Citação de

LĂșbrica

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, Ă s vezes, sorvĂȘ-la, em grandes beijos,
Da luxĂșria febril na chama intensa…
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitå-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da Ásia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os mĂșsculos hercĂșleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delĂ­rio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,
Como os Ă©brios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predileto
No ambiente espalhava pouco antes…
Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocĂȘncia em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um sĂł beijo a face pura;
Que hĂĄ de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçå-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;
Quero admirĂĄ-la, entĂŁo, tranqĂŒilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruĂ­do os afugente;
Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,

Da luxĂșria febril na chama intensa…
Mas nĂŁo posso contar: nada hĂĄ que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde Ă  sombra vaga,
Passeando sozinha na alameda…