Poemas sobre Glória

60 resultados
Poemas de glória escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Seleccionei para Ti

Seleccionei para ti
esta manh√£ de setembro
à margem dela
trabalho
para que
em canto e glória
sejas o centro unit√°rio
no corpo dessa elegia
relacionei coisas mi√ļdas
que possam complementar
o equilíbrio das formas
que te transitam eleita
na exaltação de meu sonho
e dentro desse equilíbrio
um n√ļcleo de resist√™ncia
feito uma flor
uma fonte
que se iluminam feridas
de uma incidência de luz
o pouso breve de um p√°ssaro
que em vigil√Ęncia
nos olhos
preserva o voo completo
a m√ļsica radical
do teu contexto moreno
a fala que n√£o se escuta
na fundação dos abraços
evocação do momento
que defrontou
por acaso
a minha
e a tua vida
erguido o painel de espaço
és madrugada no dia
e retomada no tempo
és unidade centrada
compondo a mesma harmonia
assim usei tua ausência
num pressuposto de esquema
buscando tua presença
sobre alicerces de um poema

Fé

As ora√ß√Ķes dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os c√Ęnticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira b√ļssola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que h√° de abrir √† est√Ęncia eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo d√° e o mesmo tempo some,
Despida j√°, ‚ÄĒ os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos l√°bios,
No cora√ß√£o, na mente p√Ķe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

√Č Brando o Dia, Brando o Vento

√Č brando o dia, brando o vento
√Č brando o sol e brando o c√©u.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Interv√™m sonhos e mem√≥rias…
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
H√° porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Gazetilha

Dos LLOYD GEORGES da Babil√īnia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer col√īnia
Grega ou romana j√° passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um ge√īmetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que est√° l√° para tr√°s no escuro
E nem a história já historia.

√ď grandes homens do Momento!
√ď grandes gl√≥rias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

Romance

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado j√° que chegasses:
Vinha teu vulto t√£o belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era t√£o c√°lido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste ent√£o fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
T√£o celeste foi a Festa,
T√£o fino o Anjo, e a Besta
Onde montei t√£o serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena ‚ÄĒ

N√£o morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

√öltima Folha

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A √ļltima harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as vira√ß√Ķes perdidas,
Deixa cair ao ch√£o as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
N√£o quebra os raios p√°lidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortu√°rio;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sud√°rio.

Desce. Vir√° um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingênua fronte
Das flores da manh√£, ‚ÄĒ e ao monte agreste,
Como a noiva fant√°stica dos ermos,
Ir√°s, musa celeste!

Ent√£o, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, j√° finda a tormenta
Que a natureza enlutou,

Continue lendo…

Mensagem РMar Português

MAR PORTUGUÊS

Possessio Maris

I. O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, j√° n√£o separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II. Horizonte

√ď mar anterior a n√≥s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da long√≠nqua costa ‚ÄĒ
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em √°rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h√° aves,

Continue lendo…

A Mulher Inspiradora

Mulher, não és só obra de Deus;
os homens v√£o-te criando eternamente
com a formosura dos seus cora√ß√Ķes,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude.

Por ti o poeta vai tecendo
a sua imagin√°ria tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade.

Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Ver√£o.

Mulher, és meio mulher,
meio sonho.

Tradu√ß√£o de Manuel Sim√Ķes

Portugal

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa p√°tria… E que p√°tria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abund√Ęncia, amor, conc√≥rdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
P√°tria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torre√£o de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, basti√Ķes, barbac√£s, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor,

Continue lendo…

Marília de Dirceu

(excerto)

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de express√Ķes grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
d√°-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas l√£s, de que me visto.
Graças, Marília bela, graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda n√£o est√° cortado;
os pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste,
nem canto letra que n√£o seja minha.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
E bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.

Continue lendo…

Tirem-me os Deuses o Amor, Glória e Riqueza

Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consci√™ncia l√ļcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória,
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objetos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
S√£o todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
√Č a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objetos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E in√ļtil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.

