alcance das pequenas bolsas. NĂŁo há polĂcia, há uma paz de transeunte que a cidade já nĂŁo oferece.
Os Expectantes
Entre as definições da ilha planetária em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. Uma terça parte da vida Ă© anulada numa semimorte, outra gasta em fazer mal a nĂłs mesmos e aos outros e a Ăşltima esboroa-se e consome-se na expectativa. Esperamos sempre alguma coisa ou alguĂ©m – que vem ou nĂŁo, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. Começa-se, em criança, a esperar a juventude com impaciĂŞncia quase alucinada; depois, quando adolescente, espera-se a independĂŞncia, a fortuna ou porventura apenas um emprego e uma esposa. Os filhos esperam a morte dos pais, os enfermos a cura, os soldados a passagem Ă disponibilidade, os professores as fĂ©rias, os universitários a formatura, as raparigas um marido, os velhos o fim. Quem entrar numa prisĂŁo verificará que todos os reclusos contam os dias que os separam da liberdade; numa escola, numa fábrica ou num escritĂłrio, sĂł encontrará criaturas que esperam, contando as horas, o momento da saĂda e da fuga. E em toda a parte – nos parques pĂşblicos, nos cafĂ©s, nas salas – há o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem. Exames, concursos, noivados, lotarias, seminários,