Na casca amarela se esconde em vão a goiaba: tantos bem-te-vis…
Passagens de Anibal Beça
128 resultadosMorcego em surdina morde e sopra o velho gato. Não contava o pulo…
Céu de primavera. Nas açucenas floridas dura mais o orvalho.
Equu (Para O Poeta Rafael Courtoisie)
Nos astros me perdia logo cedo
enquanto a luz vestia-me de noites.
Então chorava no meu ombro o enredo
grave galope breve com seus coices.As éguas do destino cospem medos
sabendo-me alazão de muitas foices,
ou pangaré lunar dos meus degredos.
Por isso perseguiam-me nas noitesàquelas mais escuras sem estrelas
nas quais sou presa fácil sem que fosse
porque flechando verbos sei contê-las.Não eram éguas mouras dos desertos
senão potrancas férteis com seus roces
estas que vinham mansas muito perto.
Jogando a tarrafa caboclo desfaz a lua. Pesca estrelas de escama.
Dançando a quadrilha lembrei de aulas de francês. Onde a professora?
No céu enfeitado, papagaio de papel: também vou no vôo.
Broca no bambu deixa furos de flauta. O vento faz música.
Além do quentão, só a orelha da companheira me salva do frio.
Sozinho na casa. Lá fora o canto das cigarras. Ah se não fossem elas…
Águas Da Saudade Para Dirson Costa Que O Musicou
Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a distância que abriga vaga margem
das águas da saudade nos meus passos.Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, não cantei sua desdita.Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, chão de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.
Uma vida é só uma vida só uma vida é vivida melhor se for dividida e tudo mais é só e tudo mais é e tudo mais e tudo e
Coruja na cumeeira arrepia no seu canto – a viúva reza.
Solidão de outubro: folhas varridas no vento levam meu recado.
Susto na colheita: em vez do cupuaçu cai a casa de vespas.
A chuva já vem? Não vem. É o marcador cantando a quadrilha.
Ajuste De Contas
Esta manhã me acorda para a vida
vinda com luz amena no meu rosto.
Pela janela os raios em descida
são aspas de uma lauda sem desgosto.Das queixas não me queixo na acolhida
pois somam menos que o maior imposto.
Vale essa vida até aqui vivida
no tom alegre em que me trago exposto.Mas não me escoro no dever cumprido
porque de ver em muito haver implica
por este olhar ainda não vencido.Quisera essa alegria que me fica
chegar ao chão de muito irmão ferido
de vida desigual que não se explica.
Nos gestos da mão baila a brasa do cigarro: pisca o pirilampo.
Soneto Quebradiço
Mão minha com maminha movediça
traçando vai na limpa areia branca
versos cambaios, frouxos, na liça
língua caçanje, claudicante, manca.No pé quebrado o ritmo se atiça
para dançar com rimas pobres, franca
trança de cambalhota tão cediça,
que me corrompe o salto e que me estanca.Queda de braço nas quebradas quebras
vou me quebrando como um bardo gauche:
pelas savanas sou mais uma zebra.Mas consciente desse torto approuch
já me socorre a gíria de alma treta
para solar meu solo nos ouvidos moucos.
Janela fechada: borboleta na vidraça dá cor ao meu dia.