Sonetos sobre Cordas

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Sonetos de cordas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Gonçalves Crespo

Esta musa da p√°tria, esta saudosa
Niobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas n√£o esquece a morte gloriosa.

E p√°lida, e chorosa,
Ao Tejo voa, onde no chão caída
Jaz aquela evadida
Lira da nossa América viçosa.

Com ela torna, e, dividindo os ares,
Trépido, mole, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.

Não é a asa do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os p√°trios lares.

Ela, em meu Sonho

Ela vivia num pal√°cio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.

As suas m√£os, t√£o leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pesam, trêmulas, suaves,
nas cordas, a sonharem melodias…

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegaram, receosos de senti-la,
voltavam a n√£o ser nunca tangidos.

√Č que ela, as suas m√£os, as harpas de ouro,
n√£o eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julg√°-la num pal√°cio mouro.

A Harpa

Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
A harpa tangida por convulsos dedos,
Vivem nela mistérios e segredos,
√Č berceuse, √© balada, √© barcarola.

Harmonia nervosa que desola,
Vento noturno dentre os arvoredos
A erguer fantasmas e secretos medos,
Nas suas cordas um solu√ßo rola…

Tu’alma √© como esta harpa peregrina
Que tem sabor de m√ļsica divina
E só pelos eleitos é tangida.

Harpa dos céus que pelos céus murmura
E que enche os c√©us da m√ļsica mais pura,
como de uma saudade indefinida.

Anseio

Nessas paragens desoladas, onde
O silêncio campeia soberano
Morreram notas do bulício humano,
Nem vibra a corda que a saudade esconde.

Anseios d’alma aqui se perdem. Donde
Fluiu outrora a luz dum doce engano,
Hoje é trevas, é dor, é desengano,
E eu ergo preces que ninguém responde.

Triste criança virginal, quem dera
Voar est’alma a ti, longe dos la√ßos
Dessa jaula de carne que a encarcera!

Ah! Que unidos assim, lá nos espaços,
Cantarias do amor a primavera,
Tendo a minh’alma presa nos teus bra√ßos!

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegra√ß√Ķes maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
T√≠sica, t√™nue, m√≠nima, raqu√≠tica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica

Esse Cabra Ou Cabr√£o, Que Anda Na Berra

Esse cabra ou cabr√£o, que anda na berra,
Que mamou no Brasil surra e mais surra,
O vil estafador da vil bandurra,
O perro, que nas cordas nunca emperra:

O monstro vil que produziste, ó Terra
Onde narizes Natureza esmurra,
Que os seus nadas harm√īnicos empurra,
Com parda voz, das paciências guerra;

O que sai no focinho à mãe cachorra,
O que n√©scias aplaudem mais que a “Mirra”,
O que nem veio de pros√°pia forra;

O que afina inda mais quando se espirra,
Merece à filosófica pachorra
Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.

N. H.

Tu não és de Romeu a doce amante,
A triste Julieta, que suspira,
Solto o cabelo aos ventos ondeante,
Inquietas cordas de suspensa lira.

Não és Ofélia, a virgem lacrimante,
Que ao luar nos jardins vaga e delira,
E é levada nas águas flutuante,
Como em sonho de amor que cedo expira.

√Čs a est√°tua de m√°rmore de rosa;
Galatéia acordando voluptuosa
Do grego artista ao fogo de mil beijos…

√Čs a l√Ęnguida J√ļlia que desmaia,
√Čs Haid√©ia nos c√īncavos da praia;
Fosse eu o Dom Jo√£o dos teus desejos!…

Carlos Gomes

Essa que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa.

Guarda nas costas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora, arrasta
Ora do mar as queixas ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda, mas tal intensidade
Teve a m√ļsica enorme do seu choro
O dil√ļvio orquestral dos seus lamentos.

Que muda assim, rotas as cordas h√° de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que sua alma lançou aos quatro ventos.

Vaso Grego

Esta de √°ureos relevos, trabalhada
De divas m√£os, brilhante copa, um dia,
J√° de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que o suspendia
Ent√£o, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mas, o lavor da ta√ßa admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas h√°s de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada m√ļsica das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e c√Ęndido suspira
No cora√ß√£o e o purifica e beija…
E o que ele, o coração, aspira, almeja
√Č o sonho que de l√°grimas delira.

√Č sempre sonho e tamb√©m √© piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

Preside O Neto Da Rainha Ginga

Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.

Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.

Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.

Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras.

√Čs M√ļsica e a M√ļsica Ouves Triste?

√Čs m√ļsica e a m√ļsica ouves triste?
Doçura atrai doçura e alegria:
porque amas o que a teu prazer resiste,
ou tens prazer só na melancolia?

se a concórdia dos sons bem afinados,
por casados, ofende o teu ouvido,
s√£o-te branda censura, em ti calcados,
porque de ti deviam ter nascido.

Vê que uma corda a outra casa bem
e ambas se fazem m√ļtuo ordenamento,
como marido e filho e feliz m√£e

que, todos num, cantam de encantamento:
√Č can√ß√£o sem palavras, v√°ria e em
un√≠ssono: “s√≥ n√£o ser√°s ningu√©m”.

O Coração РII

A solidão é perfeita como um rasgo entre
as nuvens, ao √ļltimo sonho. A solid√£o
que se cala em teu fundo e vai envelhecendo
na terra perdida do som descompassado.

Te guardas na intimidade dos arm√°rios,
onde a paz é negra e se desagrega a luz.
Nunca foste mais do que uma ficção, matriz
de riso e sombra, um poço verde, teorema

de ilus√Ķes, engrenagem de poentes roxos.
E, agora, frouxo, j√° nada designas ou
desenhas. √Čs, apenas, testemunha ef√©mera

e longínqua, trovão engolido de Deus,
fingidor ferido de doces cantos, mentira
prec√°ria nas cordas de uma harpa febril.

Czardas Para Serrotes Com Arcos De Violino E Berimbau De Lata

Esta anábase é de hora aberta desnudada
t√£o desmedida como foi a minha vida
de nada me arrependo apenas me perd√īo
por que meu v√īo nem sequer se iniciou

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas
trapos e cordas dissonantes dessa lira
s√£o acidentes de percurso em que recorro
como um Zen√£o o parafuso desse v√īo

Assim nessa colméia em ziper me percorro
como um zang√£o no zigue-zague nos hex√°gonos
ando à procura de uma abelha desvairada

que me acompanhe na aventura pelos p√Ęntanos
exorcizando a desrazão desses escorços
essa n√£o-ave desgarrada do meu nada

Paisagem Citadina

A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impens√°vel que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

N√£o temos ent√£o dela sen√£o r√°pidas
vis√Ķes, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por tr√°s nos ossos empedrados.
Em certas posi√ß√Ķes v√™em-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.