Passagens sobre Cacos

10 resultados
Frases sobre cacos, poemas sobre cacos e outras passagens sobre cacos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Minha Alma Partiu-se

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das m√£os da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensa√ß√Ķes do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

N√£o se zanguem com ela.
S√£o tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, n√£o conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois n√£o sabem por que ficou ali.

Psicologia Humana

A Santos Lostada

Por tr√°s de uns vidros d’√≥culos opacos
Muita vez um le√£o e um tigre rugem,
E como um surdo temporal estrugem
Os ódios dos covardes e dos fracos.

Partir pudesses, ó poeta, em cacos,
Vidros que ocultam almas de ferrugem,
Que espumam de ira, tenebrosas mugem,
Mugem como de dentro de uns buracos.

Que essas sombrias, d√ļbias almas foscas
Que parecem, no entanto, como moscas,
Inofensivas, babam como as lesmas.

Mas tu, em v√£o, tais vidros partirias,
Pois que no mundo, eternamente, as frias
Almas humanas ser√£o sempre as mesmas!

Avarento

Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha j√° nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e d√° com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco…
Que lhe fazia muito mal ao caco!
Diz ele ent√£o
Na força da paixão:
‚ÄĒ H√° casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele…
E at√© a mim… por ele.

Tinha raz√£o,
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem n√£o tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem n√£o deve ser;
Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim:
V√° para os matos,
J√° n√£o sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos;
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que s√£o mais baratos!

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
s√£o estes cacos, que nos cortam as m√£os, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Funchal

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos.

Muitos, chegados √† porta, voltam para tr√°s, mas n√£o assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cub√≠culo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atl√Ęntida, pequenas explos√Ķes de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trep√°ssemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansa√ßo. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, n√£o envelhecemos. Mas j√° suport√°mos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que tamb√©m de pouco ou nada serv√≠amos ( por exemplo, quando esper√°vamos na bicha para doar o sangue saud√°vel ‚Äď ele tinha prescrito uma transfus√£o). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se n√£o nos tiv√©ssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos ‚Äď mas eles n√£o nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede,

Continue lendo…

Tem horas que é caco de vidro Meses que é feito um grito Tem horas que eu nem duvido Tem dias que eu acredito.

Entro Pelo Uraguai: Vejo A Cultura

Entro pelo Uraguai: vejo a cultura
Das novas terras por engenho claro;
Mas chego ao Templo magnífico e paro
Embebido nos rasgos da pintura.

Vejo erguer-se a Rep√ļblica perjura
Sobre alicerces de um domínio avaro:
Vejo distintamente, se reparo,
De Caco usurpador a cova escura.

Famoso Alcides, ao teu braço forte
Toca vingar os cetros e os altares:
Arranca a espada, descarrega o corte.

E tu, Termindo, leva pelos ares
A grande ação já que te coube em sorte
A gloriosa parte de a cantares

Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
N√£o creio em teu gasalhado,
Mostras-me em v√£o rosto ledo;
J√° estou muito escaldado,
J√° d’√°guas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em v√£os suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

√Čs como os c√£es esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos √°vidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
P√Ķe a mira em outra parte
Que daqui n√£o tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto j√° dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

Continue lendo…

Paix√£o

‚ÄĒ Quanto dura uma paix√£o?

Uma paix√£o n√£o dura nada, apenas
a eternidade simples de um sorriso
que, por ser belo, e possuir antenas
capta constantemente o paraíso.

Uma paixão é sempre um peixe grande,
uma alegria que se torna amarga
quando se perde a noite e, na manh√£
de sol, se perde o anzol na linha larga.

Nem adianta, aí, mudar de isca,
cevar o poço e procurar no fundo:
o peixe da paixão é sombra arisca
na melhor pescaria deste mundo.

Ela n√£o dura muito e, por ser peixe,
não dura na emoção, não dura nada:
se se perde no fundo, é sempre um feixe
de luz
‚ÄĒ alguma escama nacarada,
caco de vidro, areia no sol quente
que cintila e se apaga, de repente.