Passagens sobre Adoração

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O amor nascente é tão melindroso, pueril e tímido, que receia desagradar até com o pensamento ao ídolo da sua concentrada adoração.

Não há amizade possível entre os homens e as mulheres. Há paixão, inimizade, adoração, amor, mas não amizade.

H√° ¬ęportas da consola√ß√£o¬Ľ que se devem ter sempre abertas, porque Jesus gosta de entrar por elas: o Evangelho lido todos os dias e trazido sempre connosco, a ora√ß√£o silenciosa e de adora√ß√£o, a Confiss√£o, a Eucaristia. Atrav√©s dessas portas, o Senhor entra e d√° um novo sabor a todas as coisas.

A Alma Popular é Totalmente Dominada por Elementos Afectivos e Místicos

A ac√ß√£o cada vez mais consider√°vel das multid√Ķes na vida pol√≠tica imprime especial import√Ęncia ao estudo das opini√Ķes populares. Interpretadas por uma legi√£o de advogados e professores, que as transp√Ķem e lhe dissimulam a mobilidade, a incoer√™ncia e o simplismo, elas permanecem pouco conhecidas. Hoje, o povo soberano √© t√£o adulado quanto foram, outrora, os piores d√©spotas. As suas paix√Ķes baixas, os seus ruidosos apetites, as suas ininteligentes aspira√ß√Ķes suscitam admiradores. Para os pol√≠ticos, servidores da plebe, os factos n√£o existem, as realidades n√£o t√™m nenhum valor, a natureza deve-se submeter a todas as fantasias do n√ļmero.
A alma popular (…) tem, como principal caracter√≠stica, a circunst√Ęncia de ser inteiramente dominada por elementos afectivos e m√≠sticos. N√£o podendo nenhum argumento racional refrear nela as impuls√Ķes criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente.
O lado m√≠stico da alma das multid√Ķes √©, muitas vezes, mais desenvolvido ainda do que o seu lado afectivo. Da√≠ resulta uma intensa necessidade de adorar alguma coisa: deus, feiti√ßo, personagem ou doutrina.
(…) O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multid√Ķes √© a nula influ√™ncia que a raz√£o exerceu nelas. As ideias suscept√≠veis de influenciar as multid√Ķes n√£o s√£o ideias racionais, por√©m sentimentos expressos sob forma de ideias.

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Bens Ilusórios

Por nosso mal l√° chega a idade, em que n√£o queremos mais fortunas, que o viver; conhecemos a ilus√£o delas, e se as buscamos, √© como por costume, mas sem √Ęnsia, e sem desassossego; o desejo de as alcan√ßar, √© como um resto de calor, que apenas se faz sentir. N√£o reflectimos sobre o pouco tempo, que devemos gozar um bem, sen√£o depois de o ter: s√≥ ent√£o consideramos o muito que custou a alcan√ßar, e o pouco que o havemos possuir.
Em cada país há um modo com que as cousas se imaginam; o que é fortuna em uma parte, é desgraça em outra, o que aqui se busca com empenho, ali se despreza totalmente. Os objectos que entretêm a vaidade, e estimação dos homens, são como ídolos, que só se veneram em lugar determinado, e fora daquele tal espaço, a adoração se troca em vitupério; o mesmo mármore de que em Atenas se faria uma Minerva, transportado a outro lugar, apenas servirá de base a uma coluna; assim é a vaidade, por mais que seja universal nos homens, os motivos dela não são universais.

Natal T√£o Pouco

Nasceu em Belém, ou Nazaré
(A nova teoria),
Este que nos é
O Pai-Nosso em cada dia?

Que importa onde nasceu,
Se num presépio, se num leito?
A verdade sou eu
A aguard√°-lo no peito.

Pois abro o coração
Pra o receber,
Quer venha ou n√£o
Do céu ou ventre de mulher.

Mas, ai! a adoração dura-me instantes!
Em breve irei neg√°-lo
Três vezes, antes
De cantar o galo!

