Cita√ß√Ķes sobre Namoro

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Flerte é um namoro inofensivo, sem consequências, que não acaba nem na pretoria nem na Casa de Detenção.

Noite Fechada

L.

Lembras-te tu do s√°bado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso g√°s amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado tempo com recortes;
E os cemitérios ricos, e o cipreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto,
Mas seguíamos cheios de demoras;
N√£o me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a c√ļpula da igreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa boca viçosa de cereja
Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com √°rvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei contigo
Num p√°tio velho que era dum canteiro,

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Linhas Paralelas

Compreendemo-nos sempre incompreendidos,
como dois orgulhosos, sempre assim,
-n√£o gostava de ti… nem tu de mim…
afirm√°vamos ambos convencidos…

Isso dava-se outrora, em tempos idos,
antes do nosso amor chegar ao fim…
-hoje, depois de tanto orgulho, enfim,
nem somos vencedores nem vencidos…

Foi pouco tempo de namoro o nosso,
-n√£o me esqueces no entanto totalmente,
como de todo te esquecer n√£o posso…

Linhas iguais… Nascemos como um par
que, em paralelas, orgulhosamente
h√° de seguir sem nunca se encontrar!…

O Amor Certo

Penso em tudo o que os homens sentem pelas mulheres que amam e tento dizer o que nos une nesse amor. Fora dos pormenores e das particularidades. Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha m√£e, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteir√£o portugu√™s): ¬ęSe soubesses quanto eu te amava, destru√≠as-me j√°.¬Ľ E disse a verdade. Era tanto o amor e o ci√ļme que lhe tinha, que fez mal √† mulher que amava, minha m√£e, e mal ao homem que a amava: ele pr√≥prio, meu pai.

O amor é um castigo: é um desespero: é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E n√£o me custa. √Č um acto de ego√≠smo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti pr√≥pria que n√£o te importasses de ficar comigo,

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O Procurador do Amor

Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atr√°s da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(n√£o sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite
As mulheres v√£o para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Usos Deste Mundo

Nas praças uns perguntam novidades;
Outros dão volta às ruas, ao namoro;
Este usuras cobrar, esse as demandas
Lembrar corre ao Juiz que se diverte.
Ir de Jano aprender a ser bifronte,
De Merc√ļrio, no trato, a ser bilingue,
Franco no prometer, no dar escasso.
C’os olhos fitos no √°vido interesse
Ser consigo leal, com todos falso
√Č ser homem capaz, home’ entendido.
Assim, que vemos nós por este esconso
Mundo? Vemos logr√Ķes, vemos logrados;
Ningu√©m v√™s ir com c√Ęndido desejo
Aos Sénecas, aos Sócrates de agora
Perguntar as li√ß√Ķes t√£o necess√°rias
De ser honrado, ser com todos justo.
Tão sobejos se crêem de honra e virtude,
Que cuida cada um poder de sobra
Mostrar na Ocasi√£o virtude a rodo,
E chega a Ocasi√£o, falha a virtude.

O Prazer Puro do Amor para uma Rapariga Honesta

O que, subconscientemente, na rapariga honesta torna agrad√°vel o namoro, √© nitidamente distrin√ß√°vel. Um acto agrad√°vel √© agrad√°vel n√£o s√≥ no acto mas na antecipa√ß√£o dele; e, ausentes certos elementos psicol√≥gicos n√£o orientadores desse acto, em geral, na antecipa√ß√£o ainda n√£o imediata, porque na antecipa√ß√£o para da√≠ a pouco a √Ęnsia de chegar a ele, amorna (ou, perturba) um tanto o […] da esperan√ßa. ‚ÄĒ Ora o ¬ęflirt¬Ľ, o namoro, n√£o √© sen√£o, analisada sem escr√ļpulo a sua ess√™ncia √≠ntima, uma antecipa√ß√£o da possibilidade de uma c√≥pula. Repare-se que n√£o √© a antecipa√ß√£o de uma c√≥pula, o que, por mais directo, √© mais perturbante. O que se chama o prazer puro do amor (no que √© namoro ou ¬ęflirt¬Ľ) n√£o √© sen√£o um prazer muito grande porque isento (e nesse sentido puro) do elemento perturbante do directo desejo, ou imediata esperan√ßa, do coito.

Depois do Casamento

Tenho a certeza. Uma pessoa casa sem saber bem o que faz, a juventude, as ilus√Ķes, porque durante o namoro as pessoas s√≥ mostram o que t√™m de melhor, s√≥ a parte boa, e √†s vezes at√© fingem essa parte, com muita manha. S√≥ depois do casamento ficamos a conhecer realmente o outro. Mas isso at√© o sabem as velhas, que nos dizem que as coisas foram sempre assim e que n√≥s, raparigas novas, n√£o fazemos caso delas, ficamos cegas de amor e n√£o queremos ouvir a voz da experi√™ncia, pois somos tolas ao ponto de pensar que nunca ningu√©m se apaixonou como n√≥s, como se tiv√©ssemos sido n√≥s a inventar o amor.