Sonetos sobre Ingratos

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Sonetos de ingratos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Epit√°fio

Caminhante que vais t√£o de corrida.
Pois em nada reparas na jornada.
Repara por tua vida no meu nada.
Que foi toda uma morte a minha vida.

Tamb√©m do mundo andei muito partida,¬ī
Posto que em diligência mal parada,
E por n√£o ser verdade incorporada
Uma mentira sou desvanecida.

Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido sem ter nome,
Eu, ingrato, morri sem benefício.

Exemplo toma de mim, ó pobre homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome

Raios não Peço ao Criador do Mundo

LX

Raios não peço ao Criador do Mundo,
Tormentas n√£o suplico ao Rei dos Mares,
Vulc√Ķes √† terra, furac√Ķes aos ares,
Negros monstros ao b√°ratro profundo:

N√£o rogo ao deus de amor que furibundo
Te arremesse do pé de seus altares;
Ou que a peste mortal voe a teus lares,
E murche o teu semblante rubicundo.

Não imploro em teu dano, ainda que os laços
Urdidos pela fé, com vil mudança
Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços:

Não quero outro despique, outra vingança,
Mais que ver-te em poder de indignos braços,
E dizer quem te perde, e quem te alcança.

XXIV

Sonha em torrentes d’√°gua, o que abrasado
Na sede ardente est√°; sonha em riqueza
Aquele, que no horror de uma pobreza
Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado
De um contínuo delírio esta alma presa,
Quando é tudo rigor, tudo aspereza,
Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia
Do enfermo, do mendigo, se descobre
Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,
Se apesar desta ingrata aleivosia,
Quanto mais rico estou, estou mais pobre.

LXXXII

Piedosos troncos, que a meu terno pranto
Comovidos estais, uma inimiga
E quem fere o meu peito, é quem me obriga
A tanto suspirar, a gemer tanto.

Amei a Lise; é Lise o doce encanto,
A bela ocasi√£o desta fadiga;
Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga
Em um tormento, em um fatal quebranto?

Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora
Vós a vêdes talvez, dizei, que eu cego
Vos contei… mas calai, calai embora.

Se tanto a minha dor a elevar chego,
Em fé de um peito, que tão fino adora,
Ao meu silêncio o meu martírio entrego.

Por esta Solid√£o, que n√£o Consente

Por esta solid√£o, que n√£o consente
Nem do sol, nem da lua a claridade,
Ralado o peito pela saudade
Dou mil gemidos a Marília ausente:

De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas m√£os, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores…

Ah! Trazei-me, ilus√Ķes, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, oh sonhos, entre as flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

XXXVIII

Quando, formosa Nise, dividido
De teus olhos estou nesta distancia,
Pinta a saudade, √† for√ßa de minha √Ęnsia,
Toda a memória do prazer perdido.

Lamenta o pensamento amortecido
A tua ingrata, p√©rfida inconst√Ęncia;
E quanto observa, √© s√≥ a vil jact√Ęncia
Do fado, que os troféus tem conseguido.

Aonde a dita est√°? aonde o gosto?
Onde o contentamento? onde a alegria,
Que fecundava esse teu lindo rosto?

Tudo deixei, ó Nise, aquele dia,
Em que deixando tudo, o meu desgosto
Somente me seguiu por companhia.

O Martírio Do Artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do √ļltimo momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
√Č como o paral√≠tico que, √† mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em v√£o falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Ingratos

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.

Do jogo das paix√Ķes minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos d√° cont√≠nua f’licidade
E amanh√£ nem ‚ÄĒ um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o √Ęnimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

√Č ver na m√£o cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela p√īs ‚ÄĒ outrora.

O poeta asseteado por amor

√ď C√©us! Que sinto n’alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: “A que se exp√Ķe quem n√£o receia
Contemplar Ursulina um só momento!

“Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:

“De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
√Ä tua linda ingrata algum suspiro.”

Lusit√Ęnia Querida

Lusit√Ęnia querida! Se n√£o choro
Vendo assim lacerado o teu terreno,
Não é de ingrata filha o dó pequeno;
Rebeldes julgo os ais, se te deploro.

Admiro de teus danos o decoro.
Bebeu Sócrates firme seu veneno;
E em qualquer parte do perigo o aceno
Encontra e cresce o teu valor, que adoro.

Mais que a vitória vale um sofrer belo;
E assaz te vingas de opress√Ķes fatais,
Se arrasada te vês, sem percebê-lo.

Povos! a independência que abraçais
Aplaude, alegre, o estrago, e grita ao vê-lo:
“Ru√≠na sim, mas servid√£o jamais!”