Surpresa

Começamos assim: Рeu, tendo em mente
fingir gostar apenas: namorar,
como chamam na vida comumente
aos primeiros encontros de algum par…

Tu, disposta a prender-me ao teu olhar
por um mero capricho e, fatalmente,
depois que eu me curvasse a te adorar
trocar-me-ias por outro facilmente…

Começamos assim Рlogo, no entanto
– aquilo que pensei, n√£o consegui,
nem conseguiste o que querias tanto…

E afinal – que bel√≠ssima surpresa!…
– Eu, de tanto fingir: – gostei de ti,
tu, querendo prender: – ficaste presa!…

Não existe antídoto mais poderoso contra a baixa sensualidade do que a adoração da beleza.

As catacumbas n√£o eram apenas lugares para escapar √†s persegui√ß√Ķes, mas eram, sobretudo, lugares de ora√ß√£o, para santificar os domingos e para elevar, das entranhas da terra, a adora√ß√£o a um Deus que nunca esquece os Seus filhos.

Eu acho que Deus é uma projeção humana, é um desejo infinito que nós temos de adoração, e de algo que nos suspende com o sentido absoluto.

A Incomodidade da Grandeza

J√° que n√£o a podemos alcan√ßar, vinguemo-nos falando mal dela. No entanto, n√£o √© inteiramente falar mal de alguma coisa encontrar-lhe defeitos; estes encontram-se em todas as coisas, por belas e desej√°veis que sejam. Em geral, ela possui esta vantagem evidente de se rebaixar quando lhe apraz, e de mais ou menos ter a op√ß√£o entre uma situa√ß√£o e a outra; pois n√£o se cai de todas as alturas; s√£o mais numerosas aquelas das quais se pode descer sem cair. Bem me parece que a valorizamos demais, e valorizamos demais tamb√©m a decis√£o dos que vimos ou ouvimos dizer que a menosprezaram ou que renunciaram a ela por sua pr√≥pria inten√ß√£o. A sua ess√™ncia n√£o √© t√£o evidentemente c√≥moda que n√£o a possamos rejeitar sem milagre. Acho muito dif√≠cil o esfor√ßo de suportar os males; mas em contentar-se com uma medida mediana de fortuna e em fugir da grandeza acho pouca dificuldade. √Č uma virtude, parece-me, a que eu, que n√£o passo de um patinho, chegaria sem muito esfor√ßo. Que devem fazer aqueles que ainda levassem em considera√ß√£o a gl√≥ria que acompanha tal rejei√ß√£o, na qual pode caber mais ambi√ß√£o do que no pr√≥prio desejo e gozo da grandeza, porquanto a ambi√ß√£o nunca se conduz mais √† vontade do que por um caminho desgarrado e inusitado?

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Adoração

Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo,
Como quem volta de √°spero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!

Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como l√Ęmpada sagrada,
Benvindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!

Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!

Atrai e n√£o me atrevo
A contempl√°-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua m√£e!

Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais, bastava
P√īr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
√Č uma adora√ß√£o!

Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe…

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Adoração

Eu n√£o te tenho amor simplesmente. A paix√£o
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manh√£, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto ‚Äď virgem linda, inef√°vel, radiante,
Envolta num clar√£o bals√Ęmico da lua,
A minh’alma ajoelha, tr√©mula, aos p√©s da tua!
Adoro-te!… N√£o √©s s√≥ graciosa, √©s bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o c√©u e o teu olhar!…

A Adoração dos Magos

Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manh√£
à espera do início
do seguinte espect√°culo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mans√Ķes.
O unic√≥rnio branco dep√īs sua cabe√ßa
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas l√£s
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba j√° cresceu desde o jantar.
¬ę√Č a adora√ß√£o dos magos¬Ľ – murmuras tu ‚Äď
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.

