Passagens sobre Circo

29 resultados
Frases sobre circo, poemas sobre circo e outras passagens sobre circo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O casamento é um bom acordo, tal como um circo: não há nele tanto como o que é anunciado na publicidade.

Adiamento

Depois de amanh√£, sim, s√≥ depois de amanh√£…
Levarei amanh√£ a pensar em depois de amanh√£,
E assim ser√° poss√≠vel; mas hoje n√£o…
N√£o, hoje nada; hoje n√£o posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansa√ßo de mundos para apanhar um el√©trico…
Esta esp√©cie de alma…
S√≥ depois de amanh√£…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanh√£ no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho j√° o plano tra√ßado; mas n√£o, hoje n√£o tra√ßo planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas s√≥ conquistarei o mundo depois de amanh√£…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
S√≥ depois de amanh√£…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje s√≥ me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha inf√Ęncia…
Depois de amanh√£ serei outro,
A minha vida triunfar-se-√°,

Continue lendo…

Retrato do Artista em C√£o Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por tr√°s de l√°grimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui est√°s tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o c√£o vadio dos outros dias da semana
o c√£o de sempre
cada vez que h√° um c√£o jovem
neste local da terra

Enquanto outros Combatem

Empunhasse eu a espada dos valentes!
Impelisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis trémulos e ás gentes!

Respirariam meus pulm√Ķes contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado…
Ou caíra radioso, amortalhado
Na fulva luz dos gl√°dios reluzentes!

J√° n√£o veria dissipar-se a aurora
De meus in√ļteis anos, sem uma hora
Viver mais que de sonhos e ansiedade!

J√° n√£o veria em minhas m√£os piedosas
Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas
D’esta p√°lida e est√©ril mocidade!

Balada do Amor através das Idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas n√£o Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irm√£o.
Matei, brig√°mos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de crist√£os.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o le√£o que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolit√Ęnia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da f√ļria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortes√£o de Versailles,
espirituoso e devasso.
Voc√™ cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complica√ß√Ķes pol√≠ticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.

Continue lendo…

Olhar

As grades que me prendem s√£o teus olhos,
aqu√°tica pris√£o, cela tel√ļrica,
liana que me enrosca e me desfolha
no tronco tosco dessa √°rvore l√ļbrica.

No sol de Gl√°ucia apenas me recolho
e, sendo assim, o sido se faz p√ļblico
num pelourinho aberto com seus folhos
zurzindo seu chicote em gestos l√ļdicos.

Perau de feras, circo de centelha
regendo as águas tépidas de escamas
no fogo da (a)ventura da parelha.

Tudo em suor e sal o amor proclama:
No mar do teu olhar a onda se espelha
na chama que me queima e que te inflama.

Mapa

Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.

O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o
cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a
nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país

Mapa azul da inf√Ęncia:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.

Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,

Continue lendo…

A Rua Dos Cataventos РIX РPara Emílio Kemp

√Č a mesma a ruazinha sossegada.
Com as velhas rondas e as can√ß√Ķes de outrora…
E os meus lindos preg√Ķes da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz est√° cansada…
E, n√£o sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora…

Sim, desses cartazes ante os quais
N√≥s √†s vezes paramos, indecisos…
Mas para qu√™?… Se n√£o adiantam mais!…

Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: – Alegrias – Risos
Depois do Circo j√° ter ido embora!…

E quando o circo pega fogo somos os animais na jaula, mas voc√™ s√≥ quer algod√£o doce…

Se te Queres Matar

Se te queres matar, por que n√£o te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, tamb√©m me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de conven√ß√Ķes e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conhe√ßas finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E n√£o cantes, como eu, a vida por bebedeira,
N√£o sa√ļdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? √ď sombra f√ļtil chamada gente!
Ningu√©m faz falta; n√£o fazes falta a ningu√©m…
Sem ti correr√° tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A m√°goa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorar√£o…
O impulso vital apaga as l√°grimas pouco a pouco,

Continue lendo…

A Irresponsabilidade da Multid√£o

A multid√£o que se chama parlamento nunca se sente t√£o feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multid√£o que se chama com√≠cio agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar ¬ęAbaixo!¬Ľ sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabe√ßa de um indiv√≠duo odiado ou ainda a queimar qualquer s√≠mbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um pal√°cio de justi√ßa; a multid√£o reunida num teatro que d√° pelo nome de p√ļblico pode aplaudir uma pe√ßa nova, mas, quando estimulada, n√£o hesita em condenar e precipitar √† for√ßa de uivos e assobios quem supunha t√™-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multid√£o √© um p√ļblico, que n√£o quer dispersar sem ter assistido a um espect√°culo. No entanto, selvagem como √©, prefere os espect√°culos tr√°gicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a f√°bula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, v√™-lo.
Estar entre muito incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.

Meridional

Cabelos

√ď vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escurid√£o dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No b√°ratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintila√ß√Ķes e meigos c√©us de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tuf√Ķes,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solid√Ķes.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo eb√Ęnico e t√£o bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturb√°vel,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milion√°rio avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Continue lendo…

Um Céu e Nada Mais

Um c√©u e nada mais ‚ÄĒ que s√≥ um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em ab√≥bada azul ‚ÄĒ como de tecto.
E o seu n√ļmero tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, t√£o de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a √Ęncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trov√£o que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
t√£o fr√°gil como √°lcool, t√£o de
potente e liso como √°lcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais ‚ÄĒ que nada temos,
que n√£o seja esta ang√ļstia de
mortais (e a maldição da rima,

Continue lendo…