Sonetos sobre Sete

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Sonetos de sete escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Avarento

No meio de seus cofres, desvelado,
Co’as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista est√° no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.

Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.

Fechado nele est√°, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas inven√ß√Ķes, de ideias tortas.

N√£o emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!

√Āfrica

Na partilha das s√°faras conquistas
Desta Líbia de mouros rancorosos,
O Deserto foi dado aos Poderosos
E o Oásis, florido e mínimo, aos Artistas.

E os felizes, quais s√£o? Os mil sofistas
Da Ventura, a pedir, de olhos gulosos,
Terra e mais terra? Ou o que limita os gozos
E em sete palmos acomoda as vistas?

Certo, não sereis vós, ó Donatários
Do alvo Deserto, que velais, em guerra,
A √°urea carga dos vossos dromed√°rios.

Mas, tu, ó Poeta, que, por onde fores,
Teus sete palmos h√°s de achar na terra
Abrindo em trigo, rebentado em flores!

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

Soneto 251 Quantitativo

Centenas de sonetos s√£o legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Cam√Ķes, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Cam√Ķes marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

“Sete anos de pastor”, o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
tamb√©m um “Alma minha”, o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.

Soneto XVI

J√° tramontado o Sol do assento puro,
Debuxadas se vêem no claro rio
As seis filhas de Atlante pelo estio,
Cobre-se Electra, só, de um manto escuro.

J√° que com tanto risco me aventuro,
E sou tachado por escuro e frio,
Mostrem-se todos, que eu num só desvio
De vergonha escondido estar procuro.

Mas bem sabeis, engenho ilustre e nobre,
Que inda que o lavrador b√°rbaro veja
Que n√£o s√£o mais que seis estas estrelas,

O Astrólogo sábio, que descobre
Mais avante e co’a vista al√©m peleja,
Diz que s√£o sete, esconde-se ua delas.

À Morte

Os correos da morte s√£o chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por n√£o chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.

Se n√£o viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo t√£o estreita,
N√£o fora t√£o penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladr√£o contrito n√£o se enjeita.

À Tua Porta Há um Pinheiro Manso

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti atiro e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as louras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra…

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
√Č o solu√ßo da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!

Criação

H√° no amor um momento de grandeza,
que é de inconsciência e de êxtase bendito:
os dois corpos s√£o toda a Natureza,
as duas almas s√£o todo o Infinito.

√Č um mist√©rio de for√ßa e de surpresa!
Estala o coração da terra aflito;
rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu h√°lito aos amantes:
cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
e a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,
rola todo o Universo, em harmonias
e em florifica√ß√Ķes, enchendo o espa√ßo!

J√° l√° V√£o Sete Lustros

J√° l√° v√£o sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira est√° passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A m√£o j√° treme, j√° se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Consideração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar j√° agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite hum’hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paix√Ķes, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias.

Canção da Partida

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu cora√ß√£o um peso de ferro… Lan√ß√°-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor n√£o queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta…
_ A √ļltima, de antes do teu noivado.
A sete chaves, _ a carta encantada!

E um len√ßo bordado… Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

Floresce!

Floresce, vive para a Natureza,
Para o Amor imortal, largo e profundo.
O Bem supremo de esquecer o mundo
Reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
Da Luz que é como um vasto mar sem fundo,
Amplo, inflamado, m√°gico, fecundo,
De ondas de resplendor e de pureza.

Andas em v√£o na Terra, apodrecendo
À toa pelas trevas, esquecendo
A Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
Andas a apodrecer por sobre a Terra,
Antes de apodrecer nos sete palmos!

1

Livro, se luz desejas, mal te enganas.
Quanto melhor ser√° dentro em teu muro
Quieto, e humilde estar, inda que escuro,
Onde ningu√©m t’impece, a ningu√©m danas!

Sujeitas sempre ao tempo obras humanas
Coa novidade aprazem; logo em duro
√ďdio e desprezo ficam: ama o seguro
Silêncio, fuge o povo, e mãos profanas.

Ah! n√£o te posso ter! deixa ir comprindo
Primeiro tua idade; quem te move
Te defenda do tempo, e de seus danos.

Dir√°s que a pesar meu fostes fugindo,
Reinando Sebasti√£o, Rei de quatro anos:
Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.

Tudo Est√° Caro

A trinta e cinco réis custa a pescada:
O triste bacalhau a quatro e meio:
A dezasseis vinténs corre o centeio:
De verde a trinta réis custa a canada.

A sete, e oito tost√Ķes custa a carrada
Da torta lenha, que do monte veio:
Vende as sardinhas o galego feio
Cinco ao vintém; e seis pela calada.

O cujo regat√£o vai com excesso,
Revendendo as pequenas iguarias,
Que da pobreza s√£o todo o regresso.

Tudo está caro: só em nossos dias,
Graças ao Céu! Temos em bom preço
Os tremoços, o arroz e as Senhorias.

Independência

Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar l√ļcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Beatriz

Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, √† Fern√£o Dias…
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o outro encontrei, e o √īnix, e as frias
Turquesas, e esmeraldas luminosas…

E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ress√°bios
De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus l√°bios
E os dois grandes top√°zios dos seus olhos!

Sete Anos A Nobreza Da Bahia

Ao casamento de Pedro √Ālvares de Neiva. Ana Maria era uma donzela nobre, e rica, que veio da √ćndia sendo solicitada pelos melhores da terra para despos√°rios, empreendeu frei Tom√°s cas√°-la com o dito e o conseguiu.

Sete anos a nobreza da Bahia
Servia a uma pastora indiana e bela,
Por√©m servia a √ćndia, e n√£o a ela,
Que a √ćndia s√≥ por pr√™mio pretendia.

Mil dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Mas frei Tom√°s, usando de cautela,
Deu-lhe o vil√£o, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil que por t√£o sujos modos
Se lhe usurpara a sua Dona Elvira
Quase a golpes de um maço e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,
Mas qualquer mais amara se n√£o vira
Para t√£o limpo amor t√£o suja noiva.

Cinco Sentidos

Cinco sentidos s√£o os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escurid√£o,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haver√° mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior vis√£o,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencer√£o.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!

√ďdio Sagrado

√ď meu √≥dio, meu √≥dio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.

√ď meu √≥dio, meu l√°baro bendito,
Da minh’alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

√ďdio s√£o, √≥dio bom! s√™ meu escudo
Contra os vil√Ķes do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!

A Maria Ifigênia

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da raz√£o, qual tocha acesa
vem conduzir a simples natureza,
é hoje que o teu mundo principia.

A m√£o que te gerou teus passos guia,
despreza ofertas de uma v√£ beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do filho de Maria.

Estampa na tua alma a caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
s√£o eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.