Passagens sobre Fumo

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Frases sobre fumo, poemas sobre fumo e outras passagens sobre fumo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Se a nossa vida fosse um eterno estar-√†-janela, se assim fic√°ssemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crep√ļsculo dolorindo a curva dos montes.

Iniciação ao Diálogo

I

De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos s√£o mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.

II

O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, h√£o-de gast√°-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum p√°ssaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma r√©stia de azul ‚ÄĒ o azul de todos.

III

Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus des√≠gnios…
N√£o por√°s terra onde se p√īs o c√©u:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.

IV

Provando fr√°gil o que acreditavas
inexpugn√°vel, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!

V

Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens,

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Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar

Todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. √Č com impress√Ķes flu√≠das que formamos as nossas maci√ßas conclus√Ķes. Para julgar em Pol√≠tica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manh√£ de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou‚ÄĒapenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que soberana facilidade declaramos‚ÄĒ¬ęEste √© uma besta! Aquele √© um maroto!¬Ľ Para proclamar‚ÄĒ¬ę√Č um g√©nio!¬Ľ ou ¬ę√Č um santo!¬Ľ of erecemos uma resist√™ncia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digest√£o ou a macia luz dum c√©u de Maio nos inclinam √† benevol√™ncia, tamb√©m concedemos bizarramente, e s√≥ com lan√ßar um olhar distra√≠do sobre o eleito, a coroa ou a aur√©ola, e a√≠ empurramos para a popularidade um magan√£o enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar r√≥tulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. N√£o h√° ac√ß√£o individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que n√£o estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opini√£o bojuda E a opini√£o tem sempre,

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Encostei-me

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento n√£o ter responsabilidades nenhumas,
De n√£o ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imagina√ß√£o, sem d√ļvida um pouco sono,
Irrequieto t√£o sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e n√£o sabia √°lgebra,
Nem as outras √°lgebras com x e y’s de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem import√Ęncia nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros an√°logos ‚ÄĒ
Aqueles momentos em que n√£o tive import√Ęncia nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solid√£o,

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Dispers√£o

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
√Č com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na √Ęnsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
√Č bem-estar, √© singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas √Ęnsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho,

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Quimeras

H√° na minha vida quimeras distantes,
Quais nuvens errantes, em dias atrozes.
Eu corro atr√°s delas, mas elas, por fim,
Perdem-se de mim, no horizonte, velozes.

H√° no meu di√°rio silenciosas dores,
Quais flores que o vento desfaz de manh√£.
Com elas me embalo nos dias soturnos,
Dir-se-iam ¬ęNocturnos¬Ľ, como os de Chopin.

Há no meu caminho nem sei bem o quê.
Alguém que me vê e que eu não visiono.
S√£o meus dias passados, meus dias de inf√Ęncia,
Sabendo √† fragr√Ęncia das tardes de Outono.

Saudades, saudades, sentido da vida,
Um dia vivida e que n√£o volta mais.
Meus dias passados, sobre eles me debruço,
No eterno soluço das coisas mortais.

Há na minha vida um viver fictício,
Fogo de artifício, esplendente e altivo.
Eu vejo-o enlevado, um instante fugaz,
Depois se desfaz na noite em que eu vivo.

H√° na minha vida ignotas tristezas,
Pequenas certezas a que me apeguei.
Com elas eu vivo, com elas eu morro,
Para meu socorro é que eu as criei.

Quimeras, quimeras,

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A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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A Noite Desce

Como p√°lpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces m√£os piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim m√£os de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crep√ļsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lil√°s,
A noite p√Ķe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

A Brevidade da Vida

MANIFESTA-SE A PR√ďPRIA BREVIDADE DA VIDA, SEM PENSAR E COM PADECER, ASSALTADA PELA MORTE

Foi sonho ontem: ser√° amanh√£ terra;
pouco antes, nada; pouco depois, fumo;
e destino ambi√ß√Ķes, at√© presumo
nem um momento o cerco que me encerra.

Breve combate de importuna guerra,
p’ra defender-me, sou perigo sumo;
quando com minhas armas me consumo,
menos me hospeda o corpo, que me enterra.

Foi-se o ontem; amanhã é esperado;
hoie passa, e é, e foi com movimento
que me conduz à morte despenhado.

Enxadas s√£o a hora e o momento;
pagas por minha pena e meu cuidado,
cavam em meu viver meu monumento.

Tradução de José Bento

De todas as ilus√Ķes que cultiv√°mos na vida, a mais agrad√°vel √© a esperan√ßa de que se ocupem de n√≥s depois de n√£o existirmos. Este fumo de gl√≥ria n√£o √© desarrazoado, e pode mover-nos a praticar grandes coisas.

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

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Um outro Poema de Amor

No fundo, as rela√ß√Ķes entre mim e ti
cabem na palma da m√£o:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno p√°ssaro,
ou um simples segredo
que guard√°vamos para a noite.

Assim a Casa Seja

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Voltaste, j√° voltaste
J√° entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Ent√£o que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada
Voltaste, j√° voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Ent√£o que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Amor, o que ser√°
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

J√° fuma o nosso fumo
J√° sobra a nossa manta
J√° veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta.

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A √°rvore do Outono
Coberta de cereja.

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Ar Livre

Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia…
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
– a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!

Quem?

N√£o sei quem √©s. J√° n√£o te vejo bem…
E ou√ßo-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

N√©voa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– N√£o sei se tu, amor, assim me v√™s!…
Nossos olhos n√£o s√£o nossos, talvez…
Assim, tu n√£o √©s tu! N√£o √©s ningu√©m!…

√Čs tudo e n√£o √©s nada… √Čs a desgra√ßa…
√Čs quem nem sequer vejo; √©s um que passa…
√Čs sorriso de Deus que n√£o mere√ßo…

√Čs aquele que vive e que morreu…
√Čs aquele que √© quase um outro eu…
√Čs aquele que nem sequer conhe√ßo…

passagem dos elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na √°rvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na √°gua
optimistas na √°gua elefantes na √°rvore

O Amor Eterno

E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde ir√° chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impress√£o
h√ļmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da √°gua
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
l√°grimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia – e como
se n√£o soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as in√ļteis
promessas de eternidade.

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Minha M√£e que n√£o Tenho

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho¬†¬†¬† de carinho¬†¬†¬† de dist√Ęncia
água memória viva do retrato
que √†s vezes mata a sede da inf√Ęncia.

Ai √°gua que n√£o bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai t√£o distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha raz√£o de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da f√ļria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que n√£o entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.