Cita√ß√Ķes sobre Gula

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Frases sobre gula, poemas sobre gula e outras cita√ß√Ķes sobre gula para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A gula é um vício que nunca acaba, e é aquele vício que cresce sempre, quanto mais o homem envelhece.

Narcisimo Passado e Futuro

Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do eu e, juntamente, a sua metamorfose Рpretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo.
O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo – com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando est√° s√≥ com o seu eu, experimenta um t√©dio, uma repulsa, uma repugn√Ęncia, que em regra se transformam em desejo de transforma√ß√£o. Nem todos s√£o capazes de se contemplar sem adula√ß√£o at√© √†s √ļltimas ra√≠zes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua mis√©ria, mas quase todos t√™m a sua sensa√ß√£o e, com frequ√™ncia, a certeza – o t√©dio de si pode notar-se mesmo sem as formas do ju√≠zo. E os outros instintos – soberba, gula do mais e do novo – ajudam a desejar a mudan√ßa. Existe com frequ√™ncia em n√≥s o narcisismo, mas o espelho √© sempre colocado no passado e no futuro – no presente, nunca.

A verdadeira felicidade √© imposs√≠vel sem verdadeira sa√ļde, e a verdadeira sa√ļde √© imposs√≠vel sem um rigoroso controle da gula.

Vítima Do Dualismo

Ser miser√°vel dentre os miser√°veis
РCarrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconcili√°veis
E as mais opostas idiosincrasias!

Muito mais cedo do que o imagin√°veis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psiqu√™ biforme, o C√©u e o Inferno absorvo…
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais vari√°veis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos!

A luta pelo dinheiro é santa Рporque é, no fundo, a luta pela liberdade: mas até uma certa soma. Passada ela Рé a tristonha e baixa gula do ouro.

As Verdadeiras Necessidades não Têm Gostos

Nenhum conselho me parece mais √ļtil para te dar do que este (e que nunca √© demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir v√≠cios com desejos. Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te √© servida a refei√ß√£o, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza s√≥ necessita de uma coisa: a comida. (…) A fome dispensa pretens√Ķes, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com qu√™. O triste prazer da gula vive atormentado na √Ęnsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e n√£o apenas encher o est√īmago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo √† primeira golada! Tem, por isso toda a raz√£o Hor√°cio quando diz que a sede n√£o se interessa pela esp√©cie de copo ou pela eleg√Ęncia da m√£o que o serve.
Se achas que t√™m para ti muita import√Ęncia os cabelos encaracolados do escravo, ou a transpar√™ncia do copo que te p√Ķe √† frente, √© porque n√£o est√°s com sede. Entre outros benef√≠cios que devemos √† natureza conta-se este,

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O Mundo Só se Dá para os Simples

Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo e a fome com que nasci pelo leite ‚ÄĒ esta fome quis se estender pelo mundo e o mundo n√£o se queria com√≠vel. Ele se queria com√≠vel sim ‚ÄĒ mas para isso exigia que eu fosse com√™-lo com a humildade com que ele se dava. Mas fome violenta √© exigente e orgulhosa. E quando se vai com orgulho e exig√™ncia o mundo se transmuta em duro aos dentes e √† alma. O mundo s√≥ se d√° para os simples e eu fui com√™-lo com o meu poder e j√° com esta c√≥lera que hoje me resume. E quando o p√£o se virou em pedra e ouro aos meus dentes eu fingi por orgulho que n√£o do√≠a eu pensava que fingir for√ßa era o caminho nobre de um homem e o caminho da pr√≥pria for√ßa. Eu pensava que a for√ßa √© o material de que o mundo √© feito e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso j√° n√£o era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver ‚ÄĒ e eu pensava que esta sim,

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L√ļbrica

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da lux√ļria febril na chama intensa…
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da √Āsia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os m√ļsculos herc√ļleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,

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Profecia

Nem me disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade,
se filho amado ou rejeitado.
Mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
‚ÄĒ e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue…
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto,
sempre,
que n√£o posso recuar.

Hei-de ir contigo
bebendo fel, sorvendo pragas,
ultrajado e temido,
abandonado aos corvos,
com o pus dos bolores
e o fogo das lavas.
Hei-de assustar os rebanhos dos montes
ser bandoleiro de estradas.
‚ÄĒ Negro fado, feia sina,
mas n√£o sei trocar a minha sorte!

N√£o venham dizer-me
com frases adocicadas
(não venham que os não oiço)
que levo caminho errado,
que tenho os caminhos cerrados
à minha febre!
Hei-de gritar,
cair, sofrer
‚ÄĒ eu sei.
Mas n√£o quero ter outra lei,
outro fado, outro viver.
N√£o importa l√° chegar…

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A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s√©culo XV representavam a Lux√ļria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem √† gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E √© por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Pol√≠ticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravag√Ęncia est√©tica, e os S√°bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g√©neros, surge a horda ululante dos charlat√£es… (Como me vim tornando altiloquente e roncante!…) Mas e a verdade, meu Bento! V√™ quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O pr√≥prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam. At√© o velho instinto da conserva√ß√£o cede ao novo instinto da notoriedade – e existe tal magan√£o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund√Ęncia das coroas, dos coches e dos prantos orat√≥rios, lambe os bei√ßos, pensativo, e deseja ser o morto.

A Lei do Mais Forte

Durante muito tempo dissemos que a competi√ß√£o e a elimina√ß√£o dos mais fracos eram o motor da evolu√ß√£o natural. Sem querer, demos cr√©dito √† chamada lei do mais forte. Sancionamos o pecado da ira dos poderosos no exterm√≠nio dos chamados fracos. Sabemos hoje que a simbiose √© um dos mecanismos mais poderosos de evolu√ß√£o. Mas deix√°mos que isso ficasse no esquecimento. E continuamos ainda hoje vasculhando exemplos isolados de simbiose quando a Vida √© toda ela um processo de simbiose global. Sabemos hoje que a capacidade de criar diversidade foi o mais importante segredo da nossa √©poca como esp√©cie que se adaptou e sobreviveu. No entanto, vamo-nos contentando com o estatuto que a n√≥s mesmos conferimos: o sermos a esp√©cie ¬ęsabedora¬Ľ.

Alimentámo-nos de receios e essa será mais uma manifestação da gula. Temos medo de errar. Esse medo leva à proibição de experimentar outros caminhos, sufocados pelo cientificamente correcto, pelo estatisticamente provado, pelo laboratorialmente certificado. Deveríamos ser nós, biólogos, a mostrar que o erro é um dos principais motores da evolução. A mutação é um erro criativo que funciona, um erro que fabrica a diversidade.
Os avanços no domínio do conhecimento fazem-se através de caminhos paradoxais. A nossa ciência,

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