Aos Poetas
Somos nĂłs
As humanas cigarras.
NĂłs,
Desde o tempo de Esopo conhecidos…
NĂłs,
Preguiçosos insectos perseguidos.Somos nĂłs os ridĂculos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
NĂłs, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
NĂłs, que nunca passamos,
A passar…Somos nĂłs, e sĂł nĂłs podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mĂŁo que sĂł altura semeara.Por isso a vĂłs, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que nĂŁo Ă© meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que nĂŁo tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Passagens sobre Tribos
25 resultadosA Palavra
…Tudo o que vocĂŞ quiser, sim senhor, mas sĂŁo as palavras que cantam, que sobem e descem… Prosterno-me diante delas… Amo–as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que glutonamente se amontoam, se espreitam, atĂ© que de sĂşbito caem… Vocábulos amados… Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, sĂŁo espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… SĂŁo tĂŁo belas que quero pĂ´-las a todas no meu poema… Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebĂşrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E entĂŁo revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvĂŁo, como restos de naufrágio, presentes das ondas… Tudo está na palavra… Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que nĂŁo a esperava, nas que lhe obedeceu… Elas tĂŞm sombra, transparĂŞncia, peso, penas, pĂŞlos, tĂŞm de tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto serem raĂzes… SĂŁo antiquĂssimas e recentĂssimas… Vivem no fĂ©retro escondido e na flor que desponta…
Produzimos uma Cultura de Devastação
Todos os anos exterminamos comunidades indĂgenas, milhares de hectares de florestas e atĂ© inĂşmeras palavras das nossas lĂnguas. A cada minuto extinguimos uma espĂ©cie de aves e alguĂ©m em algum lugar recĂ´ndito contempla pela Ăşltima vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz nĂŁo se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espĂ©cie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projecto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a Ăşnica coisa que nos distancia na realidade dos animais Ă© a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder econĂłmico. Sempre me pareceu incrĂvel que uma sociedade tĂŁo pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstractas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efĂ©meras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade…
Cantiga do Rosto Branco
Rico era o rosto branco; armas trazia,
E o licor que devora e as finas telas;
Na gentil Tibeima os olhos pousa,
E amou a flor das belas.“Quero-te!” disse à cortesã da aldeia;
“Quando, junto de ti, teus olhos miro,
A vista se me turva, as forças perco,
E quase, e quase expiro.”E responde a morena requebrando
Um olhar doce, de cobiça cheio:
“Deixa em teus lábios imprimir meu nome;
Aperta-me em teu seio!”Uma cabana levantaram ambos,
O rosto branco e a amada flor das belas…
Mas as riquezas foram-se co’o tempo,
E as ilusões com elas.Quando ele empobreceu, a amada moça
Noutros lábios pousou seus lábios frios,
E foi ouvir de coração estranho
Alheios desvarios.Desta infidelidade o rosto branco
Triste nova colheu; mas ele amava,
Inda infiéis, aqueles lábios doces,
E tudo perdoava.Perdoava-lhe tudo, e inda corria
A mendigar o grĂŁo de porta em porta,
Com que a moça nutrisse, em cujo peito
Jazia a afeição morta.E para si,
Desponta A Estrela D’alva, A Noite Morre.
Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alĂgeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.Tudo Ă© luz e esplendor; tudo se esfuma
Ă€s carĂcias da aurora, ao cĂ©u risonho,
Ao flĂłreo bafo que o sertĂŁo perfuma!PorĂ©m minh’alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
– Oh! mundo encantador, tu Ă©s medonho!