LI

Adeus, ídolo belo, adeus, querido,
Ingrato bem; adeus: em paz te fica;
E essa vitória mísera publica,
Que tens barbaramente conseguido.

Eu parto, eu sigo o norte aborrecido
De meu fado infeliz: agora rica
De despojos, a teu desdém aplica
O rouco acento de um mortal gemido.

E se acaso alguma hora menos dura
Lembrando-te de um triste, consultares
A série vil da sua desventura;

Na imensa confus√£o de seus pesares
Achar√°s, que ardeu simples, ardeu pura
A vítima de uma alma em teus altares.

LXV

Ingrata foste, Elisa; eu te condeno
A injusta sem-raz√£o; foste tirana,
Em renderes, belíssima serrana,
A tua liberdade ao néscio Almeno.

Que achaste no seu rosto de sereno,
De belo, ou de gentil, para inumana
Trocares pela dele esta choupana,
Em que tinhas o abrigo mais ameno?

Que canto em teu louvor entoaria?
Que te podia dar o pastor pobre?
Que extremos, mais do que eu, por ti faria?

O meu rebanho estas montanhas cobre:
Eu os excedo a todos na harmonia;
Mas ah que ele é feliz! Isto lhe sobre

XXX

N√£o se passa, meu bem, na noite, e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria.

Mil imagens debuxa a fantasia,
Com que mais me atormenta e mais me cansa:
Pois se tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar me esta porfia!

Tirano foi comigo o fado ingrato;
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:

Eu me alegrara da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltara também dele a memória.

A Morte, Que Da Vida O Nó Desata

A Morte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Aus√™ncia, que √© contr’ ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.

Duas contr√°rias, que √ľa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
√ľa √© Raz√£o contra a Fortuna austera,
outra, contra a Raz√£o, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;

porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Raz√£o e da Fortuna.

Taça De Coral

Lícias, pastor Рenquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
РSede também, sede maior, desmaia.

Mas aplacar-lhe vem piedosa Naia
A sede d’√°gua: entre vinhedo e sebe
Corre uma linfa, e ele no seu de faia
De ao pé do Alfeu tarro escultado bebe.

Bebe, e a golpe e mais golpe: – “Quer ventura
(Suspira e diz) que eu mate uma √Ęnsia louca,
E outra fique a penar, zagala ingrata!

Outra que mais me aflige e me tortura,
E n√£o em vaso assim, mas de uma boca
Na ta√ßa de coral √© que se mata”,

Desaires Da Formosura.

Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.

Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga e mata,
N√£o livra o ser divina em ser ingrata
E raio a raio os cora√ß√Ķes fulmina.

Viu F√°bio uma tarde transportado
Bebendo admira√ß√Ķes, e galhardias
A quem j√° tanto amor levantou aras:

Disse igualmente amante e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias
Se sendo t√£o formosa n√£o cagaras!

LXXIII

Quem se fia de Amor, quem se assegura
Na fantástica fé de uma beleza,
Mostra bem, que não sabe, o que é firmeza,
Que protesta de amante a formosura.

Anexa a qualidade de perjura
Ao brilhante esplendor da gentileza,
Mudável é por lei da natureza,
A que por lei de Amor é menos dura.

Deste, ó Fábio, que vês, desordenado,
Ingrato proceder se é que examinas
A raz√£o, eu a tenho decifrado:

S√£o as setas de Amor t√£o peregrinas,
Que esconde no gentil o golpe irado;
Para lograr pacífico as ruínas.

Cegueira de Amor

Fiei-me nas promessas que afectavas
Nas l√°grimas fingidas que vertias,
Nas ternas express√Ķes que me fazias,
Nessas m√£os que as minhas apertavas.

Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.

Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo
Em aras falsas, holocaustos puros.

XLVII

Que inflexível se mostra, que constante
Se vê este penhasco! já ferido
Do proceloso vento, e j√° batido
Do mar, que nele quebra a cada instante!

N√£o vi; nem hei de ver mais semelhante
Retrato dessa ingrata, a que o gemido
Jamais pode fazer, que enternecido
Seu peito atenda às queixas de um amante.

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,
Que vês nesse penhasco, essa dureza
H√° de ceder aos golpes algum dia:

Mas que diversa é tua natureza!
Dos contínuos excessos da porfia,
Recobras novo estímulo à fereza.

XIV

Quem deixa o trato pastoril amado
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz n√£o tem provado.

Que bem é ver nos campos transladado
No gênio do pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortes√£o dissimulado!

Ali respira amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna, que soçobre;
Aqui quanto se observa, é variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!