Poemas sobre Fumo

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Poemas de fumo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Eterna Ausência

Eu aguardei com l√°grimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio nocturno
que me trazia aquela com l√°bios evidentes
e possuindo um perfil indubit√°vel,
mulher com dedos religiosos
e bra√ßos espirituais…

Aquela mulher-pir√Ęmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que n√£o veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu cora√ß√£o de carne e alguma cinza…

Amante que ficou n√£o sei aonde
a castigar meus dias invol√ļveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!…

Os Arlequins – S√°tira

Musa, dep√Ķe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga!

Como aos olhos de Roma,
‚ÄĒ Cad√°ver do que foi, p√°vido imp√©rio
De Caio e de Tib√©rio, ‚ÄĒ
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu n√£o te abrias,
√ď c√©u de Roma, √† cena degradante!
E tu, tu não caías,
√ď raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
N√£o busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
N√£o encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro,

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Ausência

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
– pastores das asc√©ticas planuras ‚Äď
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
РQue é dele, o eterno Ausente,
– Cantor da nossa melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
– Onde estou? Onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

– Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clar√Ķes no meu jardim?

РPastores, que é do vosso companheiro?

– Saudades minhas, que sabeis de mim?

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
N√£o do lobo mas irm√£o
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que n√£o negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Ser√° que existe
L√° para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

Iniciação ao Diálogo

I

De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos s√£o mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.

II

O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, h√£o-de gast√°-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum p√°ssaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma r√©stia de azul ‚ÄĒ o azul de todos.

III

Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus des√≠gnios…
N√£o por√°s terra onde se p√īs o c√©u:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.

IV

Provando fr√°gil o que acreditavas
inexpugn√°vel, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!

V

Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens,

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Encostei-me

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento n√£o ter responsabilidades nenhumas,
De n√£o ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imagina√ß√£o, sem d√ļvida um pouco sono,
Irrequieto t√£o sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e n√£o sabia √°lgebra,
Nem as outras √°lgebras com x e y’s de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem import√Ęncia nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros an√°logos ‚ÄĒ
Aqueles momentos em que n√£o tive import√Ęncia nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solid√£o,

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Dispers√£o

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
√Č com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na √Ęnsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
√Č bem-estar, √© singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas √Ęnsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho,

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Quimeras

H√° na minha vida quimeras distantes,
Quais nuvens errantes, em dias atrozes.
Eu corro atr√°s delas, mas elas, por fim,
Perdem-se de mim, no horizonte, velozes.

H√° no meu di√°rio silenciosas dores,
Quais flores que o vento desfaz de manh√£.
Com elas me embalo nos dias soturnos,
Dir-se-iam ¬ęNocturnos¬Ľ, como os de Chopin.

Há no meu caminho nem sei bem o quê.
Alguém que me vê e que eu não visiono.
S√£o meus dias passados, meus dias de inf√Ęncia,
Sabendo √† fragr√Ęncia das tardes de Outono.

Saudades, saudades, sentido da vida,
Um dia vivida e que n√£o volta mais.
Meus dias passados, sobre eles me debruço,
No eterno soluço das coisas mortais.

Há na minha vida um viver fictício,
Fogo de artifício, esplendente e altivo.
Eu vejo-o enlevado, um instante fugaz,
Depois se desfaz na noite em que eu vivo.

H√° na minha vida ignotas tristezas,
Pequenas certezas a que me apeguei.
Com elas eu vivo, com elas eu morro,
Para meu socorro é que eu as criei.

Quimeras, quimeras,

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Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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Um outro Poema de Amor

No fundo, as rela√ß√Ķes entre mim e ti
cabem na palma da m√£o:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno p√°ssaro,
ou um simples segredo
que guard√°vamos para a noite.

Assim a Casa Seja

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Voltaste, j√° voltaste
J√° entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Ent√£o que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada
Voltaste, j√° voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Ent√£o que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Amor, o que ser√°
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

J√° fuma o nosso fumo
J√° sobra a nossa manta
J√° veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta.

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A √°rvore do Outono
Coberta de cereja.

