Sonetos sobre Impossível

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Sonetos de impossível escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amor que morre

O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clar√£o, ao longe, j√° desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
S√£o precisos amores, pra morrer,
E s√£o precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

Soneto, às Cinco Horas da Tarde

Agora que me instigo e me arremesso
ao branco ofício de prender meu sono
e depois atir√°-lo em seu vestido
feito de céu e restos de incerteza,

recolho inutilmente de seus l√°bios
a precisão do sangue do silêncio
e inauguro uma tarde em suas m√£os
gr√°vidas de gestos e de rumos.

Pelo temor e o débil sobressalto
de encontrar sua ausência numa esquina
quando extingui canção e permanência,

guardei todo o impossível de seus olhos,
embora ouvisse, longe, além dos mapas,
bruscos mastins de cedro em seus cabelos.

À Sua Esperança

Esta esperança vã, doce tormento,
Com que amor lisonjeiro determina
Acumular estragos à ruína
Por levantar padr√Ķes ao escarmento,

Foi crep√ļsculo breve de um momento,
Delicado jasmim, fr√°gil bonina,
Rosa, que se murchou duma aura fina,
Vidro, que se quebrou de um leve vento.

Morreu minha esperança às mãos de um rogo
E nas cinzas se alenta o meu cuidado,
Que amor nos impossíveis mais se inflama:

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo,
Justo é que nela cresça o meu agrado,
Pois ao sopro do vento cresce a chama.

À Morte

Os correos da morte s√£o chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por n√£o chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.

Se n√£o viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo t√£o estreita,
N√£o fora t√£o penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladr√£o contrito n√£o se enjeita.

Mais Luz!

(A Guilherme de Azevedo)

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que inclinam, mudos e impassíveis,
√Ä borda dos abismos silenciosos…

Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!

Coitado! que em um tempo choro e rio

Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Du~a cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

O Corpo

Ante as portas desgarradas, paradoxal
é a morte: impossível, feito realidade,
acaso predito. Corpo, deus imortal,
para sempre cego e mudo, abandona-te ao livre

ar. Que te transformes e assemelhes à noite.
Tempestade final das sombras, foste, corpo,
respiração com voz, área que habitaste,
v√°ria e discordante, a cada movimento.

E agora que a luz desfalece e n√£o a tocas,
nem por ela és tocado, a palavra deixou
de ser a tua p√°tria e n√£o mais esfolias

o espaço. Agora, que já nada mudará,
nenhuma eternidade te rescende. A morte
petrifica o frágil espaço que foi teu.

Mais Alto

Mais alto, sim! Mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se n√£o encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser √°guia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Eburnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Amor Fero e Cruel, Fortuna Escura

Gr√£o tempo h√° j√° que soube da Ventura
A vida que me tinha destinada,
Que a longa experiência da passada
Me dava claro indício da futura.

Amor fero e cruel, Fortuna escura,
Bem tendes vossa força exprimentada;
Assolai, destruí, não fique nada;
Vingai-vos desta vida, que inda dura.

Soube Amor da Ventura que a n√£o tinha,
E por que mais sentisse a falta dela,
De imagens impossíveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
N√£o foi melhor, vivei nesta alma minha,
Que n√£o tem a Fortuna poder nela.

O Meu Cond√£o

Quis Deus dar-me o condão de ser sensível
Como o diamante à luz que o alumia,
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
– Um bailado de cor e fantasia!

Quis Deus fazer de ti a ambrosia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!

Quis Deus fazer-me tua… para nada!
РVãos, os meus braços de crucificada,
In√ļteis, esses beijos que te dei!

Anda! Caminha! Aonde?… Mas por onde?…
Se a um gesto dos teus a sombra esconde
O caminho de estrelas que tracei…

Viola Azulada

Sempre que houver saco retiro a viola,
e ponho a cantoria no sereno
da noite, em serenata que se evola
em sons antigos, raros, que enveneno.

Nos acordes do pinho, a m√£o que sola
repete a melodia no azul pleno
dessa paix√£o azul, de ontens e agoras,
azulando a saudade e seu terreno.

Carlos Pena Filho pintou de azul
os seus sapatos por ser impossível
pintar de azul as ruas do seu rumo,

e a trova azul que eu canto agora aqui
mundo afora vai na nuvem que assume
chover de azul os sonhos por aí.

Ela

À beleza tão pura do semblante,
à luz sublime que há nos olhos dela,
– pergunto-me a mim mesmo a todo instante,
como t√£o simples pode ser t√£o bela…

Diferente das outras, diferente
dos moldes t√£o comuns de uma mulher,
– ela me faz pensar num mundo ausente
deste que a gente sem querer j√° quer…

Bem que a quis esquecer – e noutro amor
procurei me enganar, acreditando
ser do meu pobre cora√ß√£o, senhor…

Em v√£o tentei… Em v√£o… Vendo-a naquela
doce e pura express√£o – fico pensando
que √© imposs√≠vel n√£o pensar mais nela!…

Soneto

A Moreira de Vasconcelos

Na luta dos impossíveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terríveis!
(Do Autor)

√Č um pensar flamejador, dard√Ęnico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do cr√Ęnio escultural, tit√Ęnico!…

Parece haver um cataclismo enorme
L√° dentro, em √Ęnsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convuls√£o potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…

H√£o de ruir na transfus√£o dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! h√° de erguer-se de arreb√≥is c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da gl√≥ria!!…

Amor é um Espírito Invisível

Dizem que fere amor com passadores
e que traz em matar o pensamento,
mas eu julgo que tem amor de vento
quem cuida haver no mundo tais amores.

Também dizem que o pintam os Pintores
menino, nu e cego: e t√£o sem tento,
que √© mais cego e mais nu d’entendimento,
quem cuida que em amores cabem tais cores.

Amor é um espírito invisível,
que entra por onde quer, e abranda o peito
sem cor, sem arco, aljava, ou seta dura:

Pode num peito humano o impossível,
recebe-se somente no conceito,
e tem no coração posse segura.