As Balas

D√° o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
D√° a cama e a mesa o verde pinho
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama d√° calor
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos cora√ß√Ķes d√° amor renascido
As balas d√£o o sangue derramado

D√° o Sol as searas pelo Ver√£o
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno d√° o p√£o
As balas d√£o o sangue derramado

D√° cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
D√° a conquista um puro sentimento
As balas d√£o o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
D√° sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

Continue lendo…

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

Continue lendo…

Gratid√£o

A minha gratid√£o te d√° meus versos:
Meus versos, da lisonja n√£o tocados,
Satélites de Amor, Amor seguindo
Co’as asas que lhes p√īs benigna Fama,
Qual níveo bando de inocentes pombas,
Os lares vão saudar, propícios lares,
Que em doce recepção me contiveram
Incertos passos da Indigência errante;
Dos olhos v√£o ser lidos, que apiedara
A cat√°strofe acerba de meus dias,
Dos infort√ļnios meus o quadro triste;
V√£o pousar-te nas m√£os, nas m√£os que foram
T√£o dadivosas para o vate opresso,
Que o peso dos grilh√Ķes me aligeiraram,
Que sobre espinhos me esparziram flores,
Enquanto n√£o recentes, v√£os amigos,
In√ļteis cora√ß√Ķes, vol√ļvel turba
(A versos mais atenta que a suspiros)
No Letes mergulhou memórias minhas.
Amigos da Ventura e n√£o de Elmano,
Aónio serviçal de vós me vinga;
Ao nome da Virtude o Vício core.

Não sei se vens de heróis, se vens de grandes;
N√£o sei, meu benfeitor, se teus maiores
Foram cobertos, decorados foram
De purp√ļreos doss√©is, de m√°rcios loiros;
Sei que frequentas da Amizade o templo,
Que és grande,

Continue lendo…

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos l√°bios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, h√°-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, h√°-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do ver√£o descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

√ď deus do sangue! deus de miseric√≥rdia!
√ď deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Imp√Ķe-nos sobre o ventre as tuas m√£os de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um l√°tego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.

Continue lendo…

Hino à Solidão

Diz-se que a solid√£o torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo
[aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam:
Imagens, concep√ß√Ķes, formas do sentimento,
‚ÄĒ Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo ch√£o onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,

Continue lendo…

Hino à Beleza

Onde quer que o fulgor da tua glória apareça,
‚ÄĒ Obra de g√©nio, flor de hero√≠smo ou santidade, ‚ÄĒ
Da Gioconda imortal na radiosa cabeça,
Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

‚ÄĒ Como um pag√£o subindo √† Acr√≥pole sagrada,
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada,
Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem igual com que sempre iluminas
Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio
Do mesmo foco em mil par√°bolas divinas:
‚ÄĒ Raios do mesmo olhar, √Ęnsias do mesmo seio.

Alta revelação que, baixando em segredo,
O prisma humano quebra em √Ęngulos dispersos,
Como a √°gua a cair de rochedo em rochedo
Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

√Č aud√°cia no Her√≥i; resigna√ß√£o no Santo;
Som e Cor, ondulando em formas imortais;
No m√°rmore rebelde abre em folhas de acanto,
E esmalta de candura a flora dos vitrais.

√ď Beleza! √ď Beleza! as Horas fugitivas
Passam diante de ti, aladas como sonhos…

Continue lendo…

Como, Morte, Temer-te?

Como, morte, temer-te?
N√£o est√°s aqui comigo, a trabalhar?
N√£o te toco em meus olhos; n√£o me dizes
que não sabes de nada, que és vazia,
inconsciente e pacífica? Não gozas,
comigo, tudo: glória, solidão,
amor, até tuas entranhas?
N√£o me est√°s a sustentar,
morte, de pé, a vida?
N√£o te levo e trago, cego,
como teu guia? N√£o repetes
com tua boca passiva
o que quero que digas? N√£o suportas,
escrava, a gentileza com que te obrigo?

Tradução de José Bento

Recordam-se Voc√™s do Bom Tempo d’Outrora

(Dedicat√≥ria de introdu√ß√£o a ¬ęA Musa em F√©rias¬Ľ)

Recordam-se voc√™s do bom tempo d’outrora,
Dum tempo que passou e que n√£o volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
C’roava-nos a fronte um diadema d’aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na bals√Ęmina em flor.
Que doiradas can√ß√Ķes nossas bocas vermelhas
N√£o lan√ßaram ent√£o perdidas pelo ar!…
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Can√ß√Ķes feitas sem versos,
E que nós nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp’ran√ßas
S√£o √°ureos colibris das regi√Ķes da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai j√° sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega à nossa alma,então
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida √© um Sol que chega ao c√ļmulo
Quando cantam em n√≥s essas can√ß√Ķes celestes;

Continue lendo…

Quero a Fome de Calar-me

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A √ļnica gl√≥ria no mundo ‚ÄĒ ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da verg√īntea ‚ÄĒ a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direc√ß√Ķes, estudo-lhes
A flor ‚ÄĒ v√°rias √°rvores cortadas
Continuam a altear os p√°ssaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As √°guas nocturnas ‚ÄĒ pequenos
Nen√ļfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem ‚ÄĒ quero fechar-me e cair. O sil√™ncio
Alveolar expira ‚ÄĒ e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança