Textos de Antoine de Saint-Exupéry

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Textos de Antoine de Saint-Exupéry. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

N√£o Transformes o Teu Amigo em Escravo

A decepção não passa de baixeza. Se tu amaste um certo não sei quê no homem, que importa haver no mesmo homem outra coisa que te desagrada? Mas tu, não senhor; transformas logo a seguir em escravo quem amas ou quem te ama. Se ele não assume os encargos dessa escravidão, condena-lo.
O outro que fez? Tinha um amigo que lhe fazia presente do seu amor. Vai ele e transforma esse presente em dever. E a dádiva do amor tornou-se dever de beber a cicuta, tornou-se escravatura. O amigo não gostava da cicuta. O outro deu-se por desiludido, o que é ignóbil. Efectivamente, só pode haver decepção relativamente a um escravo que serviu mal.

Miser√°veis Macabros

√Č que n√£o foram t√£o poucas como isso as vezes que vi a piedade enganar-se. N√≥s, que governamos os homens, aprendemos a sondar-lhes os cora√ß√Ķes, para s√≥ ao objecto digno de estima dispensarmos a nossa solicitude. Mais n√£o fa√ßo do que negar essa piedade √†s feridas de exibi√ß√£o que comovem o cora√ß√£o das mulheres. Assim como tamb√©m a nego aos moribundos, e al√©m disso aos mortos. E sei bem porqu√™.
Houve uma altura da minha mocidade em que senti piedade pelos mendigos e pelas suas √ļlceras. At√© chegava a apalavrar curandeiros e a comprar b√°lsamos por causa deles. As caravanas traziam-me de uma ilha long√≠nqua unguentos derivados do ouro, que t√™m a virtude de voltar a compor a pele ao cimo da carne. Procedi assim at√© descobrir que eles tinham como artigo de luxo aquele insuport√°vel fedor. Surpreendi-os a co√ßar e a regar com bosta aquelas p√ļstulas, como quem estruma uma terra para dela extrair a flor cor de p√ļrpura. Mostravam orgulhosamente uns aos outros a sua podrid√£o e gabavam-se das esmolas recebidas.
Aquele que mais ganhara comparava-se a si pr√≥prio ao sumo sacerdote que exp√Ķe o √≠dolo mais prendado. Se consentiam em consultar o meu m√©dico, era na esperan√ßa de que o cancro deles o surpreendesse pela pestil√™ncia e pelas propor√ß√Ķes.

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Não há Liberdade sem Direcção

√Č f√°cil estabelecer a ordem de uma sociedade na submiss√£o de cada um dos seus componentes a regras fixas. √Č f√°cil moldar um homem cego que tolere, sem protestar, um mestre ou um Cor√£o. Mas √© muito diferente, para libertar o homem, faz√™-lo reinar sobre si pr√≥prio.
Mas o que √© libertar? Se eu libertar, no deserto, um homem que n√£o sente nada, que significa a sua liberdade? N√£o h√° liberdade a n√£o ser a de ¬ęalgu√©m¬Ľ que vai para algum s√≠tio. Libertar este homem seria mostrar-lhe que tem sede e tra√ßar o caminho para um po√ßo. S√≥ ent√£o se lhe ofereceriam possibilidades que teriam significado. Libertar uma pedra nada significa se n√£o existir gravidade. Porque a pedra, depois de liberta, n√£o iria a parte nenhuma.

A Vaidade da Tua Imagem

S√≥ podes ter esperan√ßas de ser fiel se sacrificares a vaidade da tua imagem. √Č dizeres: ¬ęEu penso como eles, sem distin√ß√£o.¬Ľ Ver-te-√°s desprezado. Mas sendo, como √©s, parte desse corpo, queres l√° saber do desprezo! Em vez de te importares com ele, agir√°s sobre esse corpo. E carreg√°-lo-√°s com a tua pr√≥pria inclina√ß√£o. E ir√°s buscar a tua honra √† honra deles. Porque n√£o h√° outra coisa a esperar.
Se tens motivos para teres vergonha, n√£o te exponhas. N√£o fales. Rumina a tua vergonha. Essa indigest√£o que te for√ßar√° a restabeleceres-te na tua casa √© excelente. Porque depende de ti. Mas aquele acol√° tem os membros doentes. Que faz ele? Manda cortar os quatro membros. √Č doido. Podes procurar a morte para que ao menos em ti respeitem os teus. Mas n√£o podes reneg√°-los, porque ent√£o √© a ti que te renegas.

N√£o se Reconquista o Amor com Argumentos

Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento,

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Abra√ßa o Conte√ļdo e N√£o a Forma

√Äs vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequ√™ncias do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque s√≥ √© poss√≠vel amar atrav√©s da mulher e n√£o a mulher. Atrav√©s do poema e n√£o o poema. Atrav√©s da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da ang√ļstia de n√£o se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com ins√≥nias, volta-se e torna-se a voltar na cama, √† procura do fresco ombro do leito. Mas basta toc√°-lo, para ele se tornar t√©pido e recusar-se. E ele procura noutro s√≠tio uma fonte dur√°vel de frescura. Mas n√£o consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provis√£o esvai-se.
O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. N√£o passam de vazios os seres que n√£o s√£o janelas ou frestas para Deus. √Č por isso que, no amor vulgar, s√≥ amas o que te foge. De outra maneira, v√™s-te saciado e descoro√ßoado com a tua satisfa√ß√£o.

Não Há Comunicação Sem Envolvimento

S√≥ atrav√©s de um cerimonial consegues comunicar. Se ouvires distra√≠do essa m√ļsica e considerares distra√≠damente esse templo, n√£o nascer√° nada em ti, nem ser√°s alimentado. O √ļnico meio de que disponho para te explicar a vida a que te convido √©, por conseguinte, que tu te comprometas pela for√ßa e te deixes amamentar por ela. Como te havia eu de explicar essa m√ļsica que ouvi-la n√£o basta, se n√£o te achas preparado para te deixares formular por ela? T√£o prestes vejo a morrer em ti a imagem da propriedade, que dela pouco mais resta do que gravatos. A palavra ir√≥nica √© pr√≥pria mas √© do cancro; um sono mau, um barulho que perturba, e a√≠ est√°s tu privado de Deus. E recusado. Vejo-te sentado no portal, tendo atr√°s de ti a porta da tua casa fechada, totalmente separado do mundo, que n√£o passa do somat√≥rio de objectos vazios. Porque tu n√£o comunicas com os objectos, mas com os la√ßos que os ligam.

A Felicidade Est√° no Realizar, e N√£o no Usufruir

Atolavam-se na ilus√£o da felicidade que extra√≠am dos bens possu√≠dos. Ora a felicidade o que √© sen√£o o calor dos actos e o contentamento da cria√ß√£o? Aqueles que deixam de trocar seja o que for deles pr√≥prios e recebem de outrem o alimento, nem que fosse o mais bem escolhido e o mais delicado, aqueles que ouvem subtilmente os poemas alheios sem escreverem os poemas pr√≥prios, aproveitam-se do o√°sis sem o vivificarem, consomem c√Ęnticos que lhes fornecem, e fazem lembrar os que se apegam √†s mangedouras no est√°bulo e, reduzidos ao papel de gado, mostram-se prontos para a escravatura.

Cerimonial do Amor

Se não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direcção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele que tem de viver. E não há vida se nenhum deus te criou linhas de força.
Se o teu amor n√£o √© recebido, se ele se transforma em s√ļplica v√£ como recompensa da tua fidelidade, se n√£o tens cora√ß√£o para te calares, nessa altura vai ter com um m√©dico para ele te curar. √Č bom n√£o confundir o amor com a escravatura do cora√ß√£o. O amor que pede √© belo, mas aquele que suplica √© amor de criado.
Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas, se por exemplo tem de franquear a impenetrável parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a Deus que ela por hipótese retribua o teu amor, embora na aparência se mostre surda e cega. Há uma lamparina acesa para ti neste mundo. Pouco me importa que tu não possas servir-te dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza de uma casa longínqua, embora morra.

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As √önicas Verdades que se Demonstram S√£o as do Passado

Aqueles que se apoiam em raz√Ķes coerentes e n√£o na riqueza do cora√ß√£o, que discutem para agir segundo a raz√£o, nem sequer chegar√£o a agir porque aos silogismos deles algu√©m mais h√°bil opor√° argumentos melhores, aos quais eles, depois de terem reflectido, opor√£o argumentos ainda melhores. E assim, de advogado h√°bil em advogado mais h√°bil, por toda a eternidade.
As √ļnicas verdades que se demonstram s√£o as do passado, evidentes em primeiro lugar porque s√£o. Se quiseres explicar pela raz√£o o motivo por que determinada obra √© grande, consegui-lo-√°s sem d√ļvida. Porque conheces de antem√£o o que desejas demonstrar. Mas a cria√ß√£o n√£o pertence a esse dom√≠nio. Experimenta dar pedras ao teu contabilista e ele n√£o construir√° templo algum.

√Č Preciso Restaurar o Homem

A minha civiliza√ß√£o repousa sobre o culto do Homem atrav√©s dos indiv√≠duos. Teve o des√≠gnio, durante s√©culos, de mostrar o Homem, assim como ensinou a distinguir uma catedral atrav√©s das pedras. Pregou esse Homem que dominava o indiv√≠duo…
Porque o Homem da minha civiliza√ß√£o n√£o se define atrav√©s dos homens. S√£o os homens que se definem atrav√©s dele. H√° nele, como em todo o Ser, qualquer coisa que os materiais que o comp√Ķem n√£o explicam. Uma catedral √© uma coisa muito diferente de uma soma de pedras. √Č geometria e arquitectura. N√£o s√£o as pedras que a definem, √© ela que enriquece as pedras com o seu pr√≥prio significado. Essas pedras ficam enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua unidade. A catedral as absorve, at√© √†s g√°rgulas mais horrendas, no seu c√Ęntico.
Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Julguei que o Homem resumia os homens, tal como a Pedra resume as pedras. Confundi catedral e soma de pedras, e, pouco a pouco, a heran√ßa desvaneceu-se. √Č preciso restaurar o Homem. Ele √© a ess√™ncia da minha cultura. Ele √© a chave da minha Comunidade. Ele √© o princ√≠pio da minha vit√≥ria.

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De que Serve Discutir as Ideologias?

Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, n√£o precisamos de p√īr em confronto as evid√™ncias das nossas verdades. Sim, t√™m raz√£o. T√™m todos raz√£o. A l√≥gica demonstra tudo. Tem raz√£o aquele que rejeita que todas as desgra√ßas do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem d√ļvida, tamb√©m os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, √© necess√°rio esquecermos por um instante as divis√Ķes que, uma vez admitidas, implicam todo um Cor√£o de verdades inabal√°veis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e n√£o corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distin√ß√Ķes s√£o incontest√°veis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton n√£o ¬ędescobriu¬Ľ uma lei h√° muito disfar√ßada de solu√ß√£o de enigma, Newton efectuou uma opera√ß√£o criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da ma√ß√£ num prado ou a ascens√£o do sol.

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Felicidade com Poucos Bens

Embora a experi√™ncia me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior propor√ß√£o nos desertos, nos mosteiros e no sacrif√≠cio do que entre os sedent√°rios dos o√°sis f√©rteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse √† natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens s√£o em maior n√ļmero, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto √† natureza das suas alegrias: elas, efectivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal imp√©rio ou em tal morada ou em tal propriedade. Para j√°, pode acontecer que eles, na abastan√ßa, se enganem com maior facilidade e fa√ßam circular mais vezes riquezas v√£s. Como os homens do deserto ou do mosteiro n√£o possuem nada, sabem muito bem donde lhes v√™m as alegrias e √©-lhes assim mais f√°cil salvarem a pr√≥pria fonte do seu fervor.

N√£o Transformes as Tuas Convic√ß√Ķes em Pedras

Quando as verdades são evidentes e absolutamente contraditórias, o que tens a fazer é mudar de linguagem. A lógica não serve para te ajudar a passares de um andar para o outro. Tu não prevês o recolhimento a partir das pedras. E, se falares do recolhimento com a linguagem das pedras, vais-te abaixo. Precisas de inventar essa palavra nova para dares conta de uma certa arquitectura das tuas pedras. Porque nasceu um ser novo, não divisível, nem explicável; porque explicar é demonstrar. E tu baptiza-lo então com um nome.
Como é que tu havias de raciocinar sobre o recolhimento? Como é que havias de raciocinar sobre o amor? Como é que havias de raciocinar sobre a propriedade? Não se trata de objectos, mas de deuses.

Escolher Para Desfrutar

A ang√ļstia invade quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga, quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por n√£o saber escolher. Eles bem sabem que eu os curaria da ang√ļstia se lhes permitisse esse dom que exige sacrif√≠cios e escolha e esquecimento do universo. Porque determinada flor √©, em primeiro lugar, uma ren√ļncia a todas as outras flores. E, no entanto, s√≥ com esta condi√ß√£o √© bela. √Č o que acontece com o objecto da troca. E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa, demonstra com isso que prefere o nada √† cria√ß√£o.

Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca d√™s ouvidos √†queles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspira√ß√Ķes. Tu bem sabes qual √© a tua voca√ß√£o, pois a sentes exercer press√£o sobre ti. E, se a atrai√ßoas, √© a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se far√° lentamente, pois ela √© nascimento de √°rvore e n√£o descoberta de uma f√≥rmula. O tempo √© que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha dif√≠cil. Porque o ser novo, que √© unidade libertada no meio da confus√£o das coisas, n√£o se te imp√Ķe como a solu√ß√£o de um enigma, mas como um apaziguamento dos lit√≠gios e uma cura dos ferimentos. E s√≥ vir√°s a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu t√£o √ļtil ao homem como o sil√™ncio e a lentid√£o. Por isso os tenho honrado sempe como deuses por demais esquecidos.

Não Confundas o Amor Com o Delírio da Posse

Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. Por eu amar a Deus, meto-me a pé pela estrada fora, coxeando penosamente para o levar aos outros homens. E não reduzo o meu Deus à escravatura. E sou alimentado com o que ele dá a outros. Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.

A Lei Pode Ser Vista como Costume ou como Polícia

√Č uma ignor√£ncia imperdo√°vel n√£o saber que a lei √© significa√ß√£o das coisas e n√£o rito mais ou menos est√©ril por ocasi√£o destas coisas. Ao legislar sobre o amor, fa√ßo nascer determinada forma de amor. O meu amor √© desenhado pelas pr√≥prias coac√ß√Ķes que lhe imponho. A lei, portanto, tanto pode ser costume como pol√≠cia.

Liberta o Homem, e Ele Criar√°

Eu hei-de esculpir o futuro ao jeito do criador que extrai a obra de mármore a golpes de cinzel. E caem uma a uma as escamas que escondiam o rosto do deus. E os outros dirão: Este mármore continha este deus. Ele o que fez foi encontrá-lo. E o gesto dele não passava de um meio. Mas eu cá digo que ele não calculava, ele forjava a pedra. O sorriso do rosto está muito longe de ser feito de suor, de faíscas, de golpes de cinzel e de mármore. O sorriso não é da pedra, mas sim do criador. Liberta o homem, e ele criará.

O Indivíduo e a Colectividade

Em vez de afirmarmos os direitos do Homem através dos indivíduos, começámos a falar dos direitos da Colectividade. Vimos introduzir-se insensivelmente uma moral do Colectivo que negligencia o Homem. Esta moral explicará claramente por que razão o indivíduo se deve sacrificar à Comunidade. Já não explicará, sem artifícios de linguagem, por que razão uma Comunidade se deve sacrificar por um só homem. Por que razão é equitativo que mil morram para libertar um só da prisão da injustiça. Ainda nos lembramos disso, mas esquecemo-lo pouco a pouco. E, no entanto, é neste princípio, pelo qual nos distinguimos tão claramente da formiga, que reside acima de tudo a nossa grandeza.