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Abd√≥men, n. O templo do deus Est√īmago, em cuja adora√ß√£o, com ritos sacrificiais, todos os homens participam. Das mulheres, esta f√© antiga exige apenas um consentimento hesitante. Por vezes, elas presidem ao altar de forma pouco empenhada e ineficiente, desconhecendo a verdadeira rever√™ncia pela √ļnica divindade que os homens realmente adoram.

A Responsabilidade do Ser Humano

A primeira adora√ß√£o dos √≠dolos foi sem d√ļvida o medo das coisas, mas tamb√©m, relacionado com este, o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia t√£o gigantesca, que nem mesmo se ousou imp√ī-la a um √ļnico ser humano, pois, pela mera media√ß√£o de um ser, a responsabilidade humana n√£o teria sido aliviada o suficiente, o conv√≠vio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso, deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, tamb√©m, uma medida da responsabilidade para o ser humano.

O Prestígio é Sempre Enganador

Tendo a generalidade das opini√Ķes que a educa√ß√£o nos inculca, unicamente a educa√ß√£o por base, facilmente nos habituamos a admitir, com prontid√£o, um conceito defendido por um personagem aureolado de prest√≠gio.
Sobre os assuntos t√©cnicos da nossa profiss√£o, somos capazes de formular conceitos muito seguros; mas, no tocante ao resto, n√£o procuramos sequer raciocinar, preferindo admitir, com os olhos fechados, as opini√Ķes que nos s√£o impostas por um personagem ou um grupo dotado de prest√≠gio.
De facto, quer se seja estadista, artista, escritor ou s√°bio, o destino depende, sobretudo, da quantidade de prest√≠gio que se possui e, por conseguinte, do grau de sugest√£o inconsciente que se pode criar. O que determina o √™xito de um homem √© a domina√ß√£o mental que ele exerce. O completo imbecil, entretanto, alcan√ßa √™xito, algumas vezes, porquanto, n√£o tendo consci√™ncia da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade. Ora, a afirma√ß√£o en√©rgica e repetida possui prest√≠gio. O mais vulgar dos ¬ęcamelos¬Ľ, quando energicamente afirma a imagin√°ria superioridade de um produto, exerce prest√≠gio na multid√£o que o circunda.
(…) Mesmo entre s√°bios eminentes, o prest√≠gio √©, muitas vezes, um dos factores mais certos de uma convic√ß√£o. Para os esp√≠ritos ordin√°rios, ele o √© sempre.

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O Desespero do Homem de Acção

Há uma ligação muito estreita entre a adoração da acção e o uso do homem como meio de atingir fins que não são o homem. Como há uma ligação aproximada entre este desespero e a acção, entre a razão e a acção. A proeminência dos valores da acção sobre os da contemplação indica, sobretudo, que o homem abandonou totalmente a busca duma ideia aprazível do homem e o desejo de o colocar como fim. E que na impossibilidade de agir segundo um fim, ou de agir para ser homem, ele decide agir de qualquer maneira, apenas para agir.
O homem de ac√ß√£o √© um desesperado que procura preencher o vazio do seu pr√≥prio desespero com actos ligados mecanicamente uns aos outros e compreendidos entre um ponto de in√≠cio e um ponto de conclus√£o, ambos gratuitos e convencionais. Por exemplo, entre o ponto de in√≠cio da fabrica√ß√£o dum autom√≥vel e o ponto de conclus√£o dessa fabrica√ß√£o. O homem de ac√ß√£o suspender√° o seu desespero enquanto durar a fabrica√ß√£o do ve√≠culo; suspend√™-lo-√° precisamente porque no seu esp√≠rito fica suspensa qualquer finalidade verdadeiramente humana: sente-se meio entre os outros homens, meios como ele. Conclu√≠da a m√°quina ele encontrar-se-√°, √© verdade, mais inerte e ex√Ęnime que a pr√≥pria m√°quina,

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A f√© verdadeira n√£o √© adora√ß√£o de for√ßas paranormais ou de fen√īmenos sobrenaturais. Ela √© adora√ß√£o da for√ßa correta, isto √©, da for√ßa do amor, da for√ßa da harmonia.