Passagens sobre Pranto

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VIII

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
S√£o estes inda os mesmos arvoredos;
Esta √© a mesma r√ļstica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh qu√£o lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

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Luz Da Natureza

Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza,
Ensina-me os segredos da Beleza
E de todas as vozes por quem chamo.

Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
Ilumina e suaviza esta rudeza
Da vida humana, onde combato e clamo.

Desta minh’alma a solid√£o de prantos
Cerca com os teus le√Ķes de brava cren√ßa,
Defende com so teus gl√°dios sacrossantos.

D√°-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
Porta esferal, dos constelados mantos
Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

O homem √© o √ļnico ser que, ao nascer, nu sobre a terra nua, √© abandonado ao vagido e ao pranto; e nenhum animal √© mais propenso √†s l√°grimas do que ele, desde o in√≠cio da vida.

Exílio

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em v√£o caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manh√£s do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer m√ļsica degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma p√°gina,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

Embora o espírito estremeça à lembrança e seja avesso ao pranto,
começarei.

A Giganta

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava à terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos p√©s d’uma rainha!

Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terríveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensíveis

Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E às vezes, no verão, quando no ardente solo

Eu visse deitar, numa quebreira estranha estranha,
Dormir serenamente à sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!

Tradução de Delfim Guimarães

Insónia

Noite calada, como num lamento,
A voz das coisas ponho-me a escutar,
E ela vai, vai subindo ao Firmamento,
Num murm√ļrio constante, a solu√ßar.

Noites de Outono, como chora o vento…
Noites sem brilho, noites sem luar.
Noites de Outono, sois o meu tormento,
Tombam as folhas, ponho-me a cismar.

Noite morta. L√° fora a ventania
Passa rezando estranha litania,
Como sinos dobrando ao entardecer.

Vento que choras, dolorido canto,
Unge meus olhos, deixa-mos em pranto,
Para melhor assim adormecer.

Quando?

Este falar de mim j√° me consola. Mas quando
direi de mim o quanto que me baste, e tanto
que de mim me canse? E cansando-me seja espanto
na p√°gina ou palco desse pranto, ou canto
geral que aos outros se alongue, e tanto
que de mim me esqueça e compadeça.

Fraqueza

Espero-te… E sei bem que eu s√≥ que te espero…
Aqui me tens… Constante e eterna √© a expectativa!
Por que hei de ser assim sempre ingênuo e sincero
por mais que experiência eu tenha, e a vida eu viva?

Chegar√°s… e ter√°s uma resposta esquiva
ao que te perguntar… E eu que tanto te quero
renderei novamente a minha alma cativa,
enquanto sorrir√°s feliz… e eu desespero…

H√° um imenso poder nessa tua humildade,
e esse teu ar de mansa ternura e meiguice
estra√ßalha aos teus p√©s toda a minha vontade…

Que fazer? Hei de sempre perdoar o que fazes…
E se choras, nem sei… Esquecendo o que disse
sou eu que enxugo o pranto e ainda proponho as pazes!

Supremo Verbo

– Vai, Peregrino do caminho santo,
Faz da tu’alma l√Ęmpada do cego,
Iluminando, pego sobre pego,
As invis√≠veis amplid√Ķes do Pranto.

Ei-lo, do Amor o C√°lix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas m√£os o entrego…
√Čs o filho leal, que eu n√£o renego,
Que defendo nas dobras do meu manto.

Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escut√°-la,
Transfigurado de emo√ß√£o, sorrindo…

Sorrindo a céus que vão se desvendando,
A mundos que v√£o se multiplicando,
A portas de ouro que v√£o se abrindo!

Comunh√£o

Reprimirei meu pranto!… Considera
Quantos, minh’alma, antes de n√≥s vagaram,
Quantos as m√£os incertas levantaram
Sob este mesmo c√©u de luz austera!…

‚ÄĒ Luz morta! amarga a pr√≥pria primavera! ‚ÄĒ
Mas seus pacientes cora√ß√Ķes lutaram,
Crentes só por instinto, e se apoiaram
Na obscura e her√≥ica f√©, que os retempera…

E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende √° lei de ignotas multid√Ķes. ‚ÄĒ
Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde f√© de obscuras gera√ß√Ķes,
Na comunh√£o dos nossos pais antigos.

