Passagens sobre Bosque

81 resultados
Frases sobre bosque, poemas sobre bosque e outras passagens sobre bosque para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crep√ļsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca √ļmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, l√≠mpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
– Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…

L√ļbrica

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da lux√ļria febril na chama intensa…
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da √Āsia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os m√ļsculos herc√ļleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,

Continue lendo…

Procuro-te

Procuro a ternura s√ļbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um p√°ssaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da √°gua entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou m√ļsica.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o p√£o e a √°gua,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manh√£ de maio.

Um p√°ssaro e um navio s√£o a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas n√£o quando se ama,
n√£o quando apertamos contra o peito
uma flor √°vida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solid√£o,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Continue lendo…

√Č Noite, M√£e

As folhas já começam a cobrir
o bosque, m√£e, do teu outono puro…
S√£o tantas as palavras deste amor
que presas os meus l√°bios retiveram
pra colocar na tua face, m√£e!…

Continuamente o bosque se define
em lividez de p√Ęntanos agora,
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No ch√£o do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca,
em cada latejar do vento pelos ramos,
procura, seca, o teu perd√£o imenso…

√Č noite, m√£e: aguardo, olhos fechados,
que uma qualquer manh√£ me ressuscite!…

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

Continue lendo…

Onde acharei lugar t√£o apartado

Onde acharei lugar t√£o apartado
E t√£o isento em tudo da ventura,
Que, n√£o digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solit√°ria, triste e escura,
Sem fonte clara ou pl√°cida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me far√£o contente.

A Voz que Nos Rasgou por Dentro

De onde vem – a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui ‚ÄĒ aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e n√£o a
ouvimos, como se n√£o nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde est√°? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela m√£o o fio
obscuro do horizonte.

Diz: “N√£o chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro h√ļmido dos versos.”

Como se a ouvíssemos.

O que √Č Perfeito n√£o Precisa de Nada

Sim, talvez tenham raz√£o.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na √°rvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das √°rvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes d√° a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
√Č um j√° dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes ser√£o os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que n√£o morrem porque s√£o iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem s√£o e quem s√£o,

Continue lendo…

Aonde, Amor Cruel, aonde me Guias?

Aonde, amor cruel, aonde me guias?
S√£o estes os teus bosques consagrados
Onde só vejo peitos lacerados,
Cora√ß√Ķes em extremas agonias?

Só respondem as duras penedias
A míseros gemidos em vão dados;
Olhos formosos, rostos delicados
S√£o ministros das tuas tiranias.

Já me rasgam o peito em mil pedaços:
Marcia me disparou acerbos tiros,
L√° vai fugindo com velozes passos.

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,
Deixa cruel, ao menos, que em teus braços
Amintas lance os √ļltimos suspiros.

A Cidade Bela

Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Qu√£o denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a esp√°dua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A l√ļcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cer√ļleas ondas.

A Graça

Que harmonia suave
√Č esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
N√£o sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

√Čs tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solid√£o do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: ¬ęAcorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.¬Ľ
√Čs tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e p√ļrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
√Čs tu, √©s tu!, que ao p√īr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus,

Continue lendo…

Vibra o Passado em Tudo o que Palpita

Vibra o passado em tudo o que palpita
qual dança em coração de bailarino
ao regressar j√° mudo o violino
e h√° nuvens sobre o bosque em que transita

À paz dos seres a morte em seu contínuo
crescer em ramos de coral incita
a bem da noite negra e infinita
ser um raro instrumento é seu destino:

O ceptro dos eleitos que n√£o cansam
o corpo que este tempo j√° n√£o quebra
é como a cruz que os astros quando avançam

sobre o sul traçam por medida e regra
Os deuses têm-no em suas mãos cativo
risível é quem eles mandam vivo.

Tradução de Vasco Graça Moura

Eu e Tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispens√°vel! Como
Brasa e carv√£o, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, ‚ÄĒ em cada assomo
A nossa aspira√ß√£o mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho
[e a selva
‚ÄĒ O vento erguendo a vaga, o luar doirando a
[noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva ‚ÄĒ
Cheio de ti, meu ser de efl√ļvios impregnou-te!

Como o lil√°s e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
‚ÄĒ N√≥s dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os cora√ß√Ķes no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…

Os Hiperbóreos

Cabeça erguida, o céu no olhar, que o céu procura,
Baixa o humano caudal, dos desertos de gelo…
Em farrapos, ao sol, derrete-se a brancura
Da neve boreal sobre o ouro do cabelo.

Ulula, e desce; e tudo invade: a atra espessura
Dos bosques entra, a urrar e a uivar. E, uivando, pelo
Continente, a descer, ganha a √ļmida planura,
E a brenha secular, em sonoro atropelo.

Assustam-se os chacais pelas selvas serenas.
A turba ulula, o druida canta, enchendo os ares.
Entre os uivos dos c√£es e o grunhido das renas…

Escutando o tropel, rincha o poldro, e galopa.
Derrama-se, a rugir, das geleiras polares,
A semente feraz dos B√°rbaros, na Europa…

Fui para os Bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o Tutano da Vida. Para aniquilar tudo o que n√£o era vida e para quando morrer, n√£o Descobrir que n√£o vivi.

Manh√£

Alta alvorada. — Os √ļltimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clar√Ķes primeiros.

Da passarada os v√īos condoreiros,
Os cantos e o ar que as √°rvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contr√°rios e altaneiros.

Vozes, trinados, vibra√ß√Ķes, rumores
Crescem, v√£o se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

E como um rei num gale√£o do Oriente
O sol p√Ķe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

Metan√°utica

Deixa-te ser vi√°vel como um bosque
ou jardim ou pomar por onde possa
ir passando a pessoa pela sombra
ou pela flor ou pelo fruto ou pela
singular vocação ambulatória:
deixa-te ser vi√°vel como um rio
ou lago ou mar por onde possa ir
passando o navegante ou nadador
pelo af√£ de chegar ou pelo puro
sentir-se em ti flutuante ou imerso:
deixa-te ser vi√°vel como um ar
por onde possa ir passando a asa
que como tal se procure ou encontre
firme ou fr√°gil… Mas bosque ou jardim ou
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar,
deixa em ti leccionar-se o transeunte
que viver s√£o inst√Ęncias de passar.

J√° Sobre o Coche de √Čbano Estrelado

Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que est√° mih’alma presa
√Ä vil mat√©ria l√Ęnguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar t√£o alongadas
com t√£o prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me d√°s todos os dias