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Ar Livre

Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia…
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
– a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!

passagem dos elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na √°rvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na √°gua
optimistas na √°gua elefantes na √°rvore

O Amor Eterno

E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde ir√° chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impress√£o
h√ļmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da √°gua
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
l√°grimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia – e como
se n√£o soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as in√ļteis
promessas de eternidade.

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Minha M√£e que n√£o Tenho

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho¬†¬†¬† de carinho¬†¬†¬† de dist√Ęncia
água memória viva do retrato
que √†s vezes mata a sede da inf√Ęncia.

Ai √°gua que n√£o bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai t√£o distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha raz√£o de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da f√ļria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que n√£o entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

Partida

Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas √°guas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
N√£o h√° muitos que a saibam reflectir.

A minh’alma nost√°lgica de al√©m,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a f√īr√ßa de sumir tamb√©m.

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que s√£o para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul √° busca da beleza.

√Č subir, √© subir √†lem dos c√©us
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados resar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

√Č partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.

√Č suscitar c√īres endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-un√ß√£o d’alma ampliada,

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Eu Digo do Amor n√£o Mais que a Sombra

Eu digo do amor n√£o mais que a sombra.
Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz
aos dedos que tremem só de aflorar
o que da carne é já incorruptível saber
e crispação sem causa natural.
S√£o nossas inimigas as cortinas
amplas do ver√£o, os fumos e vapores
que esta terra nos devolve, a fria
repercussão do espírito que treme
sobre um tão ausente e despossuído mundo.
Disse-te que voltasses devagar os teus olhos
para o mecanismo simples da eros√£o.
Eu parti h√° muito e neste quarto
apenas aguardo o rel√Ęmpago surdo do teu corpo,
a contenção muda e não menos esplendorosa
da carne recordada e pressentida.
No entanto, deix√°mos escurecer
excessivamente o mundo. Ele acolhe-se
a nós, com terror e evidência,
e nós, em verdade, que podemos dizer?
Eu digo do amor n√£o mais que a sombra,
mas o teu rosto e a luz nada pode conter.

Desafogo

Onde estás, oh Filósofo indefesso
Pio sequaz da rígida Virtude,
T√£o terna a alheios, quanto a si severa?
Com que m√°goa, com que ira olharas hoje
Desprezada dos homens, e esquecida
Aquela √Ęnsia, que em n√≥s pousou Natura
No √Ęmago do peito, ‚ÄĒ de acudir-nos
Co’as for√ßas, c’o talento, co’as riquezas
À pena, ao desamparo do homem justo!
Que (baldão da fortuna iníqua) os Deuses
Puseram para símbolo do esforço,
Lutando a bra√ßos c’o √°spero infort√ļnio?
Pedra de toque em que luzisse o ouro
De sua alma viril, onde encravassem
Seus farp√Ķes mais agudos as Desgra√ßas,
E os peitos de virtude generosa
Desferissem poderes de árduo auxílio?
Que nunca os homens s√£o mais sobre-humanos
Mais comparados c’os sublimes Numes,
Que quando acodem com socorro activo,
Não manchado de sórdido interesse,
Nem do fumo de frívola ufania;
Ou cheios de valor e de const√Ęncia
Arrostam co’a medonha catadura
Da Desgraça, que apura iradas mágoas
Na casa nua do var√£o honesto.
Mas Grécia e Roma há muito que acabaram;
E as cinzas dos Heróis fortes e humanos,

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l√Ęmpada votiva

1. teve longa agonia a minha m√£e

teve longa agonia a minha m√£e:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém

podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro

sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da inf√Ęncia e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres fei√ß√Ķes desfiguradas.

quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em l√°grimas murmura.

2. e n√£o queria ser vista e foi envolta

e n√£o queria ser vista e foi envolta
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta

e foi à desfilada. De repente,
a minha m√£e j√° n√£o estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se est√° doente

algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte,

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Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de ang√ļstia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carv√£o, a sangue, a giz,
S√°tiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
– Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. √Ęnsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou t√£o humano!

Senhor meu Deus em que n√£o creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

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