Cita√ß√Ķes sobre Epit√°fio

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Frases sobre epit√°fio, poemas sobre epit√°fio e outras cita√ß√Ķes sobre epit√°fio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Memória

Tudo que sou, no imaginado
silêncio hostil que me rodeia,
é o epitáfio de um pecado
que foi gravado sobre a areia.

O mar levou toda a lembrança.
Agora sei que me detesto:
da minha vida de criança
guardo o prel√ļdio dum incesto.

O resto foi o que eu n√£o quis:
perseguição, procura, enlace,
desse retrato feito a giz
pra que n√£o mais eu me encontrasse.

Tu foste a noiva que n√£o veio,
irm√£ somente prometida!
‚ÄĒ O resto foi a quebra desse enleio.
O resto foi amor, na minha vida.

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o p√īr do Sol,
estas inven√ß√Ķes habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a √°gua. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante √ļnico.
Todos somos estrangeiros a esta Regi√£o, cujo √ļnico habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos l√°bios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epit√°fio que
nunca chega, que nunca ser√° √ļtil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

A Vida

“A Vida”
I
“…Mudar√°s, todos mudam, e os espinhos
com surpresa ver√°s por todo lado,
– s√£o assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado…

N√£o h√°s de ser o eterno namorado
com as m√£os e os l√°bios cheios de carinho,
– hoje, juntos os dois… tudo encantado!
– amanh√£, tudo triste… os dois sozinhos!…

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido ver√°s que n√£o resistes
√† inclem√™ncia do tempo √ļmido e frio!

Rolar√°s por escarpas e barrancos:
sobre o epit√°fio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!”

Mensagem РMar Português

MAR PORTUGUÊS

Possessio Maris

I. O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, j√° n√£o separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II. Horizonte

√ď mar anterior a n√≥s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da long√≠nqua costa ‚ÄĒ
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em √°rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h√° aves,

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Do Medo

1

N√£o pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma f√°bula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.

N√£o pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugn√Ęncia.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epit√°fios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a ang√ļstia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os p√°ssaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que n√£o estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema

desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de ang√ļstia
e ervas bravias ‚ÄĒ nada mais
pode fazer.

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L√° Quando Em Mim Perder A Humanidade

L√° quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que n√£o fazem falta,
Verbi-gratia Рo teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

N√£o quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarr√Ķes, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epit√°fio m√£o piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou a vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro.”

Prova Documental

J√° assumi a solid√£o dos outros
j√° provei do enigma insol√ļvel
j√° calcei as botas do morto
j√° tive segredo e foi de √°gua abaixo.

J√° fugi ao encontro marcado
j√° fui banido, j√° disse adeus
j√° fui soldado, j√° fui rapsodo
já tive inocência e foi de água abaixo.

J√° fui esperto, j√° fui afoito
já puxei faca, já toquei pífaro
j√° fui vaiado depois da briga
j√° tive saudade e foi de √°gua abaixo.

J√° fui √°rcade, j√° fui arcaico
já fui pateta, já fui patético
j√° perdi no jogo e na vida
j√° tive amor e foi de √°gua abaixo.

Já tive pressa, já sentei praça
j√° tive ouro, j√° tive prata
j√° tive lenda, j√° tive fazenda
j√° tive paz e foi de √°gua abaixo.

J√° tive herdade, j√° fui deserdado
já tive episódio, já tive epitáfio
j√° levei o andor de Nosso Senhor
já tive esperança e foi de água abaixo.

J√° tive mando, j√° corri mundo
j√° fui a Roma e n√£o quis ver o Papa
j√° fui pra cama com Ana Bolena
j√° tive inf√Ęncia e foi de √°gua abaixo.

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Viverás, que da Pena a Força Emana

Ou pra fazer-te o epit√°fio vivo,
ou vives mais e a terra me apodrece.
Tua memória a morte deste arquivo
n√£o tira, mas de mim o resto esquece.

Aqui ter√° o teu nome imortal gala,
indo eu, hei-de ficar do mundo oculto,
só pode dar-me a terra comum vala,
no olhar dos homens tu ser√°s sepulto.

Meus versos monumento te ser√£o
que h√£o-de ler e reler olhos a vir
e as línguas a haver repetirão

o que és, quando já ninguém respire.
Viverás, que da pena a força emana,
onde o sopro mais sopra, em boca humana.

No m√°rmore de tua bunda No m√°rmore de tua bunda gravei o meu epit√°fio. Agora que nos separamos, minha morte j√° n√£o me pertence. Tu a levaste contigo.

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo

Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte est√° chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa, que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos cora√ß√Ķes, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epit√°fio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratid√Ķes, matou-me Isabela.‚ÄĚ

Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou.

Epit√°fio √© uma inscri√ß√£o num t√ļmulo que mostra que as virtudes adquiridas pela morte t√™m efeito retroactivo.

Eu, como artista, se tivesse de escolher um epit√°fio, optaria pelo seguinte: – ‘Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos’.