Poemas de Carlos Felipe Moisés

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Poemas de Carlos Felipe Moisés. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

O Dia Segue o Curso Itinerante

I

Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tĂŁo grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.

II

E vou por outras águas procurando
o manso pouco, o malvo campo onde
apascentar o rebanho de mágoas,
o carro de afectos que mantenho
guardados no denso peito, tangidos
pelo vento no dorso do horizonte.
Largos desertos! abrandai a pena
sem fim que me domina! Alvos lĂ­rios,
rosas, boninas, nardos e outras flores!
Vinde ao menos cobrir-me a branda fronte
de pĂşrpura, de orvalho e calmaria.
Eis que me vou por este vasto mar
de afagos e carĂ­cias inconstantes,

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Tenho Tudo

Tenho tudo o que nĂŁo quero.
Perder nĂŁo Ă© senĂŁo o intervalo
entre aguardar e nada ter.
(Que melodia Ă© esta que povoa
o espaço em meu redor?)

Tenho tudo. Nada quero.
Meu coração desconhece
o compasso que amanhece
tudo em torno.
No entanto,
meus passos seguem.
No encalço de quê?

Tenho tudo: a noite
abrigada em meu peito,
a mĂşsica de meus passos,
a relva, a distância coberta
por inesquecĂ­vel melodia.
NĂŁo quero mais do que tenho.
(Um canto flutua no ar vazio.)

Tenho tudo:
os pássaros que me fogem dos olhos
para saudar, no horizonte,
a Ăşmida manhĂŁ que principia.

Carrego as Estações Comigo

Carrego as estações comigo
e tenho as mĂŁos cansadas.
No bolso esquerdo um riacho murmura.
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de Primavera circulam no meu corpo
Um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos, mescla de memĂłria
e desejo, meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo)
Ă  procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vĂŁo
e o pássaro me ajuda, memória
e desejo, a semear meu corpo.

Ali planto meus braços.
Debaixo daquelas flores meus olhos ficam.
Os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore.
O tronco multiplico em cem pedaços:
Lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo
os lábios deixo além, no descampado.
E peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
Ă quele mar onde me espera a memĂłria
e o desejo do tempo em que nĂŁo soube
carregar as estações comigo.

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