Poemas sobre Perfume

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Poemas de perfume escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Inf√Ęncia

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

A Manh√£

A rosada manh√£ serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino alj√īfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
V√£o em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Sa√ļdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras √°guas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A √ļmida cabe√ßa ergue vi√ßosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha,

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Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um v√īo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibra√ß√Ķes, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por n√£o ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decep√ß√Ķes e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

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Noite por Ti Despida

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se d√° em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os √°lamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. √ćntimo rumor do mundo.

Eternidade

A minha eternidade neste mundo
Sejam vinte anos só, depois da morte!
O vento, eles passados, que, enfim, corte
A flor que no jardim plantei t√£o fundo.

As minhas cartas leia-as quem quiser!
Torne-se p√ļblico o meu pensamento!
E a terra a que chamei ‚ÄĒ minha mulher ‚ÄĒ
A outros dê seu lábio sumarento!

A outros abra as fontes do prazer
E teça o leito em pétalas e lume!
A outros dê seus frutos a comer
E em cada noite a outros dê perfume!

O globo tem dois pólos: Ontem e hoje.
Dizemos s√≥: ‚ÄĒ Meu pai! ou s√≥:‚ÄĒ Meu filho!
O resto é baile que não deixa trilho.
Rosto sem carne; fixidez que foge.

Venham beijar-me a campa os que me beijam
Agora, frágeis, frívolos e humanos!
Os que me virem, morto, ainda me vejam
Depois da morte, vivo, ainda vinte anos!

Nuvem subindo, anis que se evapora…
Assim um dia passe a minha vida!
Mas, antes, que uma l√°grima sentida
Traga a certeza de que alguém me chora!

Adro!

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Os Cinco Sentidos

S√£o belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores Рdivinais têm essas flores;
Mas eu n√£o tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
N√£o vejo outra beleza
Sen√£o a ti – a ti!

Divina – ai! sim, ser√° a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
ser√°; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Sen√£o a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… n√£o sinto: minha alma n√£o aspira,
N√£o percebe, n√£o toma
Sen√£o o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – s√£o os pomos saborosos,
√Č um mimo – de n√©ctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Est√£o… mas √© de beijos,
√Č s√≥ de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,

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A Negra F√ļria Ci√ļme

Morre a luz, abafa os ares
Horrendo, espesso negrume,
Apenas surge do Averno
A negra f√ļria Ci√ļme.

Sobre um sólio cor da noite
Jaz dos Infernos o Nurne,
E a seus pés tragando brasas
A negra f√ļria Ci√ļme.

Crespas víboras penteia,
Dos olhos dardeja lume,
Respira veneno e peste
A negra f√ļria Ci√ļme.

Arrancando à Morte a fouce
De buído, ervado gume,
Vem retalhar cora√ß√Ķes
A negra f√ļria Ci√ļme.

Ao cruel sócio de Amor
Escapar ninguém presume,
Porque a tudo as garras lança
A negra f√ļria Ci√ļme.

Todos os males do Inferno
Em si guarda, em si resume
O mais horrível dos monstros,
A negra f√ļria Ci√ļme.

Amor inda é mais suave,
Que das rosas o perfume,
Mas envenena-lhe as graças
A negra f√ļria Ci√ļme.

Nas asas de Amor voamos
Do prazer ao √°ureo cume,
Porém de lá nos arroja
A negra f√ļria Ci√ļme.

Do férreo cálix da Morte
Prova o funesto azedume
Aquele a quem ferve n’alma
A negra f√ļria Ci√ļme.

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Os Amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infind√°veis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as m√°scaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solid√£o transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as m√£os.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e n√£o fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as m√£os, porque n√£o vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer n√£o gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem √≥dios, nem paix√Ķes que levantam a voz,
Nem invejas que d√£o movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento ‚ÄĒ
Este momento em que sossegadamente n√£o cremos em nada,

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A Curva dos Teus Olhos

A curva dos teus olhos d√° a volta ao meu peito
√Č uma dan√ßa de roda e de do√ßura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se j√° n√£o sei tudo o que vivi
√Č que os teus olhos n√£o me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Tradução de António Ramos Rosa

Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos

Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que n√£o.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam… Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
P√°ginas intactas ‚ÄĒ um livro fechado
Em cada ata√ļde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Rel√Ęmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, j√° hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde est√£o?
Trago as m√£os cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dar√° flor aos vivos que dizem que n√£o?

O quê? Valho Mais que uma Flor

O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela n√£o sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela n√£o sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu n√£o tens, porque sou flor…

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, n√£o comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.

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O Verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o c√°lix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solid√£o…
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ci√ļme.

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escurid√£o
nos cingisse a cintura
fic√°vamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Aleluia

Se cantas, nasce o dia;
A luz segreda à flor: Ave, Maria!

Tudo é silêncio, espanto,
Quando vaga no Azul o teu encanto…

Passas e deixas no ar
O perfume das rosas de toucar!

Creio em ti, como em Deus;
Viver à tua luz é estar nos Céus!

Verdes enleios de hera
Cingem de amor teu vulto, ó Primavera!

Nos perdidos caminhos,
Voam gorjeios, m√ļsicas dos ninhos…

A Terra em névoas de ouro
Ascende a Deus em teu olhar de choro!

Senhora da Harmonia,
Em ti a minha vida principia!

Se voas pela Altura,
Gravas no Azul a tua formosura!

Teu voo é um longo adeus:
O caminho das almas para os C√©us…

Longe, saudosa, adejas,
E pairas sobre mim… bendita sejas!

Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente

Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce est√Ęncia toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma est√°tua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o c√°lice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No ch√£o as tra√ģnes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um v√°cuo, enfim, que o n√£o ser√° ‚ÄĒ t√£o logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
√Č uma gra√ßa a vencer.

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Benção

Quando, por uma lei da vontade suprema,
O Poeta vem a luz d’este mundo insofrido
A desolada mãe, numa crise de blasfêmia,
Pragueja contra Deus, que a escuta comovido:

‚ÄĒ “Antes eu procriasse uma serpe infernal!
Do que ter dado vida a um disforme aleij√£o!
Maldita seja a noite em que o prazer carnal
Fecundou no meu ventre a minha expiação!

J√° que fui a mulher destinada, Senhor,
A tornar infeliz quem a si me ligou,
E n√£o posso atirar ao fogo vingador
O fatal embri√£o que meu sangue gerou.

Vou fazer recair o meu ódio implacável
No monstro que nasceu das tuas maldi√ß√Ķes
E saberei torcer o arbusto miser√°vel
De modo que n√£o vingue um s√≥ dos seus bot√Ķes!”

E sobre Deus cuspindo a sua m√°goa ingente
Ignorando a razão dos desígnios do Eterno,
A tresloucada m√£e condena, inconsciente,
A sua pobre alma às fogueiras do inferno.

Bafeja a luz do sol o fruto malfadado,
Vela pelo inocente um anjo peregrino;
A água que ele bebe é um néctar perfumado,
O pão é um manjar saboroso,

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Retrato de Amigo

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão    minha amêndoa    meu amigo
meu tropel de ternura    minha casa
meu jardim de carência    minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo    minha essência
meu lume    minha lava    meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Pintura

Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
s√£o formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Mapa

Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.

O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o
cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a
nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país

Mapa azul da inf√Ęncia:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.

Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,

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