LXXVI

Enfim te hei de deixar, doce corrente
Do claro, do suavíssimo Mondego;
Hei de deixar-te enfim; e um novo pego
Formará de meu pranto a cópia ardente.

De ti me apartarei; mas bem que ausente,
Desta lira ser√°s eterno emprego;
E quanto influxo hoje a dever-te chego,
Pagar√° de meu peito a voz cadente.

Das ninfas, que na fresca, amena est√Ęncia
Das tuas margens √ļmidas ouvia,
Eu terei sempre n’alma a conson√Ęncia;

Desde o prazo funesto deste dia
Ser√£o fiscais eternos da minha √Ęnsia
As memórias da tua companhia.

Saudades n√£o as Quero

Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito

N√£o mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu ent√£o deixo esfriar esta paix√£o
amor podes mandar se for sincero
saudades isso n√£o pois n√£o as quero

Bateram novamente era o ci√ļme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram

N√£o mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu ent√£o deixo esfriar esta paix√£o,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso n√£o pois n√£o as quero.

Ausência Misteriosa

Uma hora só que o teu perfil se afasta,
Um instante sequer, um só minuto
Desta casa que amo — vago luto
Envolve logo esta morada casta.

Tua presença delicada basta
Para tudo tornar claro e impoluto…
Na tua ausência, da Saudade escuto
O pranto que me prende e que me arrasta…

Secretas e sutis melancolias
Recuadas na Noite dos meus dias
Vêm para mim, lentas, se aproximando.

E em toda casa, nos objetos, erra
Um sentimento que não é da Terra
E que eu mudo e sozinho vou sonhando…

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
√Č como um c√°lix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

Como um beijo de m√°goa e de ansiedade,
Como um terno crep√ļsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

Como um sud√°rio de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

Velha P√°gina

Chove. Que m√°goa l√° fora!
Que m√°goa! Embruscam-se os ares
Sobre este rio que chora
Velhos e eternos pesares.

E sinto o que a terra sente
E a tristeza que diviso,
Eu, de teus olhos ausente,
Ausente de teu sorriso…

As asas loucas abrindo,
Meus versos, num longo anseio,
Morrer√£o, sem que, sorrindo,
Possa acolhê-los teu seio!

Ah! quem mandou que fizesses
Minh’alma da tua escrava,
E ouvisses as minhas preces,
Chorando como eu chorava?

Por que é que um dia me ouviste,
Tão pálida e alvoroçada,
E, como quem ama, triste,
Como quem ama, calada?

Tu tens um nome celeste…
Quem é do céu é sensível!
Por que é que me não disseste
Toda a verdade terrível?

Por que, fugindo impiedosa,
Desertas o nosso ninho?
– Era t√£o bela esta rosa!…
J√° me tardava este espinho!

Fora melhor, porventura,
Ficar no antigo degredo
Que conhecer a ventura
Para perdê-la tão cedo!

Por que me ouviste, enxugando
O pranto das minhas faces?

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Embirração

(A Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando l√° por mim.
N√£o morrer√£o, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, à luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sós contigo,
Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frívolo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino h√° de livrar-nos Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histórias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaix√£o, n√£o d√° perd√£o ao erro;

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Adolescentes

Exaustos, mudos, sempre que os vejo,
Nos bancos tristes que h√° na cidade,
Sobe em mim próprio como um desejo
Ou um remorso da mocidade…

E até a brisa, perfidamente
Lhes roça os lábios pelos cabelos
Quando a cidade, na sua frente
Rindo e correndo, finge esquecê-los!

Eles, no entanto, sentem-na bela.
(Deram-lhe sangue, pranto e suor).
Quantos, mais tarde se vingam dela
Por tudo o que hoje sabem de cor!

E essas paragens nos bancos tristes
(Aquela estranha meditação!)
Traz-lhes, meu Deus, só porque existes,
A garantia do teu perd√£o!

A Perfeição

A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss’alma fica da clarivid√™ncia
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
√Č dos prantos divina e pura ess√™ncia.

Noss’alma fica como o ser que √†s lutas
As m√£